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10.3.12

Valor Econômico - Livros

Dos longos concertos à descoberta do mundo digital
Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio

Wikimedia / WikimediaTyler Cowen: facilidades da internet levarão a uma nova ordem cultural

Em tempos de recessão, as populações se voltam para prazeres menos dispendiosos, como na Grande Depressão, em 1930, quando os americanos cortaram os programas noturnos e se dedicaram a entretenimentos caseiros, em família - o que determinaria uma mudança no estilo de vida do país.
Wikimedia / WikimediaTyler Cowen: facilidades da internet levarão a uma nova ordem cultural

Em tempos de recessão, as populações se voltam para prazeres menos dispendiosos, como na Grande Depressão, em 1930, quando os americanos cortaram os programas noturnos e se dedicaram a entretenimentos caseiros, em família - o que determinaria uma mudança no estilo de vida do país. Para o economista Tyler Cowen, vive-se hoje um fenômeno semelhante, em que a diversão e os relacionamentos passaram a se estruturar sem depender de gastos além do que se paga pela conta da internet. Entusiasta das interações a partir das novas tecnologias, em "Crie Sua Própria Economia - O Guia da Prosperidade para um Mundo em Desordem" Cowen procura demonstrar que o acesso à informação e ao conhecimento levará a uma nova ordem cultural.

Quem não conhece o envolvente estilo de Cowen, economista renomado, que escreve para diferentes publicações, como "New York Times", "Wall Street Journal" e "Washington Post", vai descobrir que o autor faz sua exposição como se estivesse na sala de aula da Universidade de George Mason, onde leciona economia. É o professor que conduz a linha de raciocínio do leitor para uma imensa gama de temas relacionados aos novos tempos, dominados pela internet e tudo o que ela oferece.

Nessa aula por escrito, Cowen demonstra conhecimento profundo de assuntos diversos. Discorre sobre literatura, cultura pop, artes plásticas, política, filosofia, pontuando com algumas noções de economia e de neurociência - interligando-os com a mesma agilidade oferecida pelos sites na internet. Em quase todos os capítulos há referências e exemplos de autistas bem-sucedidos, pois Cowen vê semelhanças entre o raciocínio de pessoas com essa peculiaridade de comportamento e o pensamento do homem contemporâneo, que seria fragmentado, aparentemente superficial, mas que se caracteriza pela especialização em algum tópico. O próprio Cowen se identifica com alguns traços autistas - introversão, introspecção e fascínio pela coleta de informações -, que percebe também em alguns homens notáveis, entre eles Kant, Adam Smith, Mozart e Michelangelo, em personagens literários, como Sherlock Holmes, ou no protagonista do seriado de televisão "House".

Cowen é um entusiasta da internet em quase todos os seus aspectos, principalmente por democratizar o acesso ao conhecimento, o que estaria estressando usuários devido à sobrecarga de informações. Ele não concorda com tais críticas. A dita superficialidade dessas informações decorreria da facilidade do acesso, que encurtou "distâncias" e abriu um leque maior de opções de conhecimento. Uma das consequências seria o desinteresse por textos extensos. Segundo Cowen, no começo do século XIX, um concerto musical poderia durar até seis horas. O deslocamento da plateia até o local da apresentação era difícil e exigia que houvesse outras atrações além da música, envolvendo, geralmente, um grande acontecimento social. Hoje, a facilidade de alcançar o entretenimento - ou o conhecimento - obriga à redução de informações, porque as atenções se voltam para vários campos.

A capacidade de as pessoas se adequarem a múltiplas tarefas é outro ponto positivo que a internet estimulou, já que cada vez mais se consegue reunir e manipular informações, relacionando-as e filtrando o que mais interessa, diz Cowen, que, no livro, disseca, entusiasticamente, as novas formas de comunicação - e as emoções ligadas aos novos veículos, como Twitter, Facebook, You Tube e mensagens instantâneas. O hábito de enviar "torpedos", disseminado entre os namorados japoneses, antes e depois dos encontros, destaca Cowen, criou uma forma diferente de cortejar, com palavras carinhosas, que confortam os envolvidos, causando satisfação. O economista diz que o Facebook deixou o mundo "mais amigável - um sentimento melhor do que a indiferença e a negligência contínua", embora admita temer que a rede social torne a amizade "um pouco fácil demais", desvalorizando os relacionamentos afetivos, já que "a sensação de sacrifício às vezes nos leva a apreciar algo com mais intensidade".

Pequenas contradições que surgem volta e meia no texto não reduzem a força das palavras de Cowen, que minimiza a acusação de que a internet reduziu a capacidade de atenção dos usuários. O economista lembra que críticas semelhantes já foram dirigidas "à maioria dos novos meios culturais ao longo dos tempos", como o romance, no século XVIII, os quadrinhos, o rock'n roll e a televisão. A fragmentação da atenção seria a forma de montar blocos de interesse, que ajudam na compreensão de tendências e narrativas.

De economia, propriamente dita, Cowen pouco trata. Ele afirma que seu livro é um "regresso às fundações originais da economia", já que a obra da vida de Adam Smith foi mesclar raciocínio econômico com a filosofia moral estóica e psicologia aplicada. A construção da felicidade, objetivo primordial do homem, que precisa se convencer de que tem uma vida agradável para sobreviver, consegue apoio até na superexposição da privacidade na internet.

Cowen elogia a ordenação de fotografias, o compartilhamento de momentos íntimos e das experiências pessoais, que ajudam a criar a ilusão da felicidade plena. Respaldado por Adam Smith, para quem poucos homens seriam capazes de se satisfazer com a própria consciência íntima, Cowen elogia a internet não apenas por seu aspecto congregador de pessoas que jamais se conheceriam pessoalmente e têm interesses comuns, mas por permitir que elas se sintam únicas pelo reconhecimento público: "O e-bay faz com que itens de colecionador se transformem em uma maior fonte de orgulho".

A vida virtual, no entanto, não é suficiente para satisfazer a maioria das pessoas, lembra o economista. Mesmo que o cinema e a televisão tenham substituído o teatro como meio de entretenimento, ainda existe necessidade de apresentações ao vivo, personalizadas. O aprendizado é mais eficiente em salas de aula, com professores motivando os alunos e a presença física dos colegas tornando a experiência vívida, diz Cowen. "Existe um novo plano para a organização de pensamentos e sentimentos humanos. O uso adequado do entretenimento e da educação se transformou no mais fundamental empreendimento social", afirma o economista.
"Crie sua Própria Economia - O Guia da Prosperidade para Um Mundo em Desordem"

Tyler Cowen. Record. 252 páginas, R$ 37,90

http://www2.valoronline.com.br/cultura/2543272/dos-longos-concertos-descoberta-do-mundo-digital

Valor Econômico - Livros

03/05/2011 às 00h00
Novas histórias, com novos protagonistas
Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio

"A Cultura da Participação - Criatividade e Generosidade no Mundo Conectado"

Clay Shirky. Trad. de Celina Portocarrero. Zahar. 212 págs., R$ 39,90

Solidariedade, democratização da informação, superficialidade, substitutivo do vazio existencial, meio de integração para os solitários, participação. Qualquer uma dessas expressões poderia referir-se à Web 2.0 ou, em outras épocas, a veículos de comunicação que ampliaram o acesso a informações. As críticas positivas ou negativas à internet são as mesmas sofridas pelo cinema, pela televisão e até pela prensa de Gutenberg, afirma Clay Shirky, autor de "A Cultura da Participação". Os protestos da atualidade estão diretamente ligados às perdas de capital decorrentes do compartilhamento gratuito de conteúdo, diz Shirky, professor de telecomunicações interativas da Universidade de Nova York e um dos mais celebrados estudiosos da internet.

