19.1.07

Valor Econômico - Literatura

A vez do relato confessional

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio

Eles se drogaram, se prostituíram, enfrentaram guerras, aprenderam a conviver com doenças crônicas, sofreram com a perseguição política, tiveram de construir seus caminhos pelo mundo contra tudo e todos. No fim, venceram perdas pessoais e materiais, e decidiram contar suas experiências em narrativas que acabaram pejorativamente rotuladas – pelos críticos literários britânicos e norte-americanos - como “misery books”. Desgraças à parte, este é um dos gêneros mais bem sucedidos no mercado editorial internacional desde a publicação do “Diário de Anne Frank”, em 1947.
Enquanto os críticos torcem o nariz para a maioria dos títulos, o público mostra-se ávido em conhecer os esqueletos que autores guardam em seus armários. A impessoalidade na forma como a imprensa trata a realidade é um dos fatores que levou ao aumento da demanda por este tipo de livro, acredita o editor de não-ficção da Nova Fronteira, Luciano Trigo: “O leitor sente falta de relatos que dêem conta da dimensão humana das coisas, sente falta de reflexão, de profundidade e de sentimentos”. Para Jorge Oaquim, editor da Intrínseca, a tendência do “misery book” ainda não chegou ao Brasil, mas abriu espaço apenas para a literatura confessional de qualidade. “A chamada mis-lit (de misery literature) é uma verdadeira febre na Inglaterra, com histórias sobre infâncias terríveis e a lição de quem deu a volta por cima”, diz Jorge, que publicou “Ei, professor”, de Frank McCourt, o americano de origem irlandesa que recebeu um Pulitzer em1997 por “As Cinzas de Angela”, em que relembrava a sofrida história de sua família durante os anos 30. Em “Ei, professor”, McCourt fala sobre sua experiência no ensino público em Nova York na década de 50.
O tom realista no livro-depoimento está tanto em Anne Frank – que, apesar de investigações diversas por suspeitas quanto à autenticidade do texto vendeu 25 milhões de exemplares no mundo inteiro – quanto em “Quarto de Despejo”, os diários de Carolina Maria de Jesus sobre seu cotidiano na favela do Canindé, em São Paulo, publicado na década de 60. Nos anos 70, as atribulações de jovem alemã, Christiane Felcherinow foram compiladas em “Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituída”, que freqüentou listas de best sellers e mostrou o cotidiano sombrio de um grupo de adolescentes de Berlim. Agruras juvenis conquistaram o Brasil na década de 80: em “Feliz Ano Velho”, Marcelo Rubens Paiva contava como um acidente levou-o a ficar paraplégico. Em “Com Licença que eu vou à luta”, Eliane Maciel tratava dos conflitos que tivera com os pais até sair de casa, ainda adolescente.
A publicação dessas memórias precoces levou à profissionalização de Marcelo Rubens Paiva e de Eliane Maciel como escritores. O mesmo caminho foi seguido por Valéria Piassa Polizzi, que lançou “Depois daquela Viagem” (Ática) em 1994, em que falava sobre como se tornara soropositiva na adolescência. O livro de estréia do americano William S. Burroughs também foi confessional. “Junky”, de 1953, traz um relato seco sobre sua convivência com diferentes tipos de drogas pesadas. Burroughs, que jamais escondeu seu fascínio pelas drogas, conclui “Junky” declarando que estava de partida para a Amazônia, onde iria conhecer o Yagé – o alucinógeno Ayuasca. A frieza na abordagem do universo dos drogados de Burroughs é semelhante ao depoimento de Fred Pinheiro a Ivan Sant’Anna em “Bicho Solto”(Objetiva). “A história é muito pesada, mas sei de pais que recomendam sua leitura a filhos adolescentes”, diz Ivan Sant’Anna. A produtora musical Bel Marcondes, que conta como se livrou da dependência química em “Estou Viva, Não uso mais Drogas” (Geração Editorial), tem feito palestras sobre o tema no País inteiro. “Esses livros vão de encontro ao desejo do público de conhecer quem superou seus problemas”, afirma Luis Fernando Emediato, diretor da Geração Editorial.
Escritores consagrados também fazem, vez por outra, incursões na literatura confessional. Em 1990, o respeitadíssimo William Styron publicou “Perto das Trevas” (Rocco), um ensaio sobre a depressão a partir de sua própria experiência com a doença. Pesquisa semelhante fez a jornalista carioca Marina W, autora de “Não sou uma só: Diário de uma bipolar”(Nova Fronteira), que pretende desmistificar a doença com o livro. “Quis vencer meu próprio preconceito ao assumir que sofro de transtorno bipolar. A doença é grave, mas ninguém precisa se envergonhar dela”, diz Marina.
As tradições culturais de países asiáticos ou africanos atualmente rendem relatos comoventes, como o da senegalesa Khady Koita, dirigente de uma instituição de prevenção às mutilações femininas praticadas em diversos locais da África. Em “Mutilada” (Rocco), Khady fala como sofreu a chamada circuncisão feminina aos 7 anos, reconhecendo que demorou cerca de vinte anos até revoltar-se contra a prática, rompendo com a costumes de submissão das mulheres em seu meio. Uma trajetória semelhante à da afegã Masuda Sultan, que em “Uma Guerra Particular” (Nova Fronteira) recorda como conseguiu libertar-se de um casamento arranjado por sua família muçulmana. A guerra real é um tema recorrente na literatura confessional. A luta de judeus que conseguiram manter-se fora dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial estão em “O Pianista” (Record), de Wladyslaw Szpilman, e “Inverno na Manhã” (Zahar), de Janina Bauman, que, como Szpillman, viveu no Gueto de Varsóvia. Do outro lado está o intrigante depoimento de Rochus Misch, em “Eu fui guarda-costas de Hitler” (Objetiva), que disse ter passado a guerra inteira sem dar um só tiro. Em 1993, a uma nova Anne Frank surgiu na Bósnia. O diário de Zlata Filipovi, de 13 anos, contando os ataques sérvios a Sarajevo entre 1991 e 1993 foram lançados pela Unicef em servo-croata. Os conflitos na Palestina obrigaram Mourid Barghouti a exilar-se em 1966. Suas impressões, trinta anos mais tarde, estão no poético “Eu vi Ramallah”, em que conta seu retorno à terra natal.
A maioria dos autores de livros confessionais afirma que não se incomodam em expor-se desde que chamem a atenção para problemas ou práticas condenáveis. Em “Memórias sexuais da Opus Dei” (Panda Books), Antônio Carlos Brolezzi fala sobre o tempo em que pertenceu à irmandade e como se submetia a autoflagelação para reduzir a libido. Exatamente o contrário de Raquel Pacheco, que ficou conhecida como Bruna Surfistinha, autora de “O Doce Veneno do Escorpião” (Panda), há 50 semanas nas listas de mais vendidos no Brasil. Raquel, que está com um novo livro no mercado - “O que aprendi com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil” –, acha que sua incursão na literatura ajudou a reduzir preconceitos contra as prostitutas. “Meu objetivo era mostrar que as garotas de programa merecem respeito”. Sem querer derrubar tabus, “A Vida Sexual de Catherine M”, em que a madura crítica de arte francesa contava suas peripécias sexuais vendeu mais de 500 mil exemplares no mundo inteiro.

