28.4.10

Valor Econômico - livros

Carioquices que fazem acontecer
por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
27/04/2010


Alguma informalidade e muita flexibilidade, combinadas a cordialidade no comando de equipes, levaram ao surgimento de um novo perfil de profissional no mundo dos negócios, que credita seus bons resultados no cumprimento de metas não a formas de administração, mas à cultura de sua cidade. Este é o gestor carioca, que tem o comportamento analisado em 28 entrevistas reunidas no livro “Jeito Carioca na Gestão de Pessoas” (Prestígio Editorial, R$ 64,90), de Luiz Moura.

Especialista em gestão e RH, Luiz Moura conversou com 28 executivos. Buscou lideranças não apenas no universo corporativo: entre os entrevistados estão o técnico de vôlei Bernardinho, o carnavalesco Laíla e uma amiga do autor, Mariza Alves, que foi síndica, durante doze anos, de um grande condomínio na Barra da Tijuca.

“Eles lideram equipes das quais se exige grandes performances. Laíla faz espetáculos com 4 mil figurantes, enquanto Bernardinho treina grupos de atletas de quem se espera o máximo de rendimento. Já a Mariza administrou um condomínio onde vivem cerca de 2 mil pessoas. É como estar à frente de uma empresa”, diz Luiz Moura, um carioca de Vila Isabel, com mais de 40 anos de experiência em gestão.

A seleção privilegiou os cariocas natos, incluindo ainda quatro gestores que adotaram a cidade, e também representam a cultura do Rio de Janeiro, como a presidente da seguradora Icatu Hartford, Maria Sílvia Bastos, nascida no interior do estado, mas que mudou-se para a capital na juventude. Apenas uma entrevistada vive fora do Rio, a delegada da Polícia Civil paulistana Sandra Claro.

“Sandra se radicou em São Paulo, mas mantém o sotaque e a flexibilidade típicos da cultura carioca”, afirma o autor, ressaltando que o livro não é uma exaltação ao estilo carioca de administrar, mas a constatação de um perfil de gestor. “Pretendo traçar o perfil de mineiros e paulistas na gestão de pessoas em outros livros”, informa Luiz Moura.

Mesmo atuando em diferentes áreas, os entrevistados apontaram a intensa relação com a cidade, através da apropriação dos espaços públicos. A convivência de diferentes categorias sociais, tanto nas praias da Zona Sul como nas ruas e praças das outras regiões ajuda a romper com a sisudez do ambiente profissional.

“Quem foi criado na Zona Sul, pegou jacaré e jogou bola na praia, enquanto os da Zona Norte soltavam pipa e brincavam na rua, juntando os meninos pobres com os de classe média. O asfalto e o morro sempre se encontram no Rio de Janeiro e isso é uma experiência que favorece o gestor carioca no encontro com sua equipe, ele sabe se dirigir a todos os tipos de pessoa. Quem é de fora do Rio percebe a flexibilidade na capacidade de superação e de enfrentar adversidades, sempre temperadas com um calor humano que caracteriza o carioca”, diz Moura.

O bairrismo carioca também é percebido como positivo pelos executivos por demonstrar o entusiasmo que caracteriza os moradores do Rio.

No livro de Luiz Moura, o Rio de Janeiro aparece como referência para todos os entrevistados. “A cidade é cultuada por seus moradores. Quase todos têm muitas atividades ao ar livre. Bernardinho foi me encontrar de bicicleta. Ele se alimenta da natureza, assim como muitos executivos não dispensam uma caminhada na praia antes de trabalhar ou no fim do expediente. Isso ajuda a relaxar, a suportar pressões e competição sem tanto estresse”, acredita Luiz Moura, que começou a pensar no livro no dia 1° de janeiro de 1990, passeando pela praia de Copacabana.

“Às 7h a praia já estava limpa, depois de ter recebido mais de um milhão de pessoas. As equipes da Comlurb, a empresa de limpeza da cidade, começaram a trabalhar assim que o sol nasceu, recolhendo as toneladas de papéis, garrafas de champanhe, o resto da festa da virada do ano. Isso só dá certo porque é fruto de um excelente processo de gerenciamento”, destaca Moura.

A exuberância natural dos cariocas, no entanto, ainda causa estranheza aos profissionais estrangeiros que chegam à cidade. Segundo Ana Lúcia Vales Domingues Macedo, mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), o carioca ainda parece invasivo e efusivo ao extremo para quem não conhece os códigos da cidade. “Isso chega à esfera profissional, embora normalmente os cariocas sejam mais contidos no trabalho. A informalidade sempre existe, mas é menor”, diz Ana Lúcia, que é professora de português para estrangeiros e observa aspectos de tratamento social no Rio de Janeiro em sua dissertação de mestrado “Para depois do elogio – um estudo sobre a polidez carioca”.




Luiz Moura concorda que a informalidade carioca respeita os limites do escritório. “Essa história de dizer que no Rio todo mundo passa o dia na praia já caiu de moda. O carioca cumpre prazos e quer alcançar resultados, como todos os outros profissionais”, diz Moura. De acordo com Ana Lúcia Vales, se a princípio os estrangeiros que vêm trabalhar no Rio se assustam com o que consideram excesso de intimidade dos cariocas, aos poucos eles são conquistados pela cultura da cidade. “A grande maioria deles se rende à interação, mesmo estranhando, a princípio, os cumprimentos com abraços e beijos. O único aspecto que eles jamais compreendem é o hábito de ser extremamente caloroso com desconhecidos aos quais nunca mais encontrará na vida. Eles levam a sério o famoso “a gente se vê”, que não sai do discurso e que é quase uma forma de cortesia carioca”, diz Ana Lúcia.

26.2.10

Valor Econômico - Comportamento

O Corpo Fala



Sociedade: Brasileiras das classes populares mostram atitude aberta tanto em relação à vida como à estética corporal e não se submetem a padrões rígidos, constata pesquisadora carioca.

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio.

Cartão de visita, atestado de sucesso, comprovante de trabalho e construção pessoal. As múltiplas definições dos estudiosos para a simbologia em torno do corpo brasileiro refletem a obsessão nacional que, travestida sob uma falsa noção de cuidados com a saúde, se tornou um produto de culto e consumo. Se o fortalecimento financeiro das classes emergentes permitiu sua aproximação de outras camadas da população no uso de produtos e mecanismo de embelezamento, ainda há peculiaridades próprias de cada cultura na exposição desses corpos, principalmente os femininos.

"A mulher pobre tem uma relação mais liberta e mais lúdica, menos persecutória, com o corpo, vestindo roupas que o recobrem, mas não o encobrem, com uma apropriação criativa dentro de outro padrão estético", observa a psicóloga carioca Joana Vilhena de Moraes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Nos últimos dois anos, Joana entrevistou mulheres das comunidades de Rio das Pedras, Rocinha e Parque da Cidade para uma pesquisa que complementa seu trabalho anterior, enfocando os cuidados estéticos da população feminina de classes média e alta na zona sul carioca, descrito em "O Insustentável Peso da Feiura" (PUC/Garamond). A nova pesquisa já foi convertida no livro "Com Que Corpo Eu Vou? Sociabilidade e Usos do Corpo em Camadas Populares", a ser lançada no mês que vem.

No levantamento, a psicóloga constatou, além da franca exibição dos corpos, a pouca reserva ou cautela das entrevistadas quanto à privacidade. Elas abriam as casas, recebiam Joana no quarto, trocavam de roupa na frente dela, desfilavam diferentes trajes, cozinhavam, ralhavam com os filhos. "Participar da pesquisa confere visibilidade social para essas mulheres, enquanto as de classe média e alta preferem dar entrevistas por telefone ou em lugares públicos. Essa atitude franca, aberta, também está no prazer ao exibir o corpo, sem submissão a padrões rígidos de magreza, já que a comida tem a ver com opulência e prosperidade", diz Joana.

Apesar de procurar fazer ginástica e se inscrever em hospitais públicos para cirurgias de redução de estômago, essas mulheres não reverenciam os rígidos padrões estéticos nacionais, preferindo a exuberância de Ivete Sangalo ao corpo magro de Gisele Bündchen. A vida saudável proporcionada por uma alimentação adequada e ingestão de produtos de baixas calorias é uma utopia que elas desprezam. "O discurso ideológico que envolve a dieta e o embelezamento perde a força diante do preço dos alimentos e desses produtos. Elas assumem, sem paranoias, o prazer que podem desfrutar de corpos fora de forma. O uso do corpo e da sexualidade são plenos", afirma Joana.

A exposição dos corpos no Brasil, particularmente na zona sul carioca, é um fenômeno único para estrangeiros, como o antropólogo francês Stephane Malysse. Radicado em São Paulo, onde é professor na USP, Malysse percebeu o corpo "mais presente" no Rio do que na França, quando visitou a cidade pela primeira vez em 1996. Dois anos depois, iniciava a pesquisa sobre a corpolatria brasileira diante do olhar de quem vem de outros países. O culto ao corpo modelado pelas academias de ginástica era maior nas classes médias e altas. Já o desnudamento de homens e mulheres fora dos limites praianos era comum entre os que vinham das classes C e D.

"O corpo é um cartão de visita no Brasil e a musculatura, uma extensão sexual do gênero. A roupa amplia o corpo brasileiro, não serve para esconder, camuflar imperfeições. Na França, mulheres jovens a partir dos 20 anos vestem-se como suas mães, porque isso tem a ver com o amadurecimento, chegar a uma outra etapa da vida. Aqui é justamente o contrário", constata Malysse.

Retardar ou retirar marcas do tempo não é vaidade para as brasileiras, mas sinônimos de asseio ou saúde, diz Joana Vilhena de Moraes, lembrando que desde a estabilização da moeda, em 1994, há um aumento anual de 30% nas cirurgias plásticas. Ela destaca ainda que 44% da população feminina brasileira gasta 20% do seu salário em estética.

"Dentro de uma sociedade consumista, artigos de beleza viraram sinônimos de asseio, de saúde. Por isso, cosméticos nem são mais considerados supérfluos. Cuidar de si passou a ser uma obrigação e uma nova jornada de trabalho para a mulher. A beleza é vista como um dever e uma obrigação e não um direito", afirma Joana.

Fora do Brasil, o panorama é outro, garante a antropóloga Mirian Goldenberg, que tem acompanhado grupos de brasileiras e alemãs de classes média e alta, todas acima de 40 anos. "Aqui, o corpo é um verdadeiro capital, como já dizia Pierre Bourdieu. As mulheres não têm outro tipo de valorização e o corpo se transformou em mecanismo de ascensão social. Na Alemanha, a diferença começa por não haver tantas mulheres de cabelos tingidos. O amadurecimento não é visto como um estigma, mas como a época em que estão no auge da realização profissional", diz a antropóloga, que relata em seu livro "Coroas" (Record) a dificuldade em formar um grupo de discussão sobre envelhecimento com mulheres acima de 50 anos. O problema não era integrar o grupo, mas chamá-lo de coroas, como queria Mirian.

"Permaneço a única participante do grupo. Todas as indicações para rebatizá-lo ridicularizavam a velhice, reafirmando a juventude e a sexualidade em corpos maduros. Algumas sugeriam que se chamasse 'jovens coroas' ou 'coroas gostosas'", conta.

Segundo a antropóloga, as alemãs maduras consideram falta de dignidade os desvarios cometidos em nome da aparência mais jovem. "A mulher acima dos 40 anos tem um discurso de libertação, sente-se capaz de usufruir o momento em que seu corpo não é objeto de tanto desejo. No Brasil, o que escuto é o desespero das mulheres que se sentem invisíveis por não ser mais olhadas como ser sexual. Na Alemanha, nesse momento elas comemoram a liberdade. A aparência está dissociada da sexualidade, tanto que é comum pessoas mais velhas namorarem. E lá eles têm Ângela Merkel, que não precisou da beleza para chegar ao poder", comenta Mirian.