Entusiasta da Web 2.0, Shirky é de um otimismo que poderia até soar pueril em relação ao alcance da internet e os benefícios que a mobilização social traz a diferentes causas. Seu texto francamente didático credita as reações ao comportamento dos internautas ao temor da mídia, cujo propósito declarado seria o de fomentar o consumo de "produtos criados por profissionais". A autonomia desses espectadores, que abandonam a passividade para adotar o papel de protagonistas, levou quem produzia conteúdo anteriormente a rotular como medíocre boa parte do que hoje circula pela internet. A esses, Shirky recorda que a popularização da leitura não gerou multidões de eruditos, no século XVII, permitindo, ao contrário, a primeira grande manifestação do apreço popular por um "mar de lixo" literário. Agora é a indústria cultural que se intimida com os internautas que, movidos pelo que Shirky considera a generosidade intrínseca do ser humano, fizeram o compartilhamento imperar na época que deveria consagrar o apogeu do consumismo - sempre estimulado pela televisão, principal forma de entretenimento no mundo desde a década de 1950.

Facilitar os encontros de interesses é outra peculiaridade da internet enaltecida por Shirky. A articulação em torno de ideais seria semelhante à que juntou artistas como os impressionistas franceses, em fins do século XIX, ou os skatistas que se dedicavam a acrobacias nas piscinas californianas nos anos 1970. Mas o alcance do universo virtual tem encontrado adversários no mundo real. Em 2008, o Pick Up Paul, um site de organização de caronas que reúne mais de 150 mil usuários em 119 países, foi acusado de concorrência indevida por empresas de ônibus canadenses. Pouco depois de ganharem a ação judicial, as transportadoras de Ontário tiveram de se curvar à alteração da legislação local, que passou a permitir a combinação de caronas pelo site.

A dualidade moral que a internet instigou, com o desrespeito aos direitos autorais, é minimizada por Shirky. Ele critica os esforços da indústria fonográfica em tentar proteger seus interesses difundindo uma tese, "que jamais fez sentido", em forma da acusação, "dirigida aos mais velhos, de que os jovens seriam moralmente inferiores", por baixarem músicas da internet sem respeitar direitos autorais.

Tais batalhas morais travadas em nome de direitos autorais não convenceram Shirky. Ele recorda que os advogados de acusação durante o processo contra Shawn Fanning, criador do Napster, tentavam mostrar, em 1999, que a ferramenta simbolizaria a corrupção moral dos jovens que escarneciam da propriedade intelectual. Outro mito difundido pela mídia em geral era de que a Geração X seria mais indolente do que as anteriores, o que foi desmentido pela vocação empreendedora de muitos dos que trabalham com internet. Para Shirky, o compartilhamento de música não é "uma calamidade social fruto de malandragem nem a aurora de uma nova era da bondade humana". Ele prefere destacar a mobilização dos internautas em torno de causas políticas, ambientalistas ou filantrópicas. Só o Facebook tem 350 mil grupos que arrecadam milhões de dólares em contribuições financeiras.

A participação de incontáveis anônimos nessas redes de benemerência jamais alcançou proporções como as atuais. A razão, acredita Shirky, é simples: antes, não havia a oportunidade de integração oferecida pela internet. O desejo de auxiliar os menos afortunados estaria latente, porque, conforme demonstrariam alguma pesquisas científicas consultadas pelo escritor, a maioria das pessoas sente prazer inato em auxiliar os menos afortunados. Para Shirky, o comportamento e a motivação humana mudam pouco, mas são acionados quando as oportunidades surgem.

Aos que se preocupam com o sedentarismo em frente ao computador, Shirky recorda que os americanos passam em torno de um trilhão de horas por ano diante da televisão - e sem qualquer interação social. Afirmando que o ato criativo mais estúpido ainda é um ato criativo, ele destaca que, pela primeira vez em 60 anos de domínio da televisão, uma geração de jovens dá preferência a outro tipo de atividade em seu tempo livre. Melhor do que manter-se passivo em frente à televisão, acredita.

