3.10.06

Valor Econômico - Futebol e Cultura

Copa rompe o preconceito

Por Olga de Mello, para o Valor
26/05/2006

Imbatível como traço de união cultural, social, afetivo e familiar no Brasil, prática desportiva que mais empolga as multidões mundo afora, o futebol era um tema timidamente explorado pela arte brasileira. Com exceção honrosa das artes plásticas e de uma razoável quantidade de canções populares que mencionam o jogo ou endeusam atletas, o futebol estava fora dos campos artísticos, com uma presença discreta nas telas de cinema e quase inexpressiva na literatura. Porém, às vésperas da 18ª Copa do Mundo, quando milhões de espectadores acompanharão as jogadas nos gramados da Alemanha, um previsível número de livros novos ou reeditados sobre futebol chegou as livrarias. Entre ensaios, crônicas, contos e até novelas, a surpresa para os leitores é que muitos dos títulos são de ficção.

Divulgação "Futebol" (1936), obra pioneira do paulista Francisco Rebollo Gonsales, pintor que chegou a jogar bola no Corinthians e depois no Ypiranga, em São Paulo

A literatura sempre demonstrou alguma resistência aos esportes em geral. Se a crônica esportiva criou seus personagens, como o Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, a ficção demorou a incorporá-los. Talvez por motivos diferentes dos alegados por Lima Barreto, que atacava violentamente a prática do esporte com uma xenofobia assumida, chegando a criar, em 1919, a "Liga contra o Football". Graciliano Ramos apostava que o jogo seria apenas um modismo passageiro. Ambos foram vencidos e, enquanto o futebol deixava de ser um esporte de elite para conquistar as classes populares, também arrebanhava uma legião de admiradores entre os intelectuais. Hoje, ao lado de ensaios sobre o esporte, histórias que têm sua trama centrada em jogadores de futebol já chegam às livrarias. É assim em "O Paraíso É bem Bacana", de André Sant'Anna, que conta a saga de um astro de futebol, e em "Vai na Bola, Glanderson!", de Hélio de la Peña, centrado na história de um menino suburbano, que pode vir a se tornar uma estrela do esporte.

Para Clara Arreguy, que acaba de lançar "Segunda Divisão", sobre as 24 horas que antecedem a final de um campeonato fictício de times pequenos, foi exatamente a popularização do futebol que o distanciou dos escritores. "A carência de produção cultural em torno do futebol é apenas preconceito contra o que se imagina como uma manifestação inferior", diz Clara, lembrando que passaram-se cerca de 60 anos desde a chegada do futebol ao Brasil para que ele merecesse estudos antropológicos. "Por isso demorou tanto até existir uma produção ficcional sobre o futebol, embora a cultura brasileira seja uma devedora do esporte."

Na introdução do recém-lançado "22 Contistas em Campo", o organizador Flávio Moreira da Costa diz que a ausência do futebol como tema na literatura brasileira poderia ser explicada porque o esporte seria uma expressão em si mesma, tanto no Brasil quanto em outros países: "E se o futebol é uma expressão em si mesma, toda outra expressão estaria condenada a se diluir. Como se fosse um discurso sobre o discurso, redundância, imagem enfraquecida". O escritor Sérgio Sant'Anna não se acanhou diante da imensidão da expressão futebolística, citando as estrelas dos gramados em contos, até criar um personagem que é jogador de futebol na novela "Miss Simpson" - cuja adaptação cinematográfica por Bruno Barreto, "Bossa Nova", rendeu cenas hilariantes sobre o aprendizado de palavrões em inglês. A dobradinha entre literatura e cinema está em "O Medo do Goleiro na Hora do Pênalti", novela do alemão Peter Handke, filmada por Wim Wenders. O protagonista é um ex-goleiro que comete um crime. Além do personagem, a novela tem um dos mais expressivos títulos na tradução de um sentimento diante da vida/esporte. Algo que também era mostrado pelo inglês Nick Hornby, em "Febre de Bola", coletânea de crônicas que relacionam o cotidiano ao amor pelo futebol, e que inspirou uma bem-sucedida adaptação cinematográfica.

No cinema nacional, o jogador de futebol teve destaque em raras produções. Em 1980, "Asa Branca - Um Sonho Brasileiro" falava da ascensão de um aspirante ao estrelato nos campos. Em 1984, o futebol é o pano de fundo para a tortura e as perseguições políticas em "Pra Frente, Brasil", de Roberto Farias. Numa época politicamente mais amena, o nostálgico "Boleiros - Era uma Vez o Futebol", de Ugo Giorgetti, levou um público de apenas 60 mil pessoas aos cinemas brasileiros, em 1998. Já "O Casamento de Romeu e Julieta", de Bruno Barreto, sobre o romance entre um casal que torce por times diferentes, foi visto por quase 1 milhão de espectadores.

Uma das teses para a pouca empolgação que a ficção sobre o futebol provoca nas telas é que as jogadas em campo parecem falsas, mesmo quando coordenadas pelo mestre John Huston, que se arriscou a filmar o esporte em "Fuga para a Vitória", que reunia os atores Michael Caine e Max von Sydow aos jogadores Pelé, Ardilles e Bobby Moore. Os craques interpretavam prisioneiros dos nazistas que vão se enfrentar num jogo armado para demonstrar a superioridade dos alemães. A luta de prisioneiros e seus guardas também está na comédia inglesa "Penalidade Máxima" (Barry Skolnick, 2001), que mostra um torneio dentro de uma penitenciária, com jogadas mais modestas, mas que também pecam pelo excesso coreográfico. "A Aposta" (Mick Davis, 1999), outra produção britânica sobre a disputa entre freqüentadores de dois pubs que demonstram maior empenho em se regalar de cerveja do que em correr atrás da bola, não apresenta um futebol brilhante, mas mostra o quanto o esporte está inserido no cotidiano do homem comum. Mas o enlevo despertado pelo futebol talvez tenha sido melhor representado em "A Copa" (Khyentse Norbu, 1999), produção do Butão, enfocando a epopéia de dois meninos que fazem de tudo para conseguir assistir aos jogos da Copa de 1998 dentro do monastério budista onde vivem.