5.1.07

Valor Econômico - Entrevista Ruy Castro

Um outro Rio ainda é possível

Em seu último livro, “Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero-Musical”, Ruy Castro dá endereços, dicas e informações para os interessados em continuar ouvindo o gênero que o escritor considera “genuinamente carioca”.

Valor - Ler "Rio Bossa Nova" é como mergulhar na cidade mais tranqüila de 40 anos atrás. Onde sobrevive o romantismo e o charme no Rio de Janeiro?

Ruy Castro - O mito da cidade "tranquila" de 40 anos atrás é mais difícil de matar do que o Rasputin. Mas é só um mito. Naqueles "anos dourados", o povo se queixava de que não era possível andar na rua, que os bandidos estavam tomando conta e a polícia não existia etc. Os jornais dos anos 30 já se referiam ao Rio como "a ex-cidade maravilhosa". Um dia, no futuro, vamos dizer que os anos 2000 é que foram os anos dourados. Porque, se você quiser romantismo e charme no Rio de hoje, lugar é que não falta -- vá ao Leblon, à Lapa, aos quiosques da Lagoa, ao samba no Largo da Prainha e a tantos outros lugares, em qualquer noite da semana. O Rio não tem culpa se basta alguém aqui roubar uma galinha para que isso saia na TV. Em outras cidades, o crime também pinta os canecos, mas ninguém dá muita bola. Há poucos anos, um Papai Noel vestido a caráter foi esfaqueado na véspera do Natal em Curitiba e morreu. Se tivesse acontecido no Rio, teria saído na CNN e já estariam fazendo um filme cretino a respeito.
Valor - Seu amor pelo Rio é mais do que declarado em seu trabalho. E como fica sua terra natal, Minas Gerais?