http://www.valor.com.br/arquivo/885481/novas-historias-com-novos-protagonistas

17.9.10

Valor Econômico - Sociedade

Em busca de sintonia

Por Olga de Mello Para o Valor, do Rio

17/09/2010

Testemunha da história para uns, uma de suas protagonistas para outros, a televisão brasileira chega aos 60 anos neste fim de semana em meio a especulações quanto a seu futuro. Sua relevância ainda é incontestável como forma de entretenimento e instrumento de disseminação cultural – mesmo no momento em que a internet conquista um público ávido não apenas por novidades, mas pela escolha livre da programação. A perda da audiência para a rede, já registrada em pesquisas e acompanhada por especialistas, não assusta, no entanto, alguns homens de televisão, como o diretor J.B. de Oliveira, o Boninho, diretor da Rede Globo. À frente do “reality show” “Big Brother Brasil”, ele aposta na fidelidade do público, embora ressalte a necessidade de inovações constantes: “A audiência está ali, pronta para se ligar, para assistir. Inovar sempre é uma obrigação”.

As inovações já começaram a ser adotadas há tempo. Além de usar e abusar das redes sociais para divulgar a programação, a televisão cada vez mais sai de seus próprios limites, seja atingindo públicos fora das fronteiras domésticas, com seriados gerando filmes para a tela grande – como “Os Normais” e “A Grande Família” -, ou até invadindo a realidade do espectador por meio de perfis de personagens de telenovelas em blogs ou no Twitter.

“A nova forma da televisão é transmidiática. Já se pode comprar o brinco da personagem da novela pelo site da emissora que a transmite. E isso vem de processos iniciados na década de 1970, quando a teledramaturgia não se limitava a contar uma história, mas a direcionava para uma faixa de público específica, baseada em pesquisas mercadológicas”, diz Igor Nascimento, um dos organizadores do recém-lançado “História da Televisão Brasileira” (Editora Contexto), que analisa os aspectos social, político, econômico, cultural, tecnológico, profissional e estético, entre outras características próprias da televisão no Brasil.

A autonomia na escolha da programação, fenômeno que só faz crescer a partir da internet 2.0, permanece restrita a uma pequena faixa da população brasileira, os cerca de 14 milhões que têm computador em casa. “O que a internet e as novas mídias possibilitam é abalar a figura do editor, criando mecanismos mais explícitos de contestação do conteúdo e reduzindo a passividade da audiência. Todavia, isso não elimina a moderação do material produzido por esse novo espectador”, observa Marco Roxo, professor do departamento de estudos culturais e mídia do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, e também organizador de “História da Televisão Brasileira”.

Para Esther Hamburger, chefe do departamento de cinema, rádio e televisão da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a ânsia de inclusão digital é forte no Brasil, mesmo esbarrando na precariedade da infraestrutura da banda larga oferecida atualmente. “A televisão ficou jurássica para os adolescentes, que praticamente já nem mais a assistem, e está perdendo audiência para ela mesma, para os aparelhos desligados. A tendência é haver uma interação, já que vai aumentar muito ainda o espaço tomado pela internet, gerando uma mudança na relação das pessoas com a televisão”, observa Esther.

O público jovem não é uma preocupação específica de Boninho, que acredita na inventividade e na qualidade da programação para atrair espectadores de qualquer faixa etária. “A televisão é uma batalha diária de conquista. Será preciso pensar em qualidade, dar ao telespectador produtos inéditos, diferenciados. A pulverização das mídias será cada vez maior, vai ganhar quem tiver o melhor conteúdo. Na guerra pela audiência, muitas vezes as emissoras preferem popularizar, jogar o nível para baixo e isso é muito ruim. Nosso maior valor é o telespectador.”

Apesar do inegável avanço do computador no entretenimento do brasileiro, a pesquisa “The State of Media Democracy”, que ouviu, no Brasil, 1.346 pessoas que usam internet (ver quadro) identificou crescimento no número de assinantes de TV paga no país – um público menos passivo que o das gerações anteriores. A mudança de comportamento do espectador começou na década de 1990, quando o Brasil tomou contato com a internet, a TV por assinatura e os aparelhos de DVD.”