12.2.10

Valor Econômico - Música


Martinho da Vila faz samba requintado para a Unidos
Olga de Mello, para o Valor, do Rio
12/02/2010

Se a Vila Isabel de Noel Rosa não pretendia "abafar ninguém", apenas mostrar que fazia samba também, a Unidos de Vila Isabel deixa de lado a falsa modéstia do autor de "Palpite Infeliz" para festejar o centenário de nascimento do seu compositor mais celebrado na segunda-feira de Carnaval, embalada pela requintada melodia composta por Martinho da Vila. O desfile com o enredo "Noel: a Presença do Poeta da Vila" provavelmente será a mais exuberante das homenagens ao compositor, que, até dezembro, terá sua vida e obra revistas em livros, discos, filmes, shows e debates por todo o país.

Chega agora às livrarias "O Morro e o Asfalto no Rio de Janeiro de Noel Rosa" (Editora Aprazível), do jornalista João Máximo. Classificado pelo autor como "um guia para a visita ao Rio por meio das letras de Noel", o livro enfoca as transformações da cidade entre 1910 e 1937, abordando com fotografias da época os aspectos culturais e políticos. "Quis mostrar festas, o botequim, a boemia e, sobretudo, a influência dos compositores do morro sobre Noel", explica o jornalista, autor, com o músico Carlos Didier, de uma renomada biografia de Noel Rosa que a Universidade de Brasília lançou na década de 90.
As mudanças físicas e culturais da cidade também estarão em "O Rio de Noel", de André Diniz, que a Casa da Palavra lançará no segundo semestre. "Noel era como um Baudelaire, um 'flâneur', um grande observador da cidade, que escrevia sobre as diferentes vozes que ouvia. Ele andava por todo o canto, saía da Vila [Isabel] e ia dormir no Morro do Andaraí", conta Diniz. "Esse comportamento é impensável para um jovem da atualidade. Um garoto do Salgueiro não pode circular pelo samba na Mangueira. O samba não tem mais esse poder universalista nem é o porta-voz da cidade, que no tempo de Noel se associa à música."
Renovar a integração de asfalto e morro, que teve em Noel Rosa um de seus principais elos, foi a intenção da diretoria da Unidos de Vila Isabel, que convidou o economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Lessa a montar mesa-redonda sobre samba, Noel Rosa e futebol antes de um de seus ensaios, para os componentes da escola, na semana passada. Segundo o presidente da Vila, Wilson Vieira Alves, parte dos integrantes da agremiação, principalmente os mais jovens, pouco conhece Noel Rosa. "Já passamos o filme 'Noel, o Poeta da Vila' [de Ricardo van Steen] para que todos entendessem o que a escola vai apresentar no desfile."
Para Lessa, o debate era mais interessante para os expositores - o músico Rodrigo Lessa, o historiador Raul Milliet, o jornalista Nelson Moreira e o pesquisador Carlos Didier - do que para quem assistisse a ele. "A universidade sempre estuda o Carnaval, mas com muita distância, sem integrar-se a ele." O intercâmbio entre o mundo de Noel e a academia sai em publicação ainda neste semestre da editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), em parceria com a gravadora Biscoito Fino. Coordenado por Júlio Diniz, do departamento de letras da universidade, o livro terá artigos de professores da instituição sobre Noel na cultura urbana, acompanhado por um CD com canções pouco conhecidas do compositor, interpretadas por Martinho da Vila e músicos que se apresentam na Lapa. "O disco vai juntar o sambista veterano com esses jovens que cultuam Noel, o primeiro grande poeta da música brasileira, com letras sofisticadas para melodias riquíssimas", diz Diniz.
Ao lado de lembranças destinadas ao público infantil, como a publicação de "O Menino Noel", peça de Karen Aciolly que a Rocco lança no segundo semestre, há homenagens ao compositor que dificilmente ocorreriam em sua época. Em dezembro, ao vencer a disputa pela presidência da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça anunciara que 2010 seria o Ano de Noel Rosa, a exemplo de comemorações promovidas pela entidade em torno de centenários de nascimento ou morte de outros músicos - tanto eruditos, como Heitor Villa-Lobos, quanto sambistas, como Ataulfo Alves. Afirmando que Noel era "o acadêmico do samba, o emblema da poesia cantada", em janeiro, Vilaça entregou a medalha da ABL a Wilson Vieira Alves, prometendo festa nos salões da Casa de Machado de Assis, em 11 dezembro, dia do nascimento do compositor.
Citado por outras escolas de samba e pela Vila Isabel em diversos sambas-enredo, esta é a primeira vez em que Noel Rosa é o tema de um desfile no Grupo Especial, observa o pesquisador Alberto Mussa, autor, em parceria com Luiz Antônio Simas, de "Samba de Enredo, História e Arte" (Civilização Brasileira, 240 págs., R$ 34,90). Em destaque, para Mussa, está a complexidade do samba composto por Martinho da Vila.
"Esse é um samba de melodia única que não segue a fórmula atual, de empolgar a multidão de espectadores. Os sambas de enredo atuais sempre buscam levar o sambódromo ao delírio, a explodir em animação", explica Musa. Para ele, a música de Martinho da Vila tem uma cadência própria, mais afinada com as disputas das escolas de samba tradicionais, que procuravam riqueza melódica em belas melodias, "sem se importar com o arrebatamento de quem assistia ao desfile".
Com 3,5 mil componentes, 31 alas, oito carros, um tripé e oito setores, a Unidos de Vila Isabel conta a vida de Noel Rosa, sua trajetória artística e os acontecimentos políticos de sua época, mostrando a Revolta da Chibata e a Revolução de 1930. "Tenho certeza de que o espírito de Noel vai baixar na avenida, pois ele não vai querer perder a própria festa. A nossa homenagem ao Noel não acaba depois do Carnaval. O ano inteiro queremos promover fóruns que mostrem sua importância para a valorização do samba e das comunidades que o produziam", informa Wilson Aires Alves.
Bem de acordo com a informalidade cultuada por Noel, ainda são poucas as outras comemorações de seu centenário que têm data e local definidos. A programação está aberta em boa parte dos espaços culturais cariocas, que já têm propostas de projetos celebrando Noel. A Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria de Cultura, garante os festejos, sem precisar, no entanto, quando ou o que fará. O violonista Luís Felipe de Lima já acertou para o fim do ano um ciclo Noel Rosa no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. A data, no entanto, continua em aberto.
"O aniversário de Noel é em dezembro, o que permite inclusão nas agendas ao longo do ano", afirma o cavaquista Henrique Cazes, que negocia em um desses locais a montagem das três óperas radiofônicas de Noel, projeto que assina com o pianista Tim Rescala. Em janeiro, Cazes e a cantora Cristina Buarque apresentaram na Sala Baden Powell o show "Sem Tostão", com músicas de Noel, já em referência ao centenário. Com dez álbuns e cinco livros dedicados a Noel, Cazes deve ainda relançar um disco de canções inéditas do compositor, distribuído em 1983 como brinde natalino de uma empresa.
Passadas as comemorações do Ano de Noel, sua presença permanecerá além das rodas musicais. Em 2011, o jornalista Sérgio Cabral lança, pela Companhia Editora Nacional, a biografia da cantora Aracy de Almeida, uma de suas principais intérpretes. "Noel criou o novo mundo da música brasileira. Existe uma música antes dele e outra que vem depois. Ele é fundamental na história de Aracy, sua principal intérprete porque imprimia ao samba a sofisticação e o encanto que Noel pedia."