É em outras telas que as manifestações e os conceitos representados pela paixão nacional vêm sendo retratadas há muito, ora com um olhar carinhoso sobre a infância disputando bolas em campinhos, como fizeram Portinari e Teruz, ora mostrando os lances profissionais baseados na própria experiência do artista quando jovem, caso de Francisco Rebolo, um ex-jogador de futebol. Djanira, Aldemir Martins e Rubens Gerchman são alguns dos artistas de renome que se debruçaram sobre torcidas e times para captar o impacto causado por jogadas coletivas e individuais.

O espaço privilegiado que o futebol ocupa na pintura também lhe é reservado na música popular brasileira, que o acolheu como tema, mesmo se fosse apenas para dar nome a uma canção instrumental. Em 1919, Pixinguinha e Benedito Lacerda lançavam o chorinho "1 a 0", que só ganhou letra, escrita por Nelson Ângelo, 74 anos depois, com licença das famílias dos compositores. A intimidade do futebol com a música talvez venha do casamento de seu pai oficial no Brasil, Charles Miller, com uma pianista, Antonieta Rudge, que, em viagens com o marido, costumava apresentar composições brasileiras.

Chico Buarque, um apaixonado torcedor do Fluminense, falava da alegria do homem comum com seu time em "Bom Tempo" ("Satisfeito, a alegria batendo no peito/ o radinho contando direito/ a vitória do meu tricolor/ vou que vou") ou comentava a situação do país em "Meu Caro Amigo" ("Aqui na terra estão jogando futebol/ tem muito samba, muito choro e rock'n'roll"). Já o rubro-negro Jorge Ben fazia a exaltação do atleta em "Fio Maravilha", um sucesso nacional que descrevia a atuação do jogador durante uma partida. O maior ídolo do Flamengo não foi esquecido por Jorge Ben Jor, que homenageou Zico em "Camisa 10 da Gávea". Hoje, o título de porta-vozes musicais do esporte ficou com os roqueiros do Skank, que exaltaram a "coisa linda" que "é uma partida de futebol".

Valor Econômico - Literatura

Valor Econômico - SP Valor Econômico - SP
10/03/2006 - 07:11

De Cinderela a Bridget Jones
As heroínas românticas se modernizam e o gênero "chick lit", ou literatura "mulherzinha", conquista uma legião cada vez maior de leitoras no Brasil

Olga de Mello


A atriz americana Renée Zellweger interpreta a ansiosa e hilariante Bridget Jones, assediada por seu chefe (Hugh Grant), no filme que adaptou o sucesso de Helen Fielding
Vem dos contos de fadas a figura da heroína romântica que sofre na mão de vilões e é resgatada de seu triste destino por um homem audaz, que lhe concede a recompensa com o casamento e o amor eterno. Os contos atuais já não têm tantas promessas de felicidade, mas as narrativas sobre jovens que enfrentam percalços sem desanimar até encontrarem um príncipe encantado continuam fazendo sucesso entre leitoras de todas as idades. Desdenhado pela crítica especializada como um gênero subliterário, o chamado romance rosa transformou-se na "chick lit" - ou literatura "mulherzinha", no Brasil - e ganhou vigor no fim do século XX, quando "O Diário de Bridget Jones" foi um best-seller mundial, contando as desventuras da atrapalhada trintona inglesa, que, como toda heroína romântica, almeja um final feliz ao lado de um homem idealizado.

Com mais de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro, mais de 100 mil só no Brasil, a inglesa Helen Fielding montou sua novela com a estrutura do clássico "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen. A sutil e irônica crítica social de Jane foi substituída por uma veia cômica histriônica, mostrando que a sociedade inglesa ainda vê o casamento como o destino natural das mulheres. A maior façanha de Helen, no entanto, foi tirar o folhetim romântico de seus esconderijos em gavetas de cômodas ou mesas de cabeceira para conquistar seu espaço nas estantes sem causar qualquer constrangimento às leitoras.

O sucesso desse modelo de personagem manifesta o simples desejo de obter na cultura popular uma satisfação inviável na vida real, acha a americana Laura Kipnis, autora de "Contra o Amor - Uma Polêmica". Ela lembra que o arquétipo da heroína romântica não foi derrubado sequer pelas quatro protagonistas da série "Sex and the City", baseadas em personagens criados por Candance Bushnell na novela "Quatro Louras". As quatro "mocinhas" chegam ao fim da série casadas ou mantendo um relacionamento duradouro com seus namorados, formando casais quase antagônicos, derrubando barreiras sociais e etárias, indo de encontro ao anseio do público por finais felizes que dificilmente acontecem na vida real. Laura, que participará na Bienal do Livro do debate "Ensaio sobre o amor na literatura", acredita que os relacionamentos reais são minados pela promessa de que o romance e o amor suprirão todas as exigências que a vida faz. O sucesso da "chick lit" estaria, então, em fornecer aos leitores o sonho de que o amor consegue superar qualquer frustração na vida, mesmo "numa época em que parecemos viver um momento de transição quanto às expectativas românticas e nas formas de relacionamento", diz a escritora, que tem diversos estudos sobre política sexