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15.1.10

Valor Econômico - Teatro

Sem medo de Shakespeare
Teatro: Depois da montagem de "Hamlet", com Wagner Moura, Aderbal Freire-Filho dirige "Macbeth", projeto do ator Daniel Dantas, sua quarta incursão no universo do bardo inglês.
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
15/01/2010

Um artifício de menino esperto para escapar das exigências paternas foi o que originou o interesse de Aderbal Freire-Filho pelo teatro. O pai queria que os seis filhos lessem os clássicos de sua biblioteca. "Descobri uns volumes fininhos com peças de Shakespeare, Molière e muitos brasileiros, como Joracy Camargo, Raimundo Magalhães Jr. Fui tomando gosto, enquanto virava um especialista em leituras de teatro", conta Aderbal, que, nos intervalos entre os ensaios do quarto Shakespeare de sua carreira - "Macbeth", que estreia nesta semana no Rio -, conversou sobre suas mais de cinco décadas dedicadas à procura de um teatro que não afaste o público pelo hermetismo falsamente erudito.

Para o diretor, as plateias abandonaram as salas teatrais por puro tédio, mesmo diante de montagens que tentam inovar a forma e raramente o conteúdo. Reconhece que nem sempre consegue conquistar o público a quem destina seus espetáculos. Depois de um ano de temporada do "Hamlet" estrelado por Wagner Moura, montou "Moby Dick", recriação do romance de Herman Melville, que obteve boas críticas, mas não repercutiu positivamente nas plateias. Algo que já havia experimentado na década de 70, quando dirigiu Marília Pêra no monólogo "Apareceu a Margarida", de Roberto Athayde. "O sucesso me subiu à cabeça. Decidi criar um grupo e montar quatro peças ao mesmo tempo. Fracassamos, naturalmente", lembra.

A instabilidade do teatro nunca levou Aderbal a desanimar. Nos anos 70 decidiu abraçar a carreira, apesar da desaprovação da tradicional família cearense, que preferia vê-lo seguir os passos do pai, advogado. Nascido em 1941, cresceu em Fortaleza na época em que poucas companhias teatrais visitavam a cidade. Quase foi radialista, político e funcionário da Petrobras. Estudou direito e trabalhou com o pai antes de radicar-se no Rio para fazer teatro. Gostou da direção quando não encontrou quem dirigisse sua adaptação de "Flicts", de Ziraldo.

"Foi minha única incursão no teatro infantil. Ali, eu percebi que minha satisfação era maior na direção do que atuando", recorda Aderbal. Ele tem especial apreço por projetos de atores, como o espetáculo atual, que dirige a convite do ator Daniel Dantas, intérprete do protagonista. Renata Sorrah faz Lady Macbeth.

Ambientações que exigem a interação da plateia, movimentando-se por cenários distantes e inusitados já o atraíram. Como ator, fez "Diário de um Louco", dentro de um ônibus que percorria alguns bairros o Rio, e "A Morte de Danton", no canteiro de obras do metrô carioca. Em 1991, dirigiu o espetáculo itinerante "O Tiro Que Mudou a História" e levava os espectadores a diversos cômodos do Palácio do Catete, onde Getúlio Vargas morreu. No ano seguinte, a plateia de "Tiradentes, Inconfidência no Rio", era levada em ônibus para seis diferentes pontos do centro. Hoje, suas inovações cênicas estão na retomada de um teatro livre das convenções que o tornaram empoeirado. Sua preocupação não é recriar a gélida Escócia medieval durante o implacável verão carioca - o Teatro Tom Jobim fica dentro da floresta tropical do Jardim Botânico e o ambiente naturalmente abafado torna o uso de ar condicionado imperativo.

"O grande desafio do teatro hoje é não ser chato, empolado, é renovar-se e vencer o preconceito natural da plateia. É preciso conquistar o espectador. Shakespeare, que permite uma leitura em vários níveis de sofisticação, com referências políticas, poesia e jogos de palavras, escreveu para plateias majoritariamente analfabetas. A compreensão é simples, sem concessões. Ao longo dos séculos, o teatro foi se fechando, ficando mais científico, mais pesado. Shakespeare é anterior às convenções, é livre, é solto", explica. O bardo inglês situava uma ação na Dinamarca ou em Viena, batizando os personagens com nomes latinos. Narrava fatos contemporâneos, mas levava a história para a Escócia de 400 anos antes de seu tempo. "Ainda não existiam antropólogos, historiadores e sociólogos para apontar erros no enfoque político ou na fidelidade histórica", diz Aderbal.

Como em "Hamlet", ele traduziu o texto original, procurando uma linguagem que eliminasse "o falso rebuscado". Não se arriscou a traduzir sozinho. "Meu inglês não permitiria que eu fosse garçom em Londres", brinca. Da primeira vez, a versão foi dividida com a professora Bárbara Harrington e Wagner Moura. Agora, tem a parceria de João Dantas, filho de Daniel Dantas.

"Sempre traduzi as peças estrangeiras que montei, mesmo quando não tenho a menor ideia sobre o idioma. Quando fiz 'Casa de Bonecas', de Ibsen, pedi ajuda ao Carl Erik, que é dinamarquês, mas conhece norueguês. Ele traduzia, eu transformava em algo mais próximo de nossa fala. Fiz assim também com Brecht. Com Shakespeare, não quis ficar preso na métrica, mas respeitar sua poesia, que se compõe de imagens, metáforas, aliterações, ritmo", conta Aderbal, que não teme a fama de maldita de "Macbeth", pois teve sua dose de má sorte durante a montagem de "Moby Dick", quando se submeteu a uma cirurgia e precisou trocar o protagonista, acidentado na época dos ensaios.

Montar dois textos de Shakespeare em um intervalo pequeno não intimida Aderbal, convidado para a direção pelos protagonistas. "O projeto do Daniel era anterior ao do Wagner, mas compromissos dele só permitiram que a montagem viesse agora. São duas peças muito desafiadoras e incomparáveis. Não há como dizer qual é a melhor, o poema ilimitado que é 'Hamlet' ou o clima trágico, com o sobrenatural se impondo, em 'Macbeth'", comenta Aderbal.

O diretor completa: "Gosto de enfatizar o humano, que é a essência do teatro de Shakespeare. Macbeth não precisa ser a essência do mal, mas um homem que se desespera ao cometer seu primeiro assassinato. Não existe personagem raso em Shakespeare, todos têm as ambiguidade humanas".

É por isso, garante, que depois de um Shakespeare, tudo o que se quer é fazer outro Shakespeare. "E entre as duas eu fiz 'Moby Dick', que, segundo o crítico Harold Bloom, tem em Ahab o personagem mais próximo de Macbeth, em sua obstinação em levar todos para sua mesma loucura. Então, acho que eu estou no meu quinto Shakespeare."

14.10.09

Revista Aplauso - Edição 99


Hamlet

Wagner Moura vive o mais famoso personagem do teatro ocidental

A angústia de um homem em busca de vingança para o assassinato do pai e todos os questionamentos suscitados a partir da descoberta de uma verdade dolorosa fizeram de Hamlet o mais celebrado personagem da literatura ocidental, só superado em estudos ou citações, por Jesus Cristo. A tragédia de William Shakespeare chega ao palco do Oi Casa Grande estrelada – e produzida - por Wagner Moura, sob a direção de Aderbal Freire-Filho, depois de uma temporada de oito meses em São Paulo.

A nova montagem privilegiou uma aparente simplicidade. O palco é quase vazio, com poucos elementos cênicos. Para reduzir o tom impostado da representação, Aderbal fez uma nova tradução do texto – em parceria com Wagner Moura e com a professora de inglês Bárbara Harrington. O diretor e o ator falam aqui sobre a importância de Hamlet para o teatro de todos os tempos.




Aderbal Freire-Filho


O teatro vivo, a grandeza e a miséria da condição humana, a poesia, tudo está em Shakespeare. De um certo ponto de vista, todos os espetáculos, toda a vida de um artista de teatro é um caminho para Shakespeare, um caminho para alcançar a simplicidade do palco, sua poesia pura, e só assim poder mostrar a inesgotável representação do mundo das peças de Shakespeare.

Não são muitas as histórias e são infinitas as versões, as variações. A história de Ulisses, a de Jesus, a de Hamlet, a de Édipo, vamos contá-las sempre. Primeiro, ouvimos quando nos contavam. Depois vamos contá-las aos outros, assim anda a roda do mundo. Para as melhores histórias, todo tempo é o mesmo tempo.

Todo espetáculo de teatro feito a partir de um texto escrito é o resultado de uma co-autoria. E sempre uma parte dessa co-autoria é, obviamente, de autores vivos: os atores, diretor etc. Os vivos falam sempre do seu tempo, olham para o texto que encenam da perspectiva em que estão. Não vou fingir que sou um inglês da virada do século XVI para XVII para representar uma peça escrita nesse tempo. Nem Shakespeare fingiu que era um dinamarquês medieval para escrever sobre o tempo de Hamlet. Sou um brasileiro da virada do século XX para o XXI e é com as referências desse lugar e desse tempo que faço minha parceria com Shakespeare. Não gosto de chamar isso de inovar porque essa palavra pode ser traiçoeira, pode dar a entender que basta botar roupas de hoje e uns efeitos “modernosos” para ser atual e não é nada disso. Um espetáculo de jeans e camiseta pode ser velhíssimo e outro com roupas de época pode ser vivo, atual, novo. A vida, o presente, o novo não está só na aparência. As atrizes e os atores, esses sim, na maneira como atuam são vivos, isto é, presentes, isto é, novos. O espetáculo expõe essa vida.

Wagner Moura

Shakespeare é o melhor da época em que se fez o melhor teatro - a Europa, mais precisamente a Inglaterra da passagem do século XVI para o XVII. Hamlet é o que há de melhor em Shakespeare. Ali estão a compreensão extraordinária da natureza humana, a riqueza dos personagens, o domínio da narrativa, a poesia, o humor... Hamlet é o teatro da vida, a melhor peça já escrita.

A gênese desta montagem era a comunicação com o público. Hamlet foi um grande sucesso em 1600, não havia porque não sê-lo hoje também. A maioria das traduções paga tributo às portuguesas do século XIX, que pegavam o inglês elisabetano e traduziam para o português arcaico. Não há nenhuma razão para traduzir “go” por “ide”. Aderbal foi um mestre em passar o jogo de palavras do inglês shakespeariano para a nossa língua. Já acho até mais interessante montar Hamlet aqui do que nos paises falantes da língua inglesa, que não podem traduzi-lo.

A cada dia entendo mais o termo work in progress, que se aplica tão bem a qualquer trabalho em teatro, esse bicho vivo que se move. Hamlet é um personagem tão complexo, que pode ser feito de tantas formas... Duvido muito do crítico que vem com teorias acerca da psicologia de Hamlet (embora os psicólogos o amem). Stanislavski não se aplica a Shakespeare. Adoro pensar que o bardo antecipou Brecht. Hamlet não faria assim, Hamlet não agiria assado, Hamlet é deprê, Hamlet não pode rir, qualquer coisa que se diga é uma simpificação boba dos que querem dizer que conhecem bem Hamlet. Eu tenho convivido com ele e adorado conhecê-lo aos poucos, me surpreendendo a cada noite. Conhecê-lo e surprender-se com ele é conhecer-me e surpreender-me também comigo. Hamlet nos comporta a todos, todos somos Hamlet. Adoraria ter visto Paulo Autran fazendo o príncipe aos 80 anos. Daqui a quinze anos, vou retomá-lo e conhecendo-me, conhecê-lo mais um pouco. Puro work in progress...

15.5.09

Valor Econômico - Teatro

Geração 80
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
15/05/2009

Teatro: Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira, Cleyde Yáconis, Beatriz Segall e Sérgio Britto formam elenco estelar de artistas que mantêm a vitalidade com presença constante nos palcos

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A partir de outubro, a atriz Fernanda Montenegro passará a integrar um elenco seleto de astros e estrelas nacionais, um time de artistas que ao chegar à casa dos 80 anos mantêm uma vitalidade incomum nos palcos do país. Além de Fernanda, que na quinta-feira estreia "Viver sem Tempos Mortos" em São Paulo, estão em cartaz Bibi Ferreira, de 86 anos, Cleyde Yáconis, 85, Sérgio Britto, 85, e Beatriz Segall, 82. Com biografias que se confundem com a história do teatro brasileiro, todos eles se amparam em boas condições de saúde, disciplina rígida e imenso desejo de experimentar. Alguns chegam a se aventurar por um circuito que ultrapassa as fronteiras do confortável eixo Rio-São Paulo e percorrem o Brasil: apresentam-se em festivais ao lado de quem começa hoje a trilhar seus caminhos, cativam novas plateias e abraçam um público fiel que não se limita a acompanhá-los pela televisão. Não por acaso, a agenda desses veteranos que emendam temporadas de sucesso é sempre repleta de compromissos.

"Viver sem Tempos Mortos", espetáculo que Fernanda apresentará no palco do Sesc Consolação, é um monólgo sobre a vida da escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986). A atriz já levou a peça a cidades do interior do Rio e promoveu debates com o público depois das apresentações. Dirigida por um dos mais talentosos encenadores da nova geração, Felipe Hirsch, de 37 anos, Fernanda concebeu o projeto Caminhos da Liberdade, que incluía o contato direto com o público, além de exposição e exibição de documentários sobre Simone e a presença do ator Sérgio Britto como o filósofo Jean-Paul Sartre. O inesperado sucesso de Britto com "Ato Sem Palavras nº 1/A Última Gravação de Krapp", duas peças curtas de Samuel Beckett, levaram-na a seguir sozinha na empreitada.

"Queria mostrar uma pequena parte do esforço dos artistas até o momento em que se abre o pano", afirma Fernanda, que no espetáculo recorre a depoimentos da própria Simone de Beauvoir, extraídos de livros e cartas. "Pensar a cultura é uma militância. Sou de uma geração pós-guerra, que se pronunciava, que ia às ruas para pensar e sentir. Devemos refletir sobre o nosso cotidiano cada vez mais saturado de esperanças reduzidas pela falta de inteligência e pela brutalidade."

Atriz de grandes montagens teatrais como "As Lágrimas Amargas de Petra von Kant", de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), e "Fedra", de Jean Racine (1639-1699), Fernanda credita o entusiasmo experimentado aos 59 anos de carreira aos anticorpos desenvolvidos pelas carências que acometem o teatro brasileiro.

"Na época em que bilheteria rendia, vivíamos melhor. Somos de uma geração que não dependia da comissão do governo, que sempre tem comprometimentos políticos. Sobrevivíamos a tudo quanto era infecção", afirma a atriz, que tem na bagagem de premiações um Urso de Prata em Berlim por sua interpretação em "Central do Brasil", pelo qual foi indicada para o Oscar. "Prosseguimos, mesmo com patrocínios que não cobrem as despesas de produção porque o prazer de abraçar um trabalho por vocação já faz ganhar alguns anos de vida. Deve ser uma tortura alguém descobrir tardiamente, quando não há mais volta, que gostaria de ter feito outra coisa", diz.

A um mês de completar 87 anos, Bibi Ferreira também não olha para sua longa carreira com essa angústia da frustração. A decana da geração de ouro do teatro nacional mantém um vigor invejável e se reveza entre a comédia "As Favas com os Escrúpulos", de Juca de Oliveira, e as viagens Brasil afora com o musical "Piaf", que encena desde a década de 80. Apresenta-se em festivais de teatro e leva o espetáculo para festas como a que abriu, em Ouro Preto, as comemorações do Ano da França no Brasil. Não faz planos para o futuro. Sabe que nele está, certamente, "Piaf", uma exigência do público.







"É impressionante o poder das canções de Piaf. Boa parte da plateia não entende a letra, mas quer ouvir. Fiz tantos musicais que, quando Juca [de Oliveira] me entregou a comédia, imaginei que teria um descanso", afirma Bibi, com seu bom humor habitual. "Juca sempre dizia que ia escrever uma peça para mim. E como escreveu! São 70 páginas para a minha personagem. Nunca falei tanto em cena. E, depois de dois anos, continuamos em cartaz", comenta a atriz, que interpreta a mulher de um político corrupto, arrancando gargalhadas e sendo aplaudida em cena aberta em quase todas as apresentações.

Já é parte da lenda do teatro a estreia de Bibi no teatro com menos de um mês de idade, na peça "Manhãs de Sol", de Oduvaldo Vianna (1892-1972). A recém-nascida entrou em cena porque a boneca que fazia o bebê no espetáculo estava quebrada. Profissionalmente, Bibi só voltou ao palco adolescente, ao lado do pai, Procópio Ferreira (1898-1979), ainda sem saber que sua vida seria no teatro.

"Como qualquer mocinha, eu estudava piano e um francês aguado, só para enfeitar a vida. Não passava nada por minha cabeça. Talvez pretendesse cantar. Saía para dançar, tinha amigos, namorado. Mas era uma grande plateia", relembra Bibi. A atriz assistia a uma grande variedade de espetáculos que chegava ao Rio. Eram muitas companhias portuguesas, italianas, algumas peças de Jean-Louis Barrault (1910-1994), de Dulcina de Morais (1908-1996). "Aprendi teatro com Henriette Morineau [1908-1990], com Procópio. A paixão veio depois, quando descobri a beleza de uma carreira em que se entra em contato direto com a humanidade."



Quase 70 anos mais tarde, Bibi sente que o tempo correu rapidamente enquanto encarnava mulheres sofridas como Joana, a Medeia contemporânea de "Gota d'Água", a esforçada Eliza Doolittle em "My Fair Lady" ou a musa de Dom Quixote, Dulcineia, em "O Homem de La Mancha". A música é seu território de conforto, porém não descuida da palavra falada nem do domínio técnico no qual apoia a interpretação. De preferência sem microfones, para não relaxar e perder o brilho da atuação. Cumpre à risca o que exige dos atores que dirige. "Deixar-se levar pela emoção é um risco. A voz pode fraquejar. Atores são atletas da palavra, precisam proferi-la em alto e bom som."

Sérgio Britto, que estreia nesta semana em São Paulo, no Sesc Santana, é um bom exemplo de atleta da palavra nas duas peças de Beckett. Sua interpretação enérgica lhe rendeu o Prêmio Shell 2008. Essa, porém, será a última oportunidade para o público vê-lo fora dos palcos cariocas. "Quem quiser me ver, terá que ir para minha cidade. Estou na idade de fazer o que me agrada", afirma. Ele lembra que não foi fácil chegar ao nível atual. Na década de 50, ele e Sérgio Cardoso desfizeram uma das companhias que fundaram depois de falir - não por falta de público, mas pelo atraso no repasse do patrocínio governamental.

"Sou de uma geração que lutou muito pelo esplendor que o teatro brasileiro conheceu nas décadas de 50 e 60. Participei de companhias importantes, ao lado de Fernanda, de Fernando Torres [1927-2008], Ítalo Rossi [78 anos], Paulo Autran [1922-2007] e Nathalia Thimberg [que completa 80 anos em agosto]. O teatro é o que me determina. Ele sustenta, injeta vida. Então, a gente reclama, briga e insiste. E aí vêm surpresas como esta boa receptividade ao Beckett, o que demonstra que há um público interessado em qualidade", diz Britto, que se formou em medicina, mas nunca clinicou.

A medicina também estava nos sonhos da paulista Cleyde Yáconis, 85 anos. "Minha vocação é para a ciência, mas meu talento é para a arte", costuma repetir Cleyde, que abraçou o teatro em 1950, ao substituir uma atriz adoentada na companhia que tinha como maior estrela sua irmã, Cacilda Becker (1921-1969). Acabou conquistada de vez pelo palco, aprendendo a atuar no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ao lado de Cacilda, Sérgio Cardoso (1925-1972), Paulo Autran e Zbigniew Ziembinski (1908-1978). Aceitar o dom natural que não pediu a levou à busca por textos reflexivos, mesmo quando faz comédia.

"Não sou religiosa, porém senti que deveria retribuir ao público por esta aptidão que não pedi", diz Cleyde, há mais de um ano à frente do elenco de "O Caminho para Meca", de Athol Fugard, que já teve temporadas em São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Continuará a viajar com a peça até setembro, quando começa a ler novos textos, mesmo sabendo que no segundo semestre deve fazer televisão, a convite de Sílvio de Abreu, que pretende escalar Cleyde e Britto para viverem um casal em sua próxima novela. Em 2002, os dois já eram casados em cena na montagem de "Longa Jornada de um Dia Noite Adentro", de Eugene O'Neill (1888-1953), sob direção de Naum Alves de Souza, quando ganhou por sua brilhante atuação o penúltimo prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Tem mais cinco. Acumular trabalhos não a assusta.

"Vivi uma época em apresentávamos dez sessões por semana, com duas récitas às quintas-feiras, três no sábado. No dia de folga, eu ainda tinha dublagem de filmes para a televisão. Aquilo, sim, era puxado. Hoje, fazemos dez espetáculos por mês. Eu preciso do teatro, ele é precioso e essencial para me manter presente, viva. A única coisa que realmente temos é o trabalho. Ele é a sua alma, seu espírito, sua cabeça", afirma Cleyde.

Sem nostalgia, Beatriz Segall vê o amadurecimento como libertação de imposições e compromissos aborrecidos. Hoje, diz que tem crédito para cometer "pequenas loucuras". Entre elas a desistência de produzir espetáculos. "Estou vivendo a época mais feliz da minha vida, algo que só senti quando meus filhos nasceram", conta a atriz. "A alegria do artista é saber que sua aposentadoria será sentida pelo público. Continuo sendo chamada para o palco. Mas correr atrás de subvenção, inscrever projeto em Lei Rouanet, isso é passado para mim", diz Beatriz, que até o fim deste mês estará no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, em São Paulo, com o monólogo "A Senhora das Cartas", de Alan Bennett. Depois, pretende voltar a encenar alguma peça de Edward Albee. "Tudo depende de alguém decidir montar e se lembrar de mim", brinca.

Longe de se identificar com a obsessão pela boa forma, uma onda iniciada na década de 70, os artistas da geração 80 encaram os exercícios físicos como parte do preparo exigido para quem se entrega ao palco. Parte da disposição para viver personagens densos como a artista plástica que luta com preconceitos em "O Caminho para Meca" Cleyde atribui a hábitos regrados. "Não fumo, não bebo e não como carne, por opção mesmo. Não gosto do sabor. Minha dieta é à base de grãos. E depois de uma certa idade passei a fazer alongamento e musculação em casa", revela.

A coluna, vez por outra, incomoda Bibi Ferreira, exigindo sessões de fisioterapia. É o preço para quem faz questão de subir ao palco em desconfortáveis saltos altos. "Levo uma vida sadia, até idiota. Sou muito pacata, caseira, gosto de ficar lendo. Nunca fumei nem bebi. Acho que isso facilita para a disposição para, na mesma semana, ir a Palmas, no Tocantins, descer para o Espírito Santo, seguir até Ribeirão Preto, voltar para o Rio, fazendo dois espetáculos diferentes", observa Bibi, que ingere um coquetel de vitaminas "de todas as letras do alfabeto", além de preocupar-se em poupar a voz. Como Cleyde Yáconis, não concede longas entrevistas na semana em que estreia espetáculos.

"Depende da resistência física, mas também da cabeça o tipo de vida que temos aos 80 anos. Facilita muito ser apoiada por médicos que me acompanham há tanto tempo que me sinto quase casada com eles", brinca Bibi.


Beatriz Segall sente falta da hidroginástica quando sai em turnê pelo país. "As mulheres deixam os homens para trás na longevidade, na atividade. É que elas vão de encontro à idade, se preparam para enfrentar a vida", observa. Sérgio Britto rendeu-se à ginástica depois da sétima pneumonia. Não adoeceu mais. "Minha geração não tinha esse costume, sequer conheceu a expressão corporal. Só uma vez treinei pantomima. Agora, faço musculação e danço", diz o ator, que aparece sem camisa em cena durante o "Ato Sem Palavras nº 1".

Isabel Cavalcanti, que dirige Britto nas duas peças de Beckett, admira a seriedade e o desprendimento do ator, que a convidou para o espetáculo. O trabalho fluiu com harmonia em ensaios diários de apenas três horas. "Ele é disciplinado, chega na hora com o texto decorado. Respeita o público e a companhia."

Para Felipe Hirsch, que dirige Fernanda Montenegro, em "Viver sem Tempos Mortos", a geração de artistas que passou dos 80 anos "é capaz de tudo". Quando dirigiu o último trabalho em teatro de Paulo Autran, então com 85 anos, conheceu a empolgação de um ator entusiasmado como um estreante pelo trabalho.

"Com Fernanda também é assim. A paixão do iniciante está dentro deles, que se entregam ao teatro com a empolgação de amadores. Minha função é encontrar o ponto em que se escondem essas sensações."

17.11.08

Alfarrábios - Valor Econômico, Teatro

Company traz o clima da Brodway aos cariocas
08/02/2001
P0r Olga de Mello, do Rio

Ainda computando o sucesso de "Cole Porter - Ele nunca Disse Que Me Amava", campeão de público na temporada carioca de 2000, com cerca de 50 mil espectadores em nove meses, Möeller, que assina a direção, e Botelho contam novamente com Cláudio Magnavita como produtor.

Confessando-se um admirador incondicional de musicais, Magnavita manteve-se distante de qualquer decisão no processo criativo da peça. "Crio condições para que cada um desempenhe sua função na montagem. Sempre me espantou o amadorismo da maioria dos produtores no Rio. Há uma pulverização de apoios que levam o patrocínio para o nível de mendicância", diz.

"O investimento cultural dá retorno, tanto que nossos patrocinadores são os mesmos de 'Cole Porter': apenas duas companhias, sem necessidade de lojas de tecidos ou restaurantes financiarem figurinos ou refeições. Se começarmos a produzir cultura profissionalmente, é possível tornar o teatro um atrativo turístico, como ocorre em Nova York, onde se deve à Broadway a permanência de visitantes por mais duas noites na cidade", completa.

Segundo Botelho, a Broadway pode se dividir em antes e depois de "Company", em razão das mudanças formais e estilísticas que criou, reconhecidas ao ganhar sete prêmios Tony em 1970. A história do solteirão Robert, que passa por dúvidas em relação a seu rumo de vida ao completar 35 anos, foi a junção de cinco peças de George Furth, entremeadas por canções de Sondheim, que discutem casamento, separações e relacionamentos.

"É um corte no tempo, a história se desenvolve durante um minuto dentro da cabeça do personagem. Robert se descobre sozinho em seu aniversário e pensa se deve se casar ou permanecer solteiro. Essa peça passou por tantas mudanças em sua concepção que acabou trazendo um novo gênero dentro do musical, o chamado 'concept musical', sem um enredo linear", informa Botelho.

A manutenção do título original não foi uma concessão ao apelo mercadológico do idioma inglês, esclarece. "A palavra companhia tem um sentido diferente em português. Para nós, ela remete a estar com alguém ou a uma empresa. Em inglês, ela também é sinônimo de grupo, de elenco. 'Rent' também não virou 'Aluguel' no Brasil", lembra Botelho, que interpreta Robert , à frente de 13 atores, entre eles sua principal parceira de palco, Cláudia Netto. Também participam de "Company" o coreógrafo Renato Vieira, o iluminador Paulo César Medeiros e o estilista Antonio Augustus, que assina os figurinos.


23.9.08

Revista Aplauso Edição 95


Ensina-me a Viver
Glória Menezes comanda no palco uma celebração à vida
Um jovem mórbido que cultua a morte. Uma mulher às vésperas dos 80 anos, que celebra a vida a cada minuto. O encontro desses personagens antagônicos, que têm encantado platéias do mundo inteiro há três décadas, pode ser conferido pelo público carioca a partir de agosto na Sala Marília Pêra do Teatro Leblon, com Glória Menezes e Arlindo Lopes estrelando Ensina-me a Viver. Para o diretor João Falcão, o inusitado relacionamento entre o depressivo Harold e a anárquica Maude provoca discussões cada vez mais atuais: “Vivemos uma época em que empresas e hospitais promovem cursos de humanização para seus funcionários. A peça remete a reflexões sobre o prazer de viver com a maior intensidade possível, algo que muita gente esquece hoje em dia”.

Na década de 70, a comédia dramática Harold e Maude ganhou o mundo em seu formato cinematográfico, sob direção de Hal Ashby, com Bud Cord e Ruth Gordon nos papéis principais. Em 1982, Diogo Vilella e Henriette Morineau (mais tarde substituída por Maria Clara Machado) interpretaram o casal nos palcos cariocas. O texto do americano Colin Higgins conta a história de Harold, um rapaz rico e depressivo, que gosta de encenar diferentes formas de suicídio para chamar a atenção de sua mãe distante. Ao conhecer a exuberante e libertária Maude, Harold aprende a apreciar a natureza, as pessoas e o mundo.

“Viver Maude, um personagem tão rico e raro para atrizes na minha faixa etária é uma oportunidade única”, diz Glória Menezes, que se inspirou em uma tia-avó para compor a protagonista. “Minha tia era irreverente, casou-se com um homem mais jovem e jamais deu satisfações de sua vida para a família. Ela só não chegava a ser tão libertária quanto Maude, uma mulher solta no mundo, que, ao conhecer Harold, já contabilizava cinco ex-maridos. Combinei o dinamismo de minha tia com a doçura e a meiguice de minha avó Mercedes, outra mulher com uma forma muito especial de encarar o mundo”.

João Falcão e Arlindo Lopes não poupam elogios à atriz – e não apenas pela atuação como Maude. Creditam ao bom humor de Glória o clima alegre de trabalho. “Houve um entrosamento perfeito entre toda a equipe. Glória, certamente, é uma das responsáveis por isso, pois espalha energia positiva. Tê-la à frente do elenco é um privilégio. Sou admirador do trabalho dela em teatro, cinema e em televisão”, diz João Falcão.

Arlindo Lopes, idealizador do projeto, confessa a tensão que sentiu ao convidar Glória para o espetáculo. Ele havia adquirido os direitos da peça em 2003 e já tinha conseguido que João Falcão concordasse em dirigir. Sabia que Glória tinha interesse em interpretar Maude e que já pensara em produzir uma montagem. “Deu um frio na barriga, mas Glória não só aceitou como se tornou sócia na produção”. Era o início de uma bem-sucedida temporada de oito meses em São Paulo. O texto original, traduzido por Millôr Fernandes, não sofreu muitas alterações.

“É uma trama simples, mas que não ficou datada. O jovem Harold é soturno como muitos adolescentes de hoje, que parecem padecer de uma eterna inadequação à vida. Maude, ao contrário, é esfuziante como uma garota de 80 anos. O envolvimento amoroso entre os dois ainda causa espanto e até indignação, mas o que a peça mais remete é a indagações sobre o significado da vida através de Maude, uma mulher que domina a própria vida e também as platéias”, diz João Falcão. Glória Menezes concorda que o romance não é o ponto mais importante do enredo, e sim a possibilidade de transformação que todos deveriam permitir em suas vidas. “Qual jovem não gostaria de conviver com um adulto que vive de acordo com suas próprias regras? O personagem é simbólico, mas o público se identifica com essa mulher que decide até o dia de sua morte”, afirma Glória.

O fascínio que Maude exerce é constatado a cada espetáculo pela equipe. “Muita gente moça chega para nós e diz que querem envelhecer com a sabedoria dela. O mundo está cheio de jovens parecidos com o Harold e senhoras semelhantes a Maude”, acredita Arlindo Lopes.

19.9.08

Valor Econômico - Teatro

Na companhia do silêncio
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
19/09/2008

Na companhia do silêncio

Sem camisa no palco, Sérgio Britto é um homem conformado com um destino de sofrimento, que não pode encontrar alívio sequer na morte. Minutos antes, de pijama e quimono, desesperou-se como um escritor que lamenta haver abandonado o grande amor de sua vida pela arte. A amargura e a fragilidade Britto deixa aos personagens criados por Samuel Beckett, como o homem que luta pela sobrevivência em "Ato sem Palavras I" e o intelectual solitário de "A Última Gravação de Krapp". Os dois solos exigem muito esforço físico do veterano ator de 86 anos, que, sentado na platéia do teatro Oi Futuro, no Rio, festeja com o entusiasmo de um estreante os elogios da crítica ao espetáculo, enquanto já sonha com o próximo, que só conseguiu inscrição na Lei Rouanet depois da interferência do ministro da Cultura, Juca Ferreira.
Silvia Costanti / Valor
Sérgio Britto, que abraçou o teatro há 60 anos, seis dias após se formar em medicina: Ordem do Mérito Nacional, recebida neste ano, não impede que faça críticas à política cultural

"No Brasil, todo projeto é uma luta nova. O governo brasileiro deveria estar interessado em fazer teatro e não em fazer do teatro um espaço para sua política. É importantíssimo que patrocinem índios do Oiapoque e mamulengos de não sei onde, mas não é por isso que vão matar os velhos que fizeram o teatro brasileiro até agora", reclama.

O reconhecimento do governo por seus serviços à cultura brasileira chegou neste ano, quando ganhou a Ordem do Mérito Nacional. A comenda não serviu para reduzir suas críticas à política cultural. Apesar do prestígio, teve de recorrer ao ministro para incluir na Lei Rouanet a peça sobre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir que pretende encenar com Fernanda Montenegro em 2009. "Há um ano, eu e Fernanda entramos com o processo. Quando eu soube que pela segunda vez haviam perdido nossa documentação, falei com o ministro. O raciocínio do governo em relação ao patrocínio é confuso", afirma.

A banalidade disseminada pela cultura de massa também o incomoda. "O teatro brasileiro está cheio de pecinhas. O casalzinho de sucesso na novela de televisão monta uma pecinha, em vez de amadurecer e se preparar para fazer uma peça decente. Eu já disse que nunca vi tanta peça ruim quanto neste ano. As exceções são 'Salmo 91', 'As Centenárias', 'O Dragão'. Mas o pior do teatro está se apresentando agora, fruto da ausência de investimentos do governo, de preparo dos atores e do desaparecimento das companhias teatrais."

Em seu terceiro e "definitivo" Beckett, Sérgio Britto já perdeu a conta das peças em que atuou, produziu ou dirigiu, algo em torno de "140 ou 150". Há 60 anos, seis dias após se formar em medicina, abraçou o teatro profissionalmente, interpretando Horácio, em "Hamlet", sob a direção de Pascoal Carlos Magno. "Eu queria ser obstetra, mas me apaixonei por aquela brincadeira. Só desenvolvi a responsabilidade de hoje, em que chego duas horas antes do início do espetáculo, na segunda montagem do "Hamlet", quando fiz o Rei Claudius e percebi o risco do erro."

A descoberta aconteceu em cena, quando, durante um monólogo em que carregava um candelabro com velas acesas, ateou fogo a uma cortina. "Com a outra mão, soquei o pano velho e apaguei o fogo. Ganhei minha primeira salva de palmas como bombeiro", recorda-se.

Para evitar surpresas, toda sexta-feira ensaia "Ato sem Palavras I", testando os mecanismos que fazem descer ao palco os objetos que o personagem tenta agarrar. Ao fim dos 56 minutos de espetáculo se sente massacrado pela entrega aos personagens. Em "Krapp", há pouca movimentação. Come duas bananas, joga as cascas no chão, ouve o relato gravado da separação de cenho crispado, proferindo poucas palavras. Durante os 16 minutos do "Ato", caminha de um lado para o outro do palco, tentando alcançar uma garrafa acima de suas mãos. "Quando acaba, estou em fogo, transpiro tanto que fico quente. As pessoas falam comigo, eu nem ouço direito. Então, represento outro papel, do ator atento aos elogios."

A energia em cena credita ao carinho da atriz Isabel Cavalcanti, que convidou para a direção, e à preparação física pelos exercícios que faz diariamente com o sobrinho Paulo César, filho do irmão, Hélio. Quando superou a sétima pneumonia, em 2007, rendeu-se à necessidade da ginástica. "Minha geração não tinha esse costume, nem conheceu a expressão corporal. Só uma vez treinei pantomima com a Luciana Petrucelli, mulher do Gianni Ratto, em 1956. Agora faço musculação e danço. Estou mais forte. Mas se tenho saúde é porque o palco me dá saúde, não o contrário", garante.

Como Krapp, alter ego do irlandês Samuel Beckett, já tomou a decisão de encerrar um relacionamento pelo teatro, sem arrependimentos. Em sua peça mais romântica e autobiográfica, Beckett recrimina o personagem até no nome. "Krapp se xinga de cretino, de imbecil. A palavra inglesa 'crap' quer dizer merda. Não vivi o mesmo drama. Minha paixão pelo teatro sempre foi maior do que pelas pessoas. Não quero dizer que não sou capaz de gostar das pessoas. Infelizmente, gosto mais de teatro", esclarece, antes de se lembrar serenamente do amigo Fernando Torres, morto recentemente.

Britto enaltece o desprendimento de Fernando e preocupa-se com a viúva, Fernanda Montenegro. "Fernando era absoluto. Tudo o que admiramos na luta e no empenho pelo teatro Fernando fez permanentemente. Um ator excelente, que não se dava bons papéis - passava para os outros. Como era maravilhoso o olhar dele quando via Fernanda entrar em cena. Os dois eram totalmente integrados, Fernando sempre mais sério, contido. Mesmo nesse último período ele demonstrava o mesmo interesse pelo teatro. Só não suportava Beckett."

Depois da peça sobre Sartre e Simone, ele gostaria de voltar a encenar "Rei Lear", de Shakespeare. "Mas só se tiver um elenco sério, bem-disposto. Ou ainda posso encontrar um autor novo, diferente, que me empolgue", revela.

A renovação do teatro brasileiro, para Sérgio Britto, se dá por intermédio de atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos, Wladimir Brichta, Selton Mello, Matheus Nachtergale, Andréa Beltrão, Débora Bloch, Dira Paes, Drica Moraes, Malu Galli, Mariana Lima. "Gosto muito de Fernanda Torres", destaca. Ao perceber que a maioria dos que citou já chegou ou se aproxima dos 40 anos, diz que é nessa idade que o ator começa a evoluir para a maturidade. Volta a lembrar da diretora Isabel, que "criou um ambiente de companhia" na equipe reunida para as peças de Beckett. "A satisfação com o trabalho é essencial. Quando minha mãe morreu, fui ao enterro de manhã e à tarde ensaiei uma ópera no Municipal. O trabalho aplaca a dor."

Sozinho em cena, tira sua companhia do silêncio da platéia. "É muito forte, muito bom, é o que mais gosto de ouvir, o silêncio total. É um complemento para o meu silêncio, a minha solidão. Parece que nesse silêncio absoluto está o compartilhamento entre palco e público", afirma, lamentando apenas não sair mais em viagem por cidades pequenas ou bairros de periferia: "Ali estão as melhores platéias, prontas a receber o teatro. Um público mais autêntico, que procura o teatro curioso, sem idéias preconcebidas".

14.8.08

Revista Aplauso - Teatro Edição 87

Duas matérias da revista, na qual assino todas as reportagens.



As Centenárias
Novo texto de Newton Moreno marca o retorno das amigas Marieta Severo e Andrea Beltrão ao palco do Teatro Poeira, sob direção de Aderbal Freire-Filho

Duas mulheres, uma mais velha, outra mais jovem, ganham a vida encomendando corpos e chorando mortos. Um trabalho lúgubre. De forma alguma, afirma Marieta Severo, que interpreta uma das carpideiras de As Centenárias, peça que volta a reuni-la, no palco do Teatro Poeira, com a amiga e sócia Andréa Beltrão. “As carpideiras são contratadas para dar um brilho nos velórios. E essas duas que interpretamos conseguem até passar a perna na morte”, diz a atriz.

Mais uma vez, Aderbal Freire Filho está dirigindo Marieta e Andréa. “Formamos um núcleo de trabalho, os três. É o núcleo Poeira, que inclui aí o cenógrafo Fernando Mello e o iluminador Maneco Quinderé. Sempre gostei de trabalhar com equipes. Fiz quatro peças do Naum Alves de Souza com o mesmo grupo, o mesmo elenco. É a situação ideal, todos vivem afinados, em sintonia, não existe aquele desconforto do primeiro ensaio, os códigos já estão decifrados, diálogos fluem”, diz Marieta.

As duas atrizes inauguraram o Poeira, há dois anos, com uma montagem de Sonata de Outono, dirigida por Aderbal. Para subirem ao palco novamente, queriam um texto leve, alegre, bem distante da complexidade emocional da peça anterior. Convidaram, então, Newton Moreno, autor da aclamada Agreste, para criar uma peça especialmente para elas. Inspirado na amizade das duas, nasceu As Centenárias. Segundo Marieta Severo, o pernambucano Newton, apesar de viver há 17 anos em São Paulo, é fiel às raízes nordestinas, além de conhecer profundamente a cultura popular, tratando a morte sem qualquer respeito, recriando um clássico da cultura popular, que é o desafio, o duelo com o destino.

“Essa intimidade com a morte, a mistura do mundo real ao fantástico, com aquele sabor brasileiro, é deliciosa. É interessante ver como o surreal está inserido no cotidiano dessas pessoas e mostrar também um universo desconhecido para quem vive nos grandes centros. As carpideiras não são apenas importantes para os rituais fúnebres, mas têm uma aura mística. Elas são as eleitas, com um dom especial para encomendar os mortos. Ainda hoje, em muitos recantos do interior do Brasil, elas têm essas funções”, conta Marieta.

Em “As Centenárias”, a jovem Zaninha (Andréa Beltrão) admira Socorro (Marieta Severo) e quer seguir a carreira de carpideira, mas precisa passar pela maternidade, antes, o que a fará temer perdas e respeitar a morte. No entanto, depois que Zaninha abraça a função, ao lado de Socorro, e tem a vida de seu filho ameaçada, as duas mulheres conseguem, ardilosamente, enganar a morte. Antes disso, encontram diversos personagens, entre eles o cangaceiro Lampião, um coronel traído e uma viúva inconsolável. Os diferentes personagens são interpretados pelas duas atrizes, que dividem as cenas com o ator Sávio Moll e diversos bonecos que elas próprias manipulam. Os bonecos foram criados por Miguel Vellinho, que as ensinou as técnicas de manipulação. Sávio Moll manipula a boneca “Mulher de Luto”, faz a Morte e ainda toca rabeca, acompanhando as incelenças, os cantos fúnebres entoados pelas carpideiras. A ação transcorre em torno de um caixão, ponto central do cenário criado pelos cenógrafos Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque. No fundo do palco, presos a uma enorme grade, estão cerca de 240 bonecos, sendo 60 mamulengos confeccionados por Mestre Tonho, de Olinda. Os outros 180 foram criados pela professora em arte de bonecos Ivete Dibo, que ainda fez máscaras para compor o cenário, que tem a forma circular, similar a um picadeiro de circo.

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O Bem-Amado
Marco Nanini vive o vilão que aprendemos a amar


Corrupção, muita retórica e poucas realizações. O que poderia ser um resumo da carreira de um político brasileiro também serve para definir um dos maiores anti-heróis da dramaturgia do País. O fascinante vilão criado por Dias Gomes em 1962 está de volta. Depois de ser apresentado nos palcos por Procópio Ferreira e popularizado pela interpretação de Paulo Gracindo na novela O Bem-Amado, Odorico Paraguaçu renasce, desta vez na pele de Marco Nanini, no Teatro das Artes.

“Odorico não envelhece, continua atual, é perene”, diz Nanini, que não quis assistir a fitas com capítulos da novela ou do seriado que Paulo Gracindo estrelou nos anos 80 para evitar influências na recriação do personagem. Sem qualquer referência, portanto, Odorico se impôs gradualmente para Marcos Nanini. “Primeiro, surgiu um convite informal para fazê-lo em um filme. Depois veio um outro convite informal, desta vez para estrelar o piloto de um novo seriado sobre o Bem-Amado. Foi então que achamos oportuno montar a peça, que tem um texto delicioso, engraçado e bastante contemporâneo”, conta Nanini.

Síntese da Farsa

Da mesma forma que Dias Gomes, que ao adaptar sua peça para a televisão incorporou situações que o Brasil vivia na década de 70, a nova ambientação da peça traz sinais do mundo contemporâneo nesta versão assinada por Cláudio Paiva e Guel Arraes, com direção de Enrique Diaz. Que não se esperem, no entanto, alusões a escândalos administrativos da atualidade. “Não queremos focar a ação em críticas a partidos ou a políticos. A figura de Odorico prima pela síntese da farsa, ele já simboliza muitos elementos sem haver necessidade de estar ligado ao mundo real”, diz Nanini, que se declara feliz em participar de mais uma comédia. “A comédia me acompanha. Não é que eu me afaste do drama, mas é bom trabalhar um texto tão divertido”.

Embora não tivesse uma relação próxima com Dias Gomes, Marcos Nanini participou tanto do primeiro quanto do último trabalho escrito pelo dramaturgo para a televisão. Na década de 60, Nanini foi chamado, com outros estudantes de teatro para uma cena de duelo de espadachins na novela A Ponte dos Suspiros, adaptação de um dramalhão histórico italiano, que o escritor assinava sob o pseudônimo de Stela Calderon. “Estavam à procura de quem soubesse um pouco de esgrima. Lá fui eu, com outros colegas, fazer figuração. Acho que eu morri na cena”, lembra Nanini, que, mais tarde, conheceu Dias Gomes, que, em 1998, adaptou para a televisão o romance Dona Flor e seus Dois Maridos – em parceria com Marcílio Moraes e Ferreira Gullar. “Desta vez, eu era Teodoro, o segundo marido de Dona Flor”, conta Nanini.

Quem não se lembra?

“Cachacistas juramentados" e "donzelas praticantes"; “Chamem a imprensa escrita, falada e televisada”; "Vamos botar de lado os entretanto e partir pros finalmentes".

Os termos e frases cunhados por Odorico Paraguaçu tomaram conta do Brasil em 1973, quando foi ao ar a primeira telenovela a cores do País. É difícil definir o caráter de Odorico Paraguaçu, um “coronel” do interior, que domina a fictícia cidadezinha baiana de Sucupira, enquanto almeja chegar ao governo do estado, apresentando como grande obra de sua gestão o cemitério municipal – que não pode ser inaugurado porque ninguém morre na cidade. Por isso, ele se regozija com a chegada do matador Zeca Diabo, que cumpre promessa ao Padre Cícero de recuperar-se e abandonar a vida de pistoleiro. Em Sucupira, outras figuras do universo de Dias Gomes ficaram célebres por causa do Bem-Amado, como Dirceu Borboleta e as três irmãs Cajazeira, as solteironas apaixonadas pelo prefeito.

Revista de Teatro - SBAT

A Criação da Segunda Pele

Olga de Mello

Os figurinistas Ney Madeira e Marclo Pies falam das dificuldades do ofício e da magia de ver o ator vestir o figurino pela primeira vez

Nascidos e criados em Niterói na década de 60, Ney Madeira e Marcelo se espantam por nunca haver se ‘esbarrado’ na adolescência. Moravam em bairros próximos, pretendiam trabalhar em outras áreas – Ney cursou Arquitetura, Marcelo estudou Letras – e se mudaram para o outro lado da Baía de Guanabara na mesma época.

No estúdio de Ney Madeira, no terraço de um edifício de onde se divisa a Enseada de Botafogo, eles se encontraram pela primeira vez para falar sobre a criação de figurinos, atividade a que chegaram gradativamente, e que os apaixona, apesar da falta de estrutura que ainda enfrentam nas produções brasileiras – desde a lavagem errada de peças de roupa até a adaptação de roupas para diferentes atores, sem consulta a quem os criou.

“Somos heróis da resistência, o teatro brasileiro sobrevive por causa do amor de seus profissionais”, diz Ney Madeira, que também é professor de cenografia, cenotécnica e indumentária em universidades particulares. Com trabalhos em mais de 100 peças desde o início da década de 90, ele acumula indicações para prêmios tanto em cenografia quanto em figurinos. “Fica como cartão de visitas da gente. Ganhei prêmios logo que comecei, depois, não parei mais de ser indicado”, conta. A mais recente indicação foi pelo figurino da montagem de “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Não pode se queixar de pouca atividade: “Este ano já foram sete peças, mal acabando um projeto, iniciando o seguinte”.

Marcelo Pies acumula com o teatro produções para cinema e publicidade e tem trabalhos expressivos no currículo, como “Tio Vânia” – indicada para o Prêmio Shell de melhor figurino em 2003 - e “Hamlet”, ambas dirigidas por Aderbal Freire-Filho. “Gosto de transitar em meios diferentes, mas é no teatro que percebemos as respostas imediatas ao que foi criado, não apenas por quem veste a roupa, mas com a reação da platéia”.

Para suprir as carências de um mercado onde não se encontram sequer zíperes em tamanhos diferentes, o jeito é abusar da criatividade. Cortinas se transformam em toalhas de mesa, colchas se transmutam em casacos. Os dois lamentam os orçamentos apertados das produções, que contam cada vez menos com patrocínio e garantem, com olhos brilhantes, que todos os esforços são compensados quando testemunham o momento em que um ator veste pela primeira vez o figurino e o personagem surge na cena.

Como foram seus primeiros passos profissionais?

Ney Madeira – Eu fazia Arquitetura na UFF e acabei entrando para um curso de cenários e adereços para teatro. Comecei a me interessar por teatro, cheguei a fazer formação de ator, mas era muito canastrão. Vim fazer cenário e figurino na CAL e na Martins Pena. Conheci, então a Lídia Kosowski, que foi minha madrinha em cenário. Com o tempo, comecei a fazer assistência da Lídia, montamos uma parceria e eu passei a fazer figurino. Virou uma dobradinha, a Lídia no cenário e eu nos figurinos. Hoje, eu atuo nas duas frentes. Divido o ateliê com a Lídia, mas trabalhamos separadamente, com clientelas diferentes. Continuamos muito amigos.

Marcelo Pies – Eu estudava Letras na UFRJ e comprava roupas da confecção Transfigura, da Cláudia Kopke e da Emília Duncan, que acabaram me chamando para trabalhar com elas. Emília e Cláudia me acolheram, foram minhas madrinhas. Quando a confecção acabou, embora minha intenção inicial fosse fazer moda, eu já estava acompanhando a Emília em criação de figurinos para publicidade e cinema. Só fui trabalhar com teatro em 1995, com “Cinco Vezes Comédia”, do Hamilton Vaz Pereira.

Trabalhar com criação de roupas hoje é muito mais fácil do que quando vocês começaram, não?

Ney Madeira – Não existia nada de material acessível, não havia cursos superiores de moda que criaram mercado para a literatura neste setor. A gente se atirava no abismo, pesquisando em livros, romances, crônicas.

Marcelo Pies – A nossa vida melhorou muito. Tem mais material importado, muitas revistas, caras, tem Internet. Antes, recorríamos a qualquer fonte de pesquisa, incluindo cinema.

Ney Madeira – Outro aspecto complicado era que as produções nunca davam as condições para fazer o trabalho que você havia criado. Isso fez com que eu me empenhasse muito para dar o melhor na confecção do figurino. Para suprir a carência das produções, eu ia lá, bordava, botava algo meu na roupa. Até hoje eu me dedico muito, o que acabou servindo para me abrir caminho no teatro. Não há melhor divulgação que um trabalho bem realizado. Dei sorte, também, porque minha primeira montagem amadora foi em 1989. Três anos depois, eu fui indicado a um prêmio Coca-Cola por uma montagem infantil de “Tartufo”. A indicação alavancou minha carreira no início. Fiz muito teatro infantil, um atrás do outro. Depois, vieram óperas, balés, peças para público adulto. Aqui, fazemos de tudo. Na Europa, nos Estados Unidos, tem gente que só faz figurino de ópera, de balé.

Qual é a principal dificuldade no trabalho de vocês?

Marcelo Pies – A falta de um local que reúna profissionais dedicados a teatro. A gente sai distribuindo encomendas por tudo quanto é lugar da cidade.

Ney Madeira – Só o (Teatro) Municipal tem costureiras e alfaiates contratados, porém eles são funcionários públicos, não viram a noite para entregar o material a tempo. Agora, são fantásticos. Ninguém faz “tutus” para balé melhor do que as costureiras do Municipal.

Marcelo Pies – Nos Estados Unidos até os teatros amadores das universidades têm ateliês de costura. Aqui não existem ateliês nem há renovação do pessoal especializado em costura para teatro. O teatro é artesanal, não é indústria como o cinema, a publicidade ou a televisão.

Ney – Com esta leva de musicais mais grandiosos, talvez comecemos a ter uma produção específica para teatro, com mais profissionais habilitados. Estamos sempre inventando a roda. Em Londres você pode escolher um jacquard e mandar produzir um tecido do século 18. Aqui não existe isso, temos que pintar, bordar, estampar sozinhos.

Como é o processo de criação de um figurino? Em que vocês pensam primeiro, no personagem, na história, no ator, no pedido do diretor?

Ney Madeira – Tem diretores que dizem “Não entendo de figurino, faz aí”. Isso é a pior relação possível. E há os que indicam caminhos. O bom diretor é o que consegue agregar a equipe e criar um conceito para o espetáculo em que todos vão trabalhar. Aquela pessoa que faz reuniões periódicas de criação e concepção, onde você cruza cenografia, figurinos, direção musical. São os melhores resultados. O que deixa a gente solto, sempre pode dizer: “Ih, não era bem isso que eu pensava”. Isso acontece pouco. Em geral, as pessoas adoram tudo. Tem gente que não consegue visualizar, nem ver desenho. Tem que mostrar o caminho. Tem aquele que encomenda. Eu quero isso. Você tenta criar, mas “não era isso o que eu queria”. São poucos. A maioria dá liberdade de criação. Sempre vai bater, porque a gente acompanha ensaio.

Marcelo Pies – O trabalho é de equipe. Se o ator não estiver feliz, não vai dar certo, se a luz não bater bem, vai estourar a cor, o figurino não parecerá bem. Eu nunca tive isso de nenhum diretor me dizer: é assim. Então, vou fazendo e mostrando as idéias. E nosso trabalho não se limita à criação da roupa, a mostrar como conservar os figurinos, mas também o de orientar a postura dos atores com algumas peças, ao uso de sombrinhas, xales, chapéus, perucas. Quem está com um vestido de cauda, por exemplo, precisa aprender a antes de se levantar, chutar a cauda para trás, como se fazia antigamente. Se a atriz não consegue, temos que adaptar o figurino às possibilidades dela.

Ney - É um trabalho que exige psicologia. Há casos específicos em que se o figurino compensa visualmente atores sem atributos físicos para compor determinados personagens.

Marcelo – A gente faz uma transfiguração mesmo e percebe uma nítida diferença nos ensaios quando eles vestem o figurino. Muda até o tom da voz.

A preferência de vocês é por trabalhar com figurinos de época. Por quê?

Ney Madeira – O figurino de época permite maior liberdade de criação, de interpretação. Às vezes, criamos uma estética particular do espetáculo com inspiração em algum lugar, alguma tendência, montando um universo teatral que não precisa, necessariamente, representar fielmente um período.

Marcelo Pies – Teatro é uma caixa preta de representação lúdica. É o sonho que fica possível. O ser fiel não interessa em teatro.

Ney Madeira – Teatro não tem foco, então, o figurino tem que aparecer e simbolizar o tempo todo em cena. Mas tudo depende do contexto, do momento. Quando eu fiz “Dolores”, ouvia a platéia de cabeças brancas comentando que já haviam usado aquele tipo de bolsa, aquele modelo de sapato. O figurino cria uma identificação do ator com o personagem e da platéia com a cena. A paixão das pessoas é que elas projetam o desejo do que surge naquilo exclusivo e especial que foi criado especificamente para um momento.

Quem é referência como figurinista para vocês?

Ney Madeira - A grande precursora é a Kalma Murtinho, uma desbravadora que fez muita coisa, abriu muito esse caminho para a criação no Brasil.

Marcelo Pies - Eu acho incrível o trabalho da Irene Sharaff, que fez o primeiro Sweet Charity do Bob Fosse na Brodway. Hoje ela é figurinista em Hollywood.