15.1.10

Valor Econômico - Teatro

Sem medo de Shakespeare
Teatro: Depois da montagem de "Hamlet", com Wagner Moura, Aderbal Freire-Filho dirige "Macbeth", projeto do ator Daniel Dantas, sua quarta incursão no universo do bardo inglês.
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
15/01/2010

Um artifício de menino esperto para escapar das exigências paternas foi o que originou o interesse de Aderbal Freire-Filho pelo teatro. O pai queria que os seis filhos lessem os clássicos de sua biblioteca. "Descobri uns volumes fininhos com peças de Shakespeare, Molière e muitos brasileiros, como Joracy Camargo, Raimundo Magalhães Jr. Fui tomando gosto, enquanto virava um especialista em leituras de teatro", conta Aderbal, que, nos intervalos entre os ensaios do quarto Shakespeare de sua carreira - "Macbeth", que estreia nesta semana no Rio -, conversou sobre suas mais de cinco décadas dedicadas à procura de um teatro que não afaste o público pelo hermetismo falsamente erudito.

Para o diretor, as plateias abandonaram as salas teatrais por puro tédio, mesmo diante de montagens que tentam inovar a forma e raramente o conteúdo. Reconhece que nem sempre consegue conquistar o público a quem destina seus espetáculos. Depois de um ano de temporada do "Hamlet" estrelado por Wagner Moura, montou "Moby Dick", recriação do romance de Herman Melville, que obteve boas críticas, mas não repercutiu positivamente nas plateias. Algo que já havia experimentado na década de 70, quando dirigiu Marília Pêra no monólogo "Apareceu a Margarida", de Roberto Athayde. "O sucesso me subiu à cabeça. Decidi criar um grupo e montar quatro peças ao mesmo tempo. Fracassamos, naturalmente", lembra.

A instabilidade do teatro nunca levou Aderbal a desanimar. Nos anos 70 decidiu abraçar a carreira, apesar da desaprovação da tradicional família cearense, que preferia vê-lo seguir os passos do pai, advogado. Nascido em 1941, cresceu em Fortaleza na época em que poucas companhias teatrais visitavam a cidade. Quase foi radialista, político e funcionário da Petrobras. Estudou direito e trabalhou com o pai antes de radicar-se no Rio para fazer teatro. Gostou da direção quando não encontrou quem dirigisse sua adaptação de "Flicts", de Ziraldo.

"Foi minha única incursão no teatro infantil. Ali, eu percebi que minha satisfação era maior na direção do que atuando", recorda Aderbal. Ele tem especial apreço por projetos de atores, como o espetáculo atual, que dirige a convite do ator Daniel Dantas, intérprete do protagonista. Renata Sorrah faz Lady Macbeth.

Ambientações que exigem a interação da plateia, movimentando-se por cenários distantes e inusitados já o atraíram. Como ator, fez "Diário de um Louco", dentro de um ônibus que percorria alguns bairros o Rio, e "A Morte de Danton", no canteiro de obras do metrô carioca. Em 1991, dirigiu o espetáculo itinerante "O Tiro Que Mudou a História" e levava os espectadores a diversos cômodos do Palácio do Catete, onde Getúlio Vargas morreu. No ano seguinte, a plateia de "Tiradentes, Inconfidência no Rio", era levada em ônibus para seis diferentes pontos do centro. Hoje, suas inovações cênicas estão na retomada de um teatro livre das convenções que o tornaram empoeirado. Sua preocupação não é recriar a gélida Escócia medieval durante o implacável verão carioca - o Teatro Tom Jobim fica dentro da floresta tropical do Jardim Botânico e o ambiente naturalmente abafado torna o uso de ar condicionado imperativo.

"O grande desafio do teatro hoje é não ser chato, empolado, é renovar-se e vencer o preconceito natural da plateia. É preciso conquistar o espectador. Shakespeare, que permite uma leitura em vários níveis de sofisticação, com referências políticas, poesia e jogos de palavras, escreveu para plateias majoritariamente analfabetas. A compreensão é simples, sem concessões. Ao longo dos séculos, o teatro foi se fechando, ficando mais científico, mais pesado. Shakespeare é anterior às convenções, é livre, é solto", explica. O bardo inglês situava uma ação na Dinamarca ou em Viena, batizando os personagens com nomes latinos. Narrava fatos contemporâneos, mas levava a história para a Escócia de 400 anos antes de seu tempo. "Ainda não existiam antropólogos, historiadores e sociólogos para apontar erros no enfoque político ou na fidelidade histórica", diz Aderbal.

Como em "Hamlet", ele traduziu o texto original, procurando uma linguagem que eliminasse "o falso rebuscado". Não se arriscou a traduzir sozinho. "Meu inglês não permitiria que eu fosse garçom em Londres", brinca. Da primeira vez, a versão foi dividida com a professora Bárbara Harrington e Wagner Moura. Agora, tem a parceria de João Dantas, filho de Daniel Dantas.

"Sempre traduzi as peças estrangeiras que montei, mesmo quando não tenho a menor ideia sobre o idioma. Quando fiz 'Casa de Bonecas', de Ibsen, pedi ajuda ao Carl Erik, que é dinamarquês, mas conhece norueguês. Ele traduzia, eu transformava em algo mais próximo de nossa fala. Fiz assim também com Brecht. Com Shakespeare, não quis ficar preso na métrica, mas respeitar sua poesia, que se compõe de imagens, metáforas, aliterações, ritmo", conta Aderbal, que não teme a fama de maldita de "Macbeth", pois teve sua dose de má sorte durante a montagem de "Moby Dick", quando se submeteu a uma cirurgia e precisou trocar o protagonista, acidentado na época dos ensaios.

Montar dois textos de Shakespeare em um intervalo pequeno não intimida Aderbal, convidado para a direção pelos protagonistas. "O projeto do Daniel era anterior ao do Wagner, mas compromissos dele só permitiram que a montagem viesse agora. São duas peças muito desafiadoras e incomparáveis. Não há como dizer qual é a melhor, o poema ilimitado que é 'Hamlet' ou o clima trágico, com o sobrenatural se impondo, em 'Macbeth'", comenta Aderbal.

O diretor completa: "Gosto de enfatizar o humano, que é a essência do teatro de Shakespeare. Macbeth não precisa ser a essência do mal, mas um homem que se desespera ao cometer seu primeiro assassinato. Não existe personagem raso em Shakespeare, todos têm as ambiguidade humanas".

É por isso, garante, que depois de um Shakespeare, tudo o que se quer é fazer outro Shakespeare. "E entre as duas eu fiz 'Moby Dick', que, segundo o crítico Harold Bloom, tem em Ahab o personagem mais próximo de Macbeth, em sua obstinação em levar todos para sua mesma loucura. Então, acho que eu estou no meu quinto Shakespeare."

22.11.09

Valor Econômico - Literatura

Letras econômicas: Shakespeare foi muito mais que dramaturgo e poeta. Fez fortuna também como empresário, como revela novo livro de Gustavo Franco.
Ter ou não ter, eis a questão

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
20/11/2009
Empresário bem-sucedido que soube aproveitar a notoriedade obtida pelo arrojo de sua criação artística, o inglês William Shakespeare combinou como poucos o talento literário ao tino comercial. Sua incursão no ramo do entretenimento permitiu que deixasse à família valiosas terras e uma herança em espécie correspondente a 14 milhões de libras atuais, compatível com o padrão de um superstar contemporâneo. A estimativa sobre a fortuna de Shakespeare, que legou às filhas, no testamento, a quantia de 1,5 mil libras, é do economista Gustavo Franco, que apresenta um aspecto pouco conhecido no Brasil sobre a vida empresarial do dramaturgo em "Shakespeare e a Economia" (Zahar, 232 págs., R$ 36,00).



Para chegar aos valores atualizados da fortuna amealhada por Shakespeare, Franco não se limitou a multiplicar a quantia expressa no testamento pela inflação que cobriu o período da morte do escritor, em 1616, até os dias de hoje. "Em 400 anos, não podemos olhar apenas o índice inflacionário. Há que se considerar outros porcentuais de elevação do custo de vida, incluindo o PIB", diz o economista. Levando em conta apenas a inflação de quatro séculos, Shakespeare teria deixado somente 78 mil libras para a família. No entanto, as 1,5 mil libras que constam no testamento surgem como uma soma milionária se comparadas aos salários anuais de artesãos e professores, que ficavam entre 15 e 20 libras.

"Conversei com muitos especialistas em Shakespeare, que confirmaram que ele era rico para a época, quase um aristocrata. Sua fortuna poderia ter sido multiplicada, mas as filhas, como as mulheres da época, dependiam dos investimentos que os maridos fariam. Uma delas era casada com um homem responsável, porém não tiveram filhos. A outra fez um péssimo casamento", observa Gustavo Franco.

Os direitos autorais das 37 peças e 154 sonetos de Shakespeare poderiam gerar uma boa renda anual para seus descendentes, caso sua obra não fosse de domínio público. Em 2004, a revista "Forbes" calculou que herdeiros de William Shakespeare dividiriam uma renda anual mínima de U$ 15 milhões em royalties, apenas com a venda comercial de seus livros pelo preço de US$ 1 o exemplar. Isso sem computar as cópias compradas por escolas e bibliotecas nos Estados Unidos, onde, naquele ano, haviam sido vendidos 657 mil unidades de Shakespeare.
Embora pouco se saiba de concreto sobre a vida particular de Shakespeare, não houve dificuldade em encontrar material biográfico. "É provável que ele seja o escritor mais estudado pela humanidade", cogita Franco. Afinal, segundo o crítico Harold Bloom, a única personalidade mais citada no Ocidente do que o personagem Hamlet é Jesus Cristo. Com traduções em 119 línguas, entre elas a linguagem de sinais para surdos e Klingon - o idioma de alienígenas da série de televisão "Jornada nas Estrelas" -, Shakespeare é o autor com maior número de peças levadas para o cinema, algo superior a 350 versões fiéis ou baseadas em suas criações.

Da extensa bibliografia consultada surge o homem de negócios que soube se adaptar às transformações de uma época em que o capitalismo engatinhava. O teatro era a principal, senão a única, diversão da população de Londres, onde viviam, em 1600, 250 mil pessoas. "Havia uma dúzia de teatros em Londres, todos funcionando cinco dias por semana. Às 14 horas, tocavam as trombetas, avisando que as sessões começavam. O teatro fazia parte da rotina dos londrinos, que lotavam as casas de espetáculo. Só o Globe tinha três mil lugares. A movimentação financeira que a atividade teatral proporcionava era imensa, mesmo sem patrocínios diretos", conta Franco.

Segundo o estudo do economista, entre 1580 e 1648, foram montadas cerca de três mil peças na Inglaterra. Só 230 desses textos sobreviveram, entre eles 37 de William Shakespeare. As temporadas eram curtas. Os registros indicam que cada peça ficava em cartaz, em média, por dez dias, e as companhias faziam cerca de 200 apresentações por ano. Diretor e sócio de dois teatros, o Globe e o Blackfriars, Shakespeare ganhou muito dinheiro, comprando vastas propriedades de terra e investindo em cotas de produção de trigo, cereais e lã, entre outros produtos. Esse patrimônio incluía a New Place, a segunda maior residência de sua cidade, Stratford-upon-Avon, onde passou seus últimos anos.

A vida confortável de um autor que enriqueceu do próprio trabalho não tirou de Shakespeare a consciência crítica quanto à "hipocrisia reinante nos primeiros tempos do capitalismo", acredita Franco. Em "O Mercador de Veneza", Antônio, o personagem do título, faz fortuna com expedições de navegação. "Antônio explora a pirataria, a base onde se estruturava a recém-criada Companhia das Índias. Sua atividade é digna, mas a de Shylock, o judeu agiota, não. Ou seja, traficar escravos não é um pecado, cobrar juros, sim."

A intenção inicial de Franco era escrever um prefácio ao estudo lançado em 1931 pelo economista americano Henry W. Farnam sobre os aspectos de economia no teatro de Shakespeare. "A análise de Farnam é encantadora. Eu queria fazer uma introdução porque ninguém aprende Shakespeare no colégio nem conhece o contexto sociopolítico de seu tempo. À medida que pesquisava, achava os mais diversos registros da vida financeira, alguns detalhando os custos de produção de espetáculos, além da contabilidade dos teatros que Shakespeare administrou. Foi quando a editora Cristina Zahar propôs juntar no mesmo volume o texto de Farnam e o meu", conta o economista, cujo estudo recebeu o título de "A Economia de Shakespeare - O Retrato do Ca pitalismo quando Jovem".

Este é o terceiro livro de Gustavo Franco abordando a economia em textos de literatos. O primeiro reunia ensaios de economia do poeta Fernando Pessoa; o segundo, crônicas de Machado de Assis sobre as transformações na economia brasileira com o fim da monarquia e o início da República. Debruçar-se sobre a produção dos escritores foram experiências absorventes, afirma o economista. "Virou algo para a vida inteira. Não consigo mais me livrar de Pessoa ou de Machado. E Shakespeare é um colosso",completa Franco, modesto quanto a seu conhecimento sobre o dramaturgo: "Não li todas as peças; vi algumas encenações e muitos filmes, que ajudaram muito a compreender toda a sua criação. Afinal, o texto de Shakespeare foi escrito para ser falado, não para a leitura".

Valor Econômico - Literatura

Literatura: Escritores cedem ao impulso de retificar seus trabalhos e acabam por produzir novos, nem sempre assim reconhecidos.
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
30/10/2009

Considerar concluída uma obra é, para muitos artistas, mais difícil do que concebê-la ou executá-la. O pintor francês Pierre Bonnard (1867-1947) costumava driblar a vigilância dos locais onde suas pinturas eram expostas para retocá-las. Detido em flagrante, de pincel em punho em um museu, candidamente Bonnard explicou que tinha o direito de aprimorar o quadro – que pertencia à instituição havia mais de dez anos.

Sem a mesma ousadia – ou excentricidade – de Bonnard, não são poucos os artistas que cedem ao impulso de retificar seus trabalhos. Para os escritores a oportunidade pode surgir a cada nova edição, levando, em alguns casos, à geração de novos livros que abordam o mesmo tema, complementando dados, no caso de não ficção, ou criando tramas a serem desenvolvidos em outros volumes. Em 1990, a francesa Marguerite Duras decidiu voltar a contar a história de seu primeiro amor ao saber da morte do ex-namorado. Seis anos antes, ela conquistara público e crítica com “O Amante”, narrado em primeira pessoa. Na segunda versão, “O Amante da China do Norte”, há um distanciamento maior dos personagens, por meio da narrativa em terceira pessoa. A oportunidade de constatar diferentes processos de produção literária não levou “O Amante da China do Norte” a arrebatar tantos leitores quanto o primeiro romance.

O escritor Godofredo de Oliveira Neto experimentou uma situação semelhante à de Marguerite quanto à recepção do segundo texto sobre uma mesma história. Seu último romance, “Marcelino” (Imago), entrou na lista dos 50 selecionados para o prêmio Portugal Telecom deste ano. “Quando souberam que era a nova versão de um livro já publicado, fui avisado de que estaria fora da disputa”, conta Godofredo. Em 2000, ele lançou “Marcelino Nambra, o Manumisso” (Nova Fronteira), saga ambientada na década de 40, escrita sem parágrafos ou pontuação. Chamado a conferir um roteiro cinematográfico baseado no livro, percebeu que as ações de um personagem eram atribuídas a outro. Decidiu, então, reescrever a história de maneira mais tradicional.

“Há mudanças significativas no desenrolar do enredo, pois os personagens ganharam detalhes necessários àquele estilo, com mais descrições de ambientes, de comportamentos”, explica Godofredo, que não pretende retomar outros de seus livros para novos exercícios literários. “É muito desgastante reescrever a mesma história sob outra ótica. As primeiras versões são menos sofridas.”

Resguardando ao autor o direito de mexer em sua obra sempre que considerar necessário, o escritor Flávio Carneiro teme que as revisões constantes se tornem obsessão. “O Drummond dizia que a gente publica para ficar livre daquela história. Existe um limite. Se pudesse, reescrevia tudo o que já publiquei, saía burilando. Mas não teria a coragem do Murilo Rubião, que chegou até a trocar nomes de personagens em diferentes edições de seus livros”, observa Carneiro, que passou dois anos montando um novo trecho para o policial “O Campeonato” (Rocco, R$ 38,50), publicado originalmente em 2002 pela Objetiva.

Antes de retomar o texto, lançou a novela gótica “A Confissão” (2006). Os dois romances e a ficção científica “A Ilha” (título provisório), que ainda está escrevendo, integrarão a “Trilogia do Rio de Janeiro”. “O enredo é o mesmo, mas consegui melhorar diálogos e tornar ‘O Campeonato’ mais enxuto”, diz Carneiro, que já havia reescrito o infantil “Acorda Rita” para um público de adolescentes.

Retomar personagens e interferir em textos já publicados pode ser menos angustiante que uma revisão, acredita o escritor Raimundo Carrero, que volta a temas e recria episódios com mais destreza do que corrige o que escreveu em outras épocas de sua vida. Pedir a um autor que reveja texto escrito na juventude é “uma crueldade”, afirma Carrero, que há quatro anos foi convidado a acompanhar a nova edição de seus três primeiros romances, fazendo pequenas alterações em um deles.

“Não quis reformar os pontos de vista do garoto de pouco mais de 20 anos que eu era quando escrevi aquelas histórias. Erros e equívocos fazem parte da carreira de um artista. Uma obra nunca se acaba e nunca vai se acabar. Os personagens podem se desdobrar e se revelar em diferentes livros”, diz o autor, que explora situações sob ângulos de diferentes personagens nos quatro romances que compõem “O Quarteto Áspero”, cujo último volume, “Minha Alma É Irmã de Deus” (Record), foi lançado há três meses.

O jornalista Zuenir Ventura preferiu criar uma sequência para “1968 – O Ano Que não Acabou” a atualizar o original, lançado há duas décadas. “Revisitei personagens e situações para saber como se encontravam 40 anos depois, e escrevi então o ‘1968 – O Que Fizemos de Nós’ (Planeta)”, conta Zuenir, que não acreditava no sucesso do tema. “Achava que teria uma edição apenas, se tanto.” Atualmente está na 43ª reimpressão. Apesar do interesse, ele não pretende voltar a abordar aspectos inexplorados daquela época. “O livro já inspirou a série de televisão ‘Anos Rebeldes’, de Gilberto Braga. Um de seus capítulos também foi adaptado para a TV francesa. Não, espero não mexer mais com ‘1968′”, comenta o jornalista.

A pressão por novas versões pode chegar antes de diversas reimpressões. Cerca de dois meses depois do lançamento de “1808″ (Planeta), em 2007, Laurentino Gomes começou a ser instado a condensar as 418 páginas para um volume que atraísse jovens leitores. “Era um tal de ouvir pais dizendo que gostariam que os filhos lessem o livro, mas que nenhum garoto se interessaria por um calhamaço…”, conta Laurentino, que contratou uma equipe para ilustrar e reescrever o texto em linguagem juvenil. Reduzido a 146 páginas, “1808″ foi adotado como material paradidático, vendendo cerca de 40 mil exemplares. Seu próximo livro, “1822″, que trata da Independência do Brasil, deverá ser lançado pela Ediouro com formatos para adultos, jovens, versão em áudio e em DVD.

O espanhol Javier Moro, que acaba de preparar um novo epílogo para “O Sári Vermelho” (Planeta), uma biografia de Sonia Gandhi, justifica a nova versão por uma necessidade de registro histórico. “Quis incluir a vitória de Sonia Gandhi e de seu filho Rahul nas eleições de maio de 2009″, relata Moro, que não deve retomar o texto. “Utopicamente, um trabalho nunca terminaria até a morte do autor, porque sempre surgem novas ideias, novos enfoques, novos retoques…. Não podemos deixar o processo criativo se tornar algo mais obsessivo-compulsivo do que já é.” Para Ângela Dutra de Menezes, que incluiu mais 50 páginas na nova edição de “O Português Que Nos Pariu” (Record), o autor sempre buscará aprimorar o texto. “O limite à obsessão é dado no contrato com as editoras, que, geralmente, permitem apenas três revisões a cada reimpressão. Se o autor pudesse mexer mais ainda, o trabalho seria infindável”, acredita Ângela.

Quando a revisão falha, mas não tarda

Até depois de morto, o romancista mexicano Juan Rulfo conseguiu corrigir a edição de sua obra-prima, o magistral “Pedro Páramo”. Em 2005, a edição comemorativa dos 50 anos de lançamento da novela incorporou alterações que o escritor fizera ao longo de décadas. Embora meticuloso, o colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982, só foi perceber um erro em “Cem Anos de Solidão” (Record) quando fez a revisão para a edição comemorativa dos 40 anos do lançamento do romance, em 2007.

“Durante esse tempo todo, nem os tradutores notaram a troca de nome de duas personagens, a amante, Petra, e a mulher, Fernanda, do Aureliano Buendía Segundo. Passou por, no mínimo, 50 milhões de leitores”, lembra Eric Nepomuceno, tradutor da nova versão de “Cem Anos de Solidão” e de outros oito livros de García Márquez, um autor cuidadoso com revisões das próprias edições – fez 300 alterações da primeira para a segunda impressão de “Notícias de um Sequestro” – que não gosta, porém, de acompanhar as traduções.

“Quando peço esclarecimentos, ele diz que já basta ter que aturar tradutor de inglês, francês, alemão”, conta Nepomuceno. Por isso, na biografia de García Márquez, “Viver para Contar”, foi mantido um trecho que o próprio escritor, quando confrontado pelo tradutor, não soube explicar. Na primeira vez em que vê o mar, Márquez o descreve como “uma vasta extensão de águas verdes, onde flutuava um mundo inteiro de galinhas afogadas”.

“O revisor não se conformou com aquelas galinhas afogadas e descobriu que existe apenas no Caribe uma espécie de peixe chamada peixe-galinha. Gabo riu muito, deu razão ao revisor, mas disse que não pensara nos peixes-galinha nem se lembrava bem por que escrevera aquilo”, recorda-se o tradutor, que é amigo do escritor. (OM)

Valor Econômico - Literatura

Entre dois amores

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
16/10/2009

“Uma plantação de café é algo absorvente e se gruda nas pessoas, não havendo nunca momentos ociosos: está-se sempre ligeiramente atrasado no trabalho a fazer”.

A Fazenda Africana, Isak Dinesen



A descrição da celebrada escritora dinamarquesa Isak Dinesen bem poderia ser assinada por Frances de Pontes Peebles. Há cinco meses administrando a fazenda de café de sua família, em Taquaritinga do Norte, no Planalto da Borborema, em Pernambuco, Frances não tem nenhuma pretensão de tornar-se uma Dinesen dos trópicos. “Espero que minha fazenda seja mais bem-sucedida do que a dela. Na literatura, minha ousadia não chega a tanto”, disse em entrevista por telefone ao Valor, na semana em que chegou às livrarias brasileiras a tradução de seu romance de estreia, “A Costureira e o Cangaceiro” (Nova Fronteira, 624 págs., R$ 69,90).

Isak Dinesen era o pseudônimo de Karen Blixen (1845-1992), que morou por 16 anos no Quênia, onde teve uma fazenda de café. Desistiu da empreitada em 1931 e voltou para a Dinamarca para dedicar-se à literatura. O autobiográfico “A Fazenda Africana” tornou-se seu livro mais conhecido, principalmente depois da versão cinematográfica de Sidney Pollack, com Meryl Streep no papel da escritora. Gostava de escrever em inglês e depois os textos eram vertidos para seu idioma nativo. Outro de seus contos a lhe render popularidade por adaptação para o cinema foi “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel.

Além da dedicação ao café e à literatura, Frances, como a dinamarquesa, também escreve em inglês. Nascida no Recife há 30 anos e definindo-se como alguém com “um pé no Brasil e outro nos Estados Unidos”, a brasileira sente que sua fluência em português está restrita à fala – com um forte sotaque pernambucano. “Não tenho segurança para me aventurar em textos maiores que os de cartas ou e-mails”, explica Frances, que não interferiu na tradução de Maria Helena Rouanet para o romance. Na versão original fez questão de inserir termos em português.

“Não existe tradução para alpercatas, cangaço ou jagunço. Não são sandálias de couro, bandidos nem vaqueiros, têm outro significado. Então, pus notas explicativas e deixei tudo como se fala aqui, até porque pretendia reproduzir um pouco da musicalidade do palavreado polissilábico português”, conta Frances, que viveu no Brasil até os 5 anos, quando a família se mudou para os Estados Unidos para acompanhar o pai, David Peebles, engenheiro americano.

O contato estreito com a família materna, em Pernambuco, foi sua base para criar uma história genuinamente brasileira. Seguindo a saga de duas irmãs órfãs e costureiras, Frances mostra tanto o Brasil urbano, por meio da sociedade do Recife da época, que buscava acompanhar a modernidade europeia no período anterior à Segunda Guerra Mundial, e o agreste nordestino, onde o tempo resistia às novidades. Depois de formar-se em Letras pela Universidade do Texas, recebeu uma bolsa da Fundação Fulbright para pesquisar o cangaço e escrever um romance histórico totalmente fictício, em que o único personagem real é Getúlio Vargas. “Até os sobrenomes são inventados, pois não queria nenhuma associação com gente que viveu na região.”

O fascínio pelo universo do cangaço vem da infância. Em Taquaritinga ouvia boatos sobre vizinhos que teriam sido cangaceiros. “Eu tinha um medo danado de um tal de seu Vitorino, que teria sido do bando do temível Antonio Silvino. Hoje o cangaço é folclore e os cangaceiros têm aura de heróis, mas quem viveu aqueles tempos sentia pavor deles. Por mais que os cangaceiros fizessem frente ao poder dos coronéis, eles eram perigosos. As famílias escondiam as filhas, já que muitas meninas de 14 anos eram sequestradas pelos cangaceiros. E, mesmo que não sofressem violência alguma, eles ainda tinham que hospedar ou ceder as casas para os bandos”, contou Frances.

A pesquisa histórica à qual se dedicou durante quatro anos e meio incluiu entrevistas com moradores de Taquaritinga, que eram jovens na época do fim do cangaço: “Os relatos deles forneceram o tom de veracidade necessário ao romance. Eu queria criar os meus cangaceiros, que têm características de gente que existiu realmente, só que tudo bem misturado, de forma a ninguém ser reconhecido. As lembranças dessas pessoas me ajudaram a fazer a transposição para aquele mundo que acabou”.

Traçando um paralelo entre a trajetória das irmãs – uma que vive um casamento de conveniência no Recife, a outra, levada por cangaceiros, ganhando notoriedade por sua força dentro do bando -, Frances quis mostrar que as normas rígidas pautavam o comportamento de todos os grupos sociais. “Qualquer traição era punida com a morte. O adultério era proibido. Pouco se sabe do cotidiano das mulheres do cangaço, que entregavam os filhos recém-nascidos aos padres no sertão para que fossem criados por outras famílias. Era uma vida muito perigosa, arriscada, porém a angústia também existia para quem sofria o preconceito da sociedade rica no meio urbano, obrigada a cumprir rituais de luto, mesmo que não sentisse a dor da perda pela morte”, relatou.

A versão brasileira de “A Costureira e o Cangaceiro” exigiu um corte de quase cem páginas. Frances Peebles reconhece que o romance, atualmente com 600 páginas, ainda é bastante extenso. Mesmo assim, conquistou o público feminino. “Apesar do tema, o livro foi apontado como um dos favoritos pelas leitoras da revista ‘Elle’, o que me surpreendeu”, contou a escritora, que não revela o próximo tema a explorar literariamente. Por ora, a prioridade é a fazenda em Taquaritinga, onde pretende permanecer, no mínimo, por cinco anos – o prazo necessário para estabelecer a plantação de café orgânico.

Ela garante que não seguirá o exemplo de Isak Dinesen, narrando sua vivência na direção da fazenda: “Escrever não ficção é abrir sua intimidade, que nem sempre é tão interessante assim. Mexemos com máquinas, andamos o dia inteiro. Estamos ainda aprendendo a tocar o negócio”, explica Frances, que tem como companheiros na empreitada o marido, a irmã e o cunhado.

O trabalho incessante limita a vida social dos dois casais, que ocupam casas diferentes no mesmo terreno. Levantam-se pouco depois do nascer do sol e passam o dia coordenando as atividades dos 17 empregados, entre elas a coleta de mel de colmeias de abelhas e os cuidados com as criações de porcos e de cabras, que fornecem os fertilizantes naturais para o solo. Acabam de plantar quatro mil mudas de pau-brasil na região. Segundo Frances, não há nenhum arrependimento por haver trocado a sofisticada Chicago pela pacata Taquaritinga: “Aqui é minha casa, minha referência de infância, o lugar onde pretendo envelhecer. Queremos criar mais do que uma fonte de renda para a família, trazendo uma inspiração para o desenvolvimento sustentável da região. Tudo é novidade e aprendizado. A vida ficou mais simples, não há televisão na fazenda. Mesmo assim, não há como nos isolarmos do mundo. Temos internet”.