Ruy Castro - Sou tão mineiro quanto Milton Nascimento - nascido no Rio - é carioca. Em fevereiro de 1948, quando nasci, eu devia ter uns 50 parentes no Rio, entre tios, tias, primos e primas. Em Caratinga, MG, eu tinha exatamente dois: meus pais, que haviam acabado de se mudar do Rio para lá, eu na barriga da minha mãe. Deixei de nascer na Lapa por questão de meses. Caratinga, nos anos 50, era uma pequena comunidade urbana, com tudo de que eu precisava: dois ou três cinemas, uma livraria, um estádio de futebol, três jornais semanais, uma estação de rádio, várias bancas de revistas, três colégios e até um grupo de teatro amador. Era delicioso morar lá. Passávamos grande parte do tempo no Rio e, por isso, tive uma infância tão carioca quanto mineira.
Valor – Seu ritmo de trabalho é intenso e o senhor publica, em média, um livro ao ano, enquanto participa de antologias. Dá para viver de literatura no Brasil?

Ruy Castro - Claro, se você não parar de escrever nem por um minuto. Mas antes fosse um livro por ano. Só neste ano de 2006, foram dois livros inteiros, um deles, de artigos sobre cinema - "Um filme é para sempre", organizado pela Heloisa Seixas, minha mulher –, e não sei quantas participações em livros com outros escritores. Para 2007, há uns quatro livros novos em vista. Trabalho dia e noite e alguns livros levam anos. "Carmen", por exemplo, tomou cinco, dos quais os últimos três em tempo integral. Durante os dois primeiros, em 2001 e 2002, tirei algumas horas por dia para escrever outro livro pelo qual tenho adoração, "Carnaval no fogo -- Crônica de uma cidade excitante demais", sobre o Rio.


Valor – Seus recentes problemas de saúde vão levá-lo a reduzir seu ritmo de trabalho?

Ruy Castro - Já reduzi. Moro defronte à praia no Leblon e, até um ligeiro piripaco que tive recentemente, passava às vezes 15 dias sem atravessar a rua. Agora caminho todo dia no calçadão - é incrível como o calçadão está cheio de cardíacos saudáveis. E parei de comer torresmos no café da manhã.

20.11.06

Valor Econômico - Entrevista Autran Dourado

“Escrever é quase uma obrigação”

Por Olga de Mello, para o Valor

17/12/2006

Valor – Por que o senhor nunca se candidatou à Academia Brasileira de Letras?

Autran Dourado – Na minha idade, já sou vaga na Academia. Esta é a resposta que dou quando, vez por outra, me sondam para a Academia, que respeito muito como instituição. Tenho muitas atividades, hábitos definidos. Escrevo todos os dias, faço palestras em universidades, viajo aos fins de semana para Petrópolis (Região Serrana do Rio), almoço aos domingos com meus filhos e netos. Para relaxar, assisto filmes clássicos na televisão, principalmente Pasolini, Bergman, Fellini e westerns. E há um ano freqüento academia de ginástica, por ordem médica, faço musculação.

Valor – Como é seu contato com os leitores?

Autran Dourado – Ele se dá, principalmente, nessas palestras. Sou muito procurado por estudantes de Letras que estudam meus livros. Há pelo menos 40 teses sobre minha obra. Isso dá uma satisfação enorme, confesso. O reconhecimento, para o escritor, é o que mais vale na carreira. Admito que fico envaidecido ao ter meus livros traduzidos para outros idiomas e lançados em diversos países, entre eles França, Alemanha, Estados Unidos e Noruega. Assim como foi muito bom receber o Prêmio Camões - até porque eu não faço política literária.

Valor – Por que as histórias do “Senhor das Horas” voltam ao mesmo cenário de outros livros seus, a cidade de Duas Pontes?

Autran Dourado - Duas Pontes é a cidade imaginária mais parecida com Monte Sião, onde fui criado. Com um mês de vida, saí de Patos, onde nasci. Aos 11 anos, fui para Belo Horizonte estudar, aos 28, me mudei para o Rio de Janeiro, mas pouco conheço da cidade. Sou muito caseiro, nunca entrei em uma boate. O melhor lugar para ambientar meus assuntos e construir meus personagens é a cidade de minha infância.

Valor – O senhor não quis viver em um lugar mais tranqüilo que o Rio de Janeiro e mais parecido com Duas Pontes?

Autran Dourado – Em 1960, eu era secretário de Imprensa de Juscelino Kubistchek, que me convidou para acompanhá-lo a Brasília. Eu falei: ‘Presidente, o senhor me tirou de Belo Horizonte; agora quer me levar para um lugar aonde não tem livraria”. Não fui, naquela época Brasília não tinha nada. Existem confortos na cidade grande que são necessários, sobretudo para quem faz cultura.

Valor – O que lhe dá mais prazer, escrever ou ler?

Autran Dourado – Escrever é quase uma obrigação. Escrevo todos os dias, sempre de manhã. Tomo notas e deixo as idéias amadurecerem, porque me preocupa a estrutura vertical de cada livro. A unidade é mais fácil nos contos, em poucos dias resolvo aquela narrativa. Romances, não, demoro de um a dois anos até chegar ao fim. Depois que acabo um livro, até sinto que me realizei, mas, na verdade não gosto do ato de escrever. É trabalhoso. Tenho mais um romance planejado, mas precisei parar e acertar os contos deste livro. Gosto mesmo é de ler.

Valor – Quais são seus autores preferidos?

Autran Dourado - Machado de Assis, sempre que sinto que minha língua está desgastada, de tanto ler obras em outros idiomas. Gosto muito de Faulkner, James Joyce, Thomas Mann. Dos brasileiros, José J.Veiga, Rubens Fonseca. Quando pego um livro novo, leio logo o fim da história. Aí, acaba a surpresa e posso me concentrar na sua estrutura. Mas não recomendo que outros leitores façam o mesmo.

Valor – O senhor ainda vota?

Autran Dourado – Faço questão de votar. O Brasil ficou muito tempo sem votar, durante duas ditaduras, a de Getúlio Vargas, nos anos 30, e durante o regime militar. Foram períodos cinzentos na vida do país. Essa onda de denúncias sobre corrupção me inquieta, pois é uma situação propícia para golpes de estado. Foi assim em 1930 e em 1964. As ditaduras sempre nascem alegando que pretendem moralizar, quando são apenas disputas pelo poder. Eu não sei se Lula consegue conter a corrupção. Não dá para permanecermos alheios dos problemas sociais neste país, Todos os dias vejo aumentar um grupo de pessoas que dorme na rua onde moro. Isso é fruto da falta de uma política de reforma agrária. Há anos as populações de migrantes não conseguem emprego nas cidades grandes.

6.10.06

Valor Econômico - Literatura

Cerimônias do adeus

Por Olga de Mello, para o Valor
06/10/2006

A chamada "hospitalização da morte", de que fala o escritor Philippe Áries, sepultou uma tradição da civilização ocidental: a reunião de parentes e amigos em torno do leito do doente em seus últimos momentos. Atualmente, raros são os que morrem em sua própria cama, cercados por pessoas amigas, mas as despedidas e os conselhos dos que estão prestes a morrer multiplicam-se nas prateleiras de livrarias, com boa receptividade do público. Os livros de "inspiração" abrigam desde os relatos das perdas pessoais de escritores como o inglês C.S. Lewis, a chilena Isabel Allende e a americana Joan Didion às conversas de Mitch Albom com um professor de psicologia que sofre de uma doença degenerativa. A eles recentemente juntou-se uma reflexão sobre viver e morrer com um ponto de vista inédito - o de quem sabe que está com os dias contados. Eugene O'Kelly, ex-presidente mundial da KPMG, decidiu deixar em livro suas observações sobre a vida quando soube, em maio de 2005, que teria cerca de três meses de vida.

Divulgação Joan Didion: sucesso de público com livro em que analisa o desamparo e a solidão que conheceu a partir da morte do marido, o escritor John Gregory Dunne

Passado o choque do diagnóstico sobre o câncer cerebral progressivo, O´Kelly traçou planos para, depois de afastar-se da presidência da empresa, aproveitar o tempo que lhe restava criando "dias perfeitos", nos quais estaria ao lado da mulher, das duas filhas, dos irmãos, da mãe e de amigos. Além de despedir-se de todos, planejou seu próprio funeral e começou a escrever "Claro como o Dia - Como a Certeza da Morte Mudou Minha Vida" (Nova Fronteira), no qual afirma que o excesso de dedicação ao trabalho embota a criatividade, que poderia ter aprimorado se tivesse passado mais tempo com a família. Sua viúva, Corinne, encarregou-se de concluir o manuscrito seis semanas após a morte do marido. "Eugene havia tratado diretamente com a editora a publicação do livro e nós trabalhamos juntos enquanto ele pôde escrever. Sua intenção era dizer ao mundo que não é importante quanto se vive, mas sim o que cada um faz com sua vida, e que ninguém precisa temer a morte", contou Corinne ao Valor.

Traduzido em dez países, "Claro como o Dia" já vendeu 80 mil exemplares no exterior, desde seu lançamento, em janeiro. No Brasil, 2% da receita obtida serão destinados ao Instituto Nacional do Câncer. Segundo Corinne, seu marido esperava que o livro incentivasse a dotação de mais recursos para pesquisas sobre a doença: "Qualquer parcela das vendas que venha a ser utilizada para pesquisas que procurem novos tratamentos para a doença vai exatamente ao encontro do que Eugene pretendia quando escreveu 'Claro como o Dia'".

Enquanto O´Kelly determinou em detalhes como seria seu funeral, o professor universitário americano Morrie Schwartz teve a idéia de reunir parentes e amigos para que lhe mostrassem os discursos que poderiam vir a fazer depois que morresse. Bem-humorado, Schwartz lamentou que um amigo, que sofrera um infarto fulminante, não tivesse podido receber todas as homenagens que lhe foram dirigidas em seu enterro. Schwartz promoveu, então, o que chamou de "funeral ao vivo". O otimismo do professor e suas observações sobre amor, trabalho, família, compaixão e amizade foram registradas por seu ex-aluno, o jornalista Mitch Albom, em "A Última Grande Lição - O Sentido da Vida". Lançado pela Sextante em 1998, o livro acaba de ganhar uma nova edição, depois de vender 200 mil exemplares no Brasil.

"Exitus Letalis" (Geração Editorial), escrito pelo médico boliviano Reginaldo Ustariz Arze, traz um contundente relato sobre o desenvolvimento do melanoma que matou sua mulher, Ruth, em 1994. Na forma de diário, o livro mostra todas as etapas do tratamento a que Ruth, também médica, foi submetida, e discute se há um nível superior de conhecimento tecnológico necessário no cuidado com pacientes terminais. Ustariz Arze, que vive em São Paulo, levou a mulher para passar os últimos dias de vida na Bolívia. Ruth, como Morrie Schwartz e Eugene O´Kelly, morreu em casa, acompanhada pela família.

A intensidade dramática de mensagens deixadas por quem já morreu foi aproveitada no telefilme "Sunshine - Um Dia de Sol", que no Brasil também foi exibido em cinemas e levou legiões de adolescentes às lágrimas com o drama de uma jovem mãe que grava conselhos para a filha pequena, ao saber que tem câncer. Os diários e gravações que inspiraram Norma Klein - uma autora de livros para adolescentes - a escrever a história eram de Jacqueline Heyston, que morreu de câncer ósseo aos 20 anos, em 1971. As gravações de Jacqueline também deram base para baladas de John Denver, que compôs uma bem-sucedida trilha sonora para o filme. Tema semelhante foi explorado pela irlandesa Cecília Ahern. Em "P.S. Eu te amo" (Relume Dumará), Cecilia conta a história de uma jovem viúva que abre cartas do marido morto com recomendações para que ela toque sua vida adiante.

Se a morte sempre foi um tema que levou à criação de belas peças literárias, como o soneto que Machado de Assis dedicou à mulher ("A Carolina") ou o poema "Funeral Blues", de W. H. Auden, nem todo escritor quis expor publicamente sua própria dor. O autor inglês C. S. Lewis, celebrizado pela saga "As Crônicas de Nárnia", lançou sob o pseudônimo de N.C. Clerk, em 1961, o diário que escrevera sobre o desespero e a revolta que sentiu com a morte da mulher, Joy. Embora afirmasse que não queria associar sua experiência particular à obra como escritor, Lewis acabou cedendo à insistência de amigos e reconheceu a autoria do livro.

Em 1995, a romancista Isabel Allende escreveu "Paula", uma longa carta em que mistura suas próprias lembranças à biografia da filha de 29 anos, que estava em coma. Mesmo sabendo que Paula jamais se recuperaria - ela ficou um ano inconsciente até falecer - Isabel continuou coletando histórias da família como se ainda pudessem serdirigidas à filha. O sucesso do livro gerou um outro, "Cartas a Paula", em que a escritora reuniu mensagens de leitores que lhe expressavam solidariedade. Por causa de Paula, que se dedicava a trabalhos sociais, Isabel criou uma fundação que dá apoio a organizações de ajuda a mulheres e crianças carentes.

A ensaísta e romancista Joan Didion entrou pela primeira vez nas listas de livros mais vendidos nos EUA quando lançou, em outubro de 2005, "O Ano do Pensamento Mágico" (Nova Fronteira), livro em analisa o desamparo e a solidão que conheceu a partir da morte súbita do marido, o escritor John Gregory Dunne. A escritora mostra suas próprias reações enquanto comenta desde manuais de etiqueta do início do século XX a textos do antropólogo inglês Geoffrey Gorer, que credita à "profissionalização da morte", reservada aos ambientes hospitalares, um novo comportamento social, que estimula os enlutados a esconder suas manifestações de sofrimento, sem que incomodem "a alegria dos outros". A extensa pesquisa da escritora é entremeada por recordações dos quase 40 anos de convivência com John e a filha Quintanna, que morreu enquanto a mãe escrevia o livro.

Para o psicanalista Luiz Alberto Py, livros que falam sobre a proximidade da morte têm muita procura porque apresentam maneiras diferentes de vivenciar o que a sociedade ocidental encara como uma perda material. "A morte anunciada nos permite fechar as contas com a vida. Já acompanhei pacientes terminais. Quem sabe que vai morrer procura dar o que tem de melhor aos outros, como se fosse abrir seu próprio testamento em vida, e encara a morte não como um mal, mas como um momento da existência."

3.10.06

Continente Multicultural - Entrevista

CONVERSA
PAULO LINS: “Há muita lenda em torno da vida de bandido”
Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, fala do Estácio – tema de seu novo livro –, das lendas em torno da vida de bandido e de sua experiência como roteirista de cinema

Por Olga de Mello

Passar em frente a um dos muitos botequins no bairro carioca do Estácio era uma aventura apavorante para o menino Paulo Lins na década de 50. Quando saía sem a companhia – e a proteção – de um adulto, atravessava correndo para a outra calçada, a fim de evitar os bares, onde, segundo sua mãe, “só tinha bandido e vagabundo”. Levou tempo até descobrir que os malandros que a mãe apontava eram Nélson Cavaquinho, Cartola e outros bambas, que ficavam nos bares conversando, bebendo e criando obras-primas da MPB. Foi no Estácio que Paulo Lins nasceu, há 48 anos. E é o Estácio, em épocas diversas, o cenário e o eixo de seu novo romance, que será lançado em 2007.


Há quem diga que o segundo romance é o mais difícil para o escritor do que toda a sua obra. Como o senhor está enfrentando esta pressão?

Na verdade, este é o meu primeiro romance, ou melhor, a primeira proposta de romance que eu fiz, muitos anos atrás. Cheguei a botar alguma coisa no papel muito antes de Cidade de Deus. Queria juntar o samba, a umbanda e a história do negro no Brasil. Então, a idéia é antiga. Mas, aí, comecei a trabalhar na pesquisa da (socióloga) Alba Zaluar na Cidade de Deus. Fui chamado porque eu conhecia os moradores, tinha crescido ali. Ouvia histórias, recordava outras. Então, acabei sendo convencido a escrever sobre o crescimento da violência e a formação daquela comunidade. Agora, retomei minha primeira história. Por isso nem dá para sentir medo da segunda obra. Para ser mais preciso, este será meu terceiro livro, pois o primeiro foi Sob o Sol, de poesias.

Como em Cidade de Deus, o novo romance terá uma linguagem reproduzindo a forma de falar de cada época em que a história se passa?

Pensei que uma linguagem mais acessível, bem fiel à maneira como o povo falava, atrairia aquela população que eu mostrava ali, atingiria mais aquele público que estava sendo ali retratado. Não foi isso que aconteceu. O livro foi lido pelos consumidores habituais de livro, a classe média e a elite. Os pobres só se viram depois, com o filme. Nesta história de agora eu teria muita dificuldade em recriar a linguagem dos anos 30, precisaria inventar uma linguagem oral, inventar um idioma próprio. Ia ficar muito Guimarães Rosa, então, optei pelo uso do coloquial, com algumas gírias.


A história vem de suas experiências como morador do Estácio?

Na verdade, ele vem do medo que eu sentia dos sambistas. O Estácio era o centro nervoso do samba. Eu queria contar um pouco daquele Estácio, queria falar sobre o bairro, a música e os negros no Brasil. Mostrar um Brasil ainda mais difícil para o negro do que o país que conhecemos agora. O samba começou a se popularizar na década de 20, mas sambista não tinha o mesmo status que hoje em dia, não. A valorização começou bem mais tarde, em meados da década de 60. O preconceito contra o negro e suas manifestações era aberto. Ninguém respeitava umbanda. Havia perseguição da polícia que, não raro, enquadrava todos por vadiagem. Se até hoje o negro é perseguido, imagina há 40 anos.

Por que sua família saiu do Estácio, bairro central do Rio, para a Cidade de Deus, na época classificada como zona rural?

Foi o sonho da casa própria. Meu pai queria sair do aluguel, por isso nos mudamos, numa trajetória diferente dos outros moradores da Cidade de Deus, que haviam sido removidos de favelas no Centro. Para mim foi uma festa. A Cidade de Deus parecia mais uma estrada empoeirada, mas tinha mato, rio. Fui morar na roça, subir em árvore, brincar o dia inteiro com a molecada, a melhor das infâncias.

Sua formação foi diferente dos outros meninos da Cidade de Deus?

Muito, pois não precisei ajudar a sustentar a família. Minhas irmãs mais velhas completaram o secundário e foram trabalhar. Eu pude fazer Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. E a vida é muito diferente para quem pode estudar, o ensino sempre traz algo de bom. Até uns anos atrás, eu sempre me encontrava com ex-colegas de colégio da Cidade de Deus. Quase todos tiveram que trabalhar muito cedo. Hoje, há campanhas para manter as crianças na escola, mas é raro encontrar projetos sociais que não privilegiem o aprendizado profissionalizante. O Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré é um dos poucos a dedicar-se essencialmente a estimular os meninos pobres a fazer faculdade. Quem vai para a universidade sempre melhora de vida.

Como a sua vida mudou depois do lançamento de Cidade de Deus?

O livro foi bem recebido, mas nem chegou perto do sucesso do filme, que teve mais do que a boa direção do Fernando Meirelles – um elenco extremamente talentoso. Foi o filme que botou a Cidade de Deus no mapa do planeta. Até hoje eu estranho, porque o livro acabou sendo lançado em 30 países, teve mais de 25 traduções. Aí, estou na Finlândia participando desses lançamentos e vem uma pessoa falar que leu a minha história. Tudo isso me levou a deixar o Magistério, os convites foram surgindo, outros tipos de trabalho também. Gosto de criança, sinto saudades do Magistério, porque sala de aula rejuvenesce.

O reconhecimento da chamada cultura da periferia veio a partir de Cidade de Deus?

Naquele momento estavam surgindo o Afroreggae, o Rappa, Seu Jorge. Não havia música vinda das comunidades. Hoje, o pessoal está se expressando e entrando no mercado, que antes existia muito distante da manifestação da periferia. Certamente houve uma inclusão cultural da periferia depois de Cidade de Deus. No entanto, a inclusão social e econômica não acompanharam essa inclusão cultural. Continuamos um país sem profissionais liberais negros, o que só vai se modificar com um investimento político maciço em educação.


Como é viver da escrita?

Em 2004, fiz o roteiro de Quase Dois Irmãos, com Lúcia Murat. Atualmente, tem o romance, mas além dele estou trabalhando no roteiro de Beirando a Maré, que Lúcia Murat deve começar a rodar este ano, e A História de Dé, de Breno Silveira, cujas filmagens serão em 2007. A literatura é um ofício muito solitário. Roteiro é divertido, muda o tempo todo, tem muita gente para mexer. Ou é a locação que fica muito cara ou é o ator que não acha sua fala verossímil. É bom porque se trabalha em equipe, embora seja arte de segunda. Roteiro é treino, filme é que é jogo.

(Leia a entrevista na íntegra, na edição nº 70 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)



Olga de Mello é jornalista.


Valor Econômico - Empreendedores Culturais

Sobrevivente de uma idéia ousada


22/09/2006

Quando o carioca Charles Cosac desembarcou em São Paulo, em 1996, após uma temporada de 15 anos na Europa, estava determinado a abrir uma editora de livros de arte. "Não procurava uma brecha de mercado, não pensava em ganhar dinheiro. Eu queria construir algo para mim e para o Brasil." Associou-se ao cunhado, o americano Michael Naify, e seis meses depois publicavam o primeiro livro, "Barrocos de Lírios", um cuidadoso volume sobre a obra do artista plástico Tunga.

Carol Carquejeiro/Cia. de Foto/Valor Cosac: "A empresa cresceu sem planejamento algum. Ninguém nos dava mais do que um ano de sobrevivência"

Hoje, o catálogo da CosacNaify apresenta 500 títulos de história e teoria da arte, cinema, teatro, design, arquitetura, fotografia, dança, moda, literatura, filosofia, antropologia e crítica literária, todos seguindo um padrão requintado, de altíssima qualidade. "O que nos faltava em experiência administrativa, compensamos com ousadia e dedicação. A empresa cresceu sem planejamento algum. Ninguém nos dava mais do que um ano de sobrevivência."

Rapidamente, Charles Cosac descobriu que, apesar da carência de livros de artes visuais, firmar-se no mercado editorial brasileiro não seria fácil. "Na Europa, um livro de arte pode ter uma tiragem de até 50 mil exemplares. Aqui, é de apenas 3 mil volumes. O ciclo de um livro comum é de um ano e meio, desde a preparação ao tempo que permanece nas prateleiras. O livro de arte tem um ciclo muito maior, de cinco a seis anos. Eu imaginava que não encontraria concorrência, que era um ato filisteu brigar por um título no Brasil. Havia uma certa irreverência em lançarmos uma editora voltada para esse nicho dentro de um país onde nem os letrados têm o hábito de ler", lembra Cosac.

Reconhecendo que lhe faltava "uma visão panorâmica" da editora, há cinco anos se afastou da administração para se dedicar exclusivamente ao preparo das edições de livros de arte. "Acompanho tudo o que acontece na empresa, mas aprendi a descentralizar e garantir que a editora tenha vida própria, sem estar ligada a mim necessariamente."

A ênfase ainda é em arte, que responde por 35% do catálogo. Há espaço também para apostar em inovações, como a caprichada recente edição do clássico "Bartleby, o Escriturário", de Herman Melville. A capa é lacrada e as páginas, coladas, precisam ser abertas por uma espátula plástica, que acompanha o volume. Semelhante às edições da época de seu lançamento, em 1853.

Radicar-se em São Paulo foi uma decisão tomada a partir da criação da editora. "São Paulo é uma cidade dinâmica e referência para a arte no Brasil. Aqui havia mais chances de sucesso para uma editora de livros de arte", afirma Cosac. Ao chegar, não desanimou com a complexidade do processo para abrir um negócio no Brasil: "Levei um susto com o número de documentos exigidos para se alugar um imóvel. Na Europa seria bem mais simples. Mas eu não ia desistir. Queria fazer algo que não fosse efêmero, que sobrevivesse a mim, que ficasse para o meu país".

Dez anos depois, ele percorre a pé os dois quarteirões entre sua casa e a editora, em Higienópolis. Para garantir a paz de espírito, não quer enfrentar trânsito e evita ler os noticiários. "Prefiro a distância do que me angustia. Sou o homem mais rico de São Paulo, pois não preciso dirigir até meu escritório. Faço o meu próprio tempo, tive o privilégio de criar uma vida feliz para mim." (Olga de Mello, para o Valor, do Rio)

Valor Econômico - Empreendedores Culturais

O coreógrafo dá espetáculo na periferia


22/09/2006

Na década de 60, o paulistano Ivaldo Bertazzo assistiu ao espetáculo de "um louco" chamado Maurice Béjart e decidiu fazer da dança seu ofício. Quarenta anos mais tarde, ele se dedica a mostrar que a dança pode ser não apenas uma expressão artística, mas uma maneira de reeducar atitudes perante a vida, tanto para profissionais engravatados, que procuram sua escola a fim de relaxar das tensões do dia-a-dia, quanto para jovens da periferia de São Paulo, que participam do projeto Dança Comunidade. Mais do que levar seus alunos ao palco, em espetáculos que juntam canções da Índia e da África do Sul aos batuques brasileiros, Ivaldo quer, por meio da arte da dança, promover a mudança de valores desses jovens, preparando-os para disputar o mercado de trabalho.

Marisa Cauduro/Valor Ivaldo Bertazzo: "Tão importante quanto se apresentarem em palco é que se profissionalizem, saiam do assistencialismo e se valorizem por meio da carteira assinada"

Trazer um rapaz da periferia para um ensaio em sala de dança não é tarefa fácil; por isso o recrutamento fica a cargo de ONGs. "Depois vem a fase de convencer as famílias e os professores. Chamamos todos aqui, fazemos palestras, demonstrações. Se não houver integração, não sai nada", diz Bertazzo.

A primeira experiência foi no Rio de Janeiro, quando montou um projeto de experimentação de coordenação motora com 70 adolescentes de 12 a 20 anos, todos moradores do Complexo da Maré. O trabalho acabou evoluindo para três espetáculos: "Mãe Gentil" (2000), "Folias Guanabaras" (2001) e "Dança das Marés" (2002). Em São Paulo, começou o Dança Comunidade no Sesc, em 2003. A proposta era ensinar dança e formar professores entre pessoas sem qualquer conhecimento formal de técnicas de balé. Atualmente, com apoio da prefeitura de São Paulo, os 100 jovens que participam do Dança Comunidade recebem bolsas-salário e têm cinco horas de aulas diárias de música, percussão, reeducação do movimento, dança, origami, fisioterapia e práticas circenses. No Sesc, o grupo já montou concorridas temporadas com os espetáculos "Samwaad - Rua do Encontro" e "Milágrimas".

"Tão importante quanto se apresentarem em palco é que se profissionalizem, que saiam do assistencialismo e se valorizem por meio da carteira assinada, do emprego", acredita Bertazzo, que trabalha com amadores desde 1975, quando criou a Escola de Reeducação do Movimento e passou a montar espetáculos com os chamados "cidadãos dançantes". Nunca deu atenção às críticas, que sempre surgem, lembrando que o Brasil tem a tradição de aceitar amadores em teatro, fotografia e música, mas reserva a dança para os profissionais.

"Eu queria quebrar esse padrão, levar para o palco corpos heterogêneos, sem a uniformidade dos bailarinos. A Broadway, em Nova York, está repleta de talentos porque diversas gerações de artistas aprenderam a dançar nas coxias. Esses meninos vêm aprender uma linguagem gestual muito diferente da que usam no axé ou no funk, e também abrem os ouvidos e as mentes para outros sons. Além disso, o fato de se deslocarem para o centro de São Paulo os levará a tomar posse da cidade, a descobrir o circuito cultural, a ter um novo desejo de consumo", acredita Bertazzo, que continua à frente de algumas turmas na escola, entre elas a dos jovens do Dança Comunidade." (Olga de Mello, para o Valor, do Rio)