Naquele momento foram modificadas as relações complexas que haviam sido estabelecidas ao longo de 50 anos. A televisão continua fazendo parte da vida brasileira, mas de forma diferente. O público ganhou uma autonomia que não existia antes”, diz Esther Hamburger.

Por maior que seja o impacto da internet nas comunicações, o rompimento dos telespectadores com a televisão no Brasil está longe de acontecer, afirma Beatriz Becker, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mesmo com um discurso elitista e tendo suas origens ligadas à necessidade de representação de uma classe urbana no país, a televisão brasileira seria o elemento agregador que permitiu a construção de identidade da nação, além de conceder visibilidade a uma população tradicionalmente excluída, acredita Beatriz.

“A televisão precisa escapar da visão de que é o depósito do lixo intelectual do mundo. O Brasil foi inovador na utilização da técnica de produção para massas, com projetos vanguardistas de estéticas renovadoras em narrativas televisivas, tanto na teledramaturgia, que levou a linguagem do teatro para a televisão, quanto na cobertura jornalística. A televisão brasileira pode reivindicar com propriedade seu papel como produto cultural, que tanto intervém quanto sofre influências da sociedade. É nessas interações que ela leva ao espectador a ideia de cultura brasileira”, diz Beatriz.

O país muda e a telenovela vai junto

A importância cultural da televisão brasileira foi minimizada por quem contribuiu para transformá-la no mais acessível instrumento de divulgação de tendências e formação de plateias do país. Para alguns estudiosos, a contradição de um meio popular com uma produção elitista está na formação de seus próprios quadros. “Em todo o mundo, a programação de televisão é voltada para as classes populares. Aqui, ela não menosprezou o espectador. Os autores que escreviam para a televisão eram, em boa parte, esquerdistas com ambições intelectuais. No entanto, foram necessários 30 anos para a TV deixar de ser branca e elitista”, afirma Esther Hamburger, autora de “O Brasil Antenado – A Sociedade da Telenovela” (Zahar).

É na teledramaturgia que a televisão brasileira tem seu principal produto cultural, que consolida o veículo como um empreendimento viável nas décadas de 1970 e 1980. Seus temas discutem a contemporaneidade, tratando do cotidiano de grupos como o Movimento dos Sem Terra e dos moradores das favelas, além de criar vínculos com espectadores que se reúnem para acompanhar o desenrolar de folhetins que podem abordar problemas sociais, desde “Beto Rockefeller”, em 1968, quanto apresentar um Brasil fora do eixo metropolitano, com “Pantanal”, em 1990.

“A telenovela é a verdadeira crônica de um país que procurava a modernidade. O ápice do gênero se dá em 1988, com ‘Vale Tudo’, de Gilberto Braga. As qualidades técnicas e artísticas haviam levado as novelas a conquistar um público heterogêneo, que só se dispersa depois da entrada da internet no Brasil. Talvez o didatismo das novelas de intervenção, que promovem campanhas para reduzir as exclusões, também tenha contribuído para esse afastamento dos espectadores”, diz Esther.

A relação entre espectadores e televisão já foi mais estreita. Na década de 1980, programas de auditório vespertinos, como o “Aqui e Agora” e “O Povo na TV”, dão voz aos problemas de uma população que se queixa do atendimento precário que recebe do poder público. “Muito se falou na exploração da miséria e no tom apelativo desses programas, que até hoje dominam o horário, com novos formatos, talvez um pouco menos dramáticos do que os originais”, diz Marcos Roxo, autor do artigo “A volta do ‘jornalismo cão’ na TV”, publicado no livro “História da Televisão no Brasil”. O rádio, que foi a primeira referência para a televisão brasileira dos primeiros tempos, quando locutores apresentavam os telejornais, serviu de modelo para essa programação destinada a camadas populares.

“Aos programas seguiu-se um intenso debate sobre os limites do sensacionalismo e o jornalismo investigativo. Falava-se em processo de mexicanização da TV brasileira, em circo na TV. Essa programação foi estratégica para a consolidação do SBT. Hoje, temos uma TV bem mais popular do que há 20 anos, com ‘reality shows’ e muitos programas de auditório”, observa Roxo.

A rendição ao popular foi lenta, mas constante. Nas décadas de 1960 e 70, a música que chegava à televisão era sofisticada, em festivais da canção que tinham Edu Lobo, Dori Caymmi, Tom Jobim e Chico Buarque entre os concorrentes, ou em programas como “O Fino da Bossa”, apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues. Eclética, a Record também abriu espaço para Roberto Carlos e os representantes da Jovem Guarda, enquanto a anárquica “Discoteca do Chacrinha”, na TV Globo, recebia figuras de proa do Tropicalismo, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os gêneros mais sofisticados da MPB atualmente só aparecem bissextamente na televisão ou são relegados a programas especiais em horários de pouca audiência, enquanto manifestações “das periferias” ganham cada vez mais espaço em emissoras como a Rede Globo, que também já veiculou a série “Cidade dos Homens”, sobre a vida de dois meninos em uma favela carioca.

“Depois do documentário ‘Notícias de Uma Guerra Particular’, de João Moreira Salles, em 1999, e principalmente após o sucesso do filme ‘Cidade de Deus’, de Fernando Meirelles, houve uma visibilidade da favela que a TV tinha se acostumado a apenas passar por cima. E o tratamento que essa realidade recebe na televisão é menos sensacionalista e espetacularizado do que no cinema. Isso reduz a discriminação social vinculada à violência”, afirma Esther Hamburger.

O distanciamento entre a televisão e a realidade brasileira era bem maior até os anos 1970. O telejornalismo era calcado no noticiário das agências internacionais. O mais conhecido dos telejornais, o “Repórter Esso”, pautava-se pelos temas de interesse do patrocinador, no caso a refinadora de petróleo americana Standard Oil.

“É com o ‘Jornal Nacional’ e a transmissão em rede que o Brasil se encontra como nação. As pequenas emissoras do interior tornam-se repetidoras das grandes redes, mas o telejornalismo começa a tomar outro rumo, mais ligado aos temas brasileiros. O conceito de rede não apenas consolida a produção para a TV, mas também integra o país”, diz Igor Nascimento, organizador de “História da Televisão no Brasil”. (OM)

Valor Econômico - Livros

Sociedade: O psicólogo e especialista em inovação tecnológica Don Tapscott vê com grande otimismo a geração formada em tempos de democratização da informação.

A era da cidadania global

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio

02/07/2010


Íntegros, francos, honestos, bem informados, inteligentes, solidários: assim são os integrantes da primeira geração que foi criada utilizando a internet, na visão do especialista em estratégia e inovação tecnológica Don Tapscott. Admirador confesso da nova era que surge com a democratização da informação e a comunicação imediata possibilitada pela web 2.0, Tapscott, que acaba de lançar no Brasil seu livro mais recente, “A Hora da Geração Digital”, acredita firmemente nos bons princípios desses jovens que desrespeitam direitos autorais, enquanto criticam a corrupção na política e os abusos cometidos contra a natureza.

“A integridade faz parte do DNA dessa geração, para a qual racismo e machismo, entre outros preconceitos, são inaceitáveis. A honestidade e franqueza na expressão de suas opiniões são naturais para eles, os primeiros a amadurecerem durante a era digital, com acesso ao conhecimento que desenvolveu espírito colaborador e pensamento inovador”, disse Tapscott em entrevista ao Valor.

Um pouco de imaturidade compõe o perfil desses jovens, que divulgam dados pessoais, vídeos e fotografias que podem comprometê-los profissionalmente no futuro, admite Tapscott. A permanência na casa dos pais é cada vez mais postergada, não por comodismo e sim em decorrência de dificuldades econômicas. “A taxa de desemprego entre jovens adultos no mundo inteiro é brutalmente alta”, diz o escritor canadense, cuja formação original é em psicologia.

Autor de 12 livros sobre comportamento e tecnologia, Don Tapscott não vê contradição entre honestidade e desrespeito aos direitos autorais por quem baixa material pela internet. Em seu livro, cita pesquisas que apontam que 77% dos jovens baixam filmes, músicas, softwares e jogos sem pagar, enquanto 72% das pessoas entre 18 e 29 anos que compartilham arquivos afirmam não se importar com os direitos autorais. Os criadores de conteúdo, afirma, devem buscar novos modelos de negócios, levando em conta a facilidade de cópia do material que produzem.

“A solução para restaurar a saúde econômica da indústria da música não está em vender músicas por US$ 1″, comenta. “Em vez de se apegar a tecnologias de distribuição do fim do século XX, como o disco digital e o arquivo baixado, o negócio da música deve entrar no século XXI. Esta é uma época de atrofia versus renovação, estagnação versus renascimento”, afirma o otimista Tapscott, que não acredita no egoísmo, descaso e apatia dos jovens de hoje, até pela interatividade ao se comunicar intensamente pela internet, diferentemente da geração do autor, que permanecia inerte em frente da televisão.

“Esta é a primeira geração de cidadãos globais, que exigem mais transparência e comprometimento dos políticos. Eles têm orientação global, acesso ao conhecimento, espírito colaborador e um pensamento inovador que minha geração inveja. Cresceram interagindo, organizando informações, não são receptores passivos da mídia.”

Para Tapscott, os entrevistados demonstraram que o compartilhamento de informações os levou a difundir um sentimento de solidariedade que experimentam desde os bancos escolares, quando começam a prestar trabalho voluntário.

O idealismo da juventude se volta para as questões ambientais e contra as discriminações. “Eles acreditam na justiça, na liberdade e na defesa das causas ambientais. Apesar das diferenças culturais, eles têm valores similares e entendem que o destino da humanidade está interconectado. A todo momento surgem novas oportunidades, enquanto jovens se apropriam das ferramentas da internet para se envolver mais em tornar o mundo próspero, justo e sustentável”, observa Tapscott.


8.1.09

Valor Econômico - Livros

A era do triunfo da imagem
Por Olga de Mello, para o Valor, de São Paulo
09/01/2009
I
Apresentação ou representação? Desde a consolidação da sociedade do espetáculo nos últimos anos, essa pergunta chama a atenção de intelectuais no mundo todo. No Brasil, com a estréia de mais uma temporada da febre "Big Brother", na terça-feira, o debate ganha interesse renovado. Em seu livro "O Show do Eu - A Intimidade como Espetáculo", recentemente lançado pela Nova Fronteira, a antropóloga Paula Sibilia analisa a questão ao abordar vários aspectos da valorização de comportamentos e atitudes pela proliferação de "reality shows" expondo a vida dos anônimos.
Divulgação
Bolha de vidro do novo "Big Brother": reconhecer-se a partir do olhar do outro é característica humana, diz o psicanalista Benílton Bezerra Jr.

"Cada vez mais é preciso aparecer para ser. A espetacularização tornou-se um modo de vida, esvaziando o interesse do público pela criação ficcional", afirma a antropóloga. "A ficção, que preenchia a vida e era capaz de refletir sobre a existência com profundidade, perdeu para uma teatralização da existência, que, por sua vez, encobre a crise do real", prossegue.

Esse fenômeno não é exatamente novo. Escândalos e idiossincrasias sempre atiçaram a curiosidade pública, consagrando personagens admirados ou detestados por multidões ávidas por conhecer a intimidade de aristocratas, políticos e artistas. Em 1885, o cortejo fúnebre do escritor francês Victor Hugo, por exemplo, atraiu às ruas de Paris 2 milhões de pessoas.

Mas os tempos são outros: sem uma obra tão consistente quanto a de Hugo, o jornalista Jean Willys, conhecido por participar do programa "Big Brother Brasil", foi o escritor mais assediado na Bienal do Livro do Rio, há dois anos. Na mesma época, o blog da garota de programas Bruna Surfistinha gerou um dos principais sucessos do mercado editorial brasileiro, chegando a vender mais de 200 mil livros.

Casos semelhantes aos de Willys e de Bruna, que ingressaram no grupo cada vez mais numeroso de celebridades notabilizadas ao mostrarem seu cotidiano na mídia, surgem diariamente. Em 2001, a internet contabilizava cerca de 3 milhões de blogs. Hoje, eles chegam a 100 milhões, mais do que o dobro que abrigava há um ano. Se a princípio os blogs atendem ao interesse pela intimidade alheia, eles estariam servindo mais para a divulgação de pessoas do que para revelar aspectos inusitados do cotidiano.

"O blog está distante dos diários íntimos da sociedade do século XIX, em que os cadernos continham segredos confiados apenas ao confessor dos autores. A busca pelo relato genuíno leva ao sucesso de blogs e 'reality shows', porém dificilmente encontraremos autenticidade no espaço virtual ou na televisão", afirma Paula. "Vivemos a era do triunfo da imagem, obedecendo a padrões estéticos que utilizam o photoshop para retirar rugas e imperfeições que os corpos não conseguem esconder."

Autora de "Segredos Íntimos", Luíza Lobo, professora de literatura da UFRJ, estuda a progressão dos relatos de diários confessionais a blogs. Para ela, há uma distinção nítida entre registros que servem à reflexão de seu autor e o que se veicula pela internet. "O blogueiro, aparentemente, promove a união entre o público e o privado, sem deixar de fixar limites, protegendo-se sob pseudônimos. O blog é como um grafite. Mais que um desabafo, é uma expressão direcionada a outros", diz Luíza.

Paula vê nos blogs o reflexo da mudança da textura do real, que exige personalidades maiores do que suas realizações. Para a antropóloga, o esvaziamento da interioridade seguiria a revolução tecnológica iniciada na segunda metade do século XX, que privilegia a interação a distância, sem, no entanto, revelar pessoas reais. O mundo virtual estimularia a criação de aparências sem conteúdo próprio.

"O blog passou a ser instrumento para o fortalecimento daquela grife que hoje representa a pessoa. Atualmente, todos precisamos da imagem, mesmo os anônimos. Isso já ocorria entre artistas, como Salvador Dali e Andy Wahrol, que criaram personagens tão marcantes quanto seus trabalhos. Agora, essas figuras se sobrepuseram aos criadores", comenta Paula. "Todo mundo sabe quem é Madonna, mas poucos conhecem suas músicas. Ela é uma marca, não apenas uma artista, que provoca mais interesse pela personagem do que por sua obra. Hoje, qualquer um quer mostrar sua marca, mesmo que sem uma obra a apresentar."

A antropóloga vê ainda um novo produto cultural criado a partir do anseio pela autenticidade da vida real: compositores, escritores e artistas não apenas ganham biografias (autorizadas ou não), mas são transformados em personagens de relatos ficcionais, como Virgínia Woolf em "As Horas", livro de Michael Cunnningham. No cinema, Jane Austen vira a protagonista de um romance bastante semelhante às tramas que imaginou no filme "Amor e Inocência", enquanto o processo de criação de Shakespeare se mistura à paixão ficcional por uma personagem que jamais existiu na realidade, em "Shakespare Apaixonado".

Reconhecer-se a partir do olhar do outro é uma característica humana, percebida em qualquer cultura, lembra o psicanalista Benílton Bezerra Jr. A possibilidade de ter um blog lido em qualquer parte do planeta expandiu um espaço social que, há 50 anos, se restringia a círculos restritos, obrigando cada um a mostrar seu valor individual, diz Benílton.

Para ele, é importante destacar os pontos positivos dessa exposição do íntimo. "Estamos observando um fenômeno complexo. Existe uma certa preocupação com os que preferem o mundo virtual a interagir pessoalmente com seus interlocutores. No entanto, ninguém mais precisa permanecer em total isolamento. Até os mais tímidos podem encontrar seus semelhantes na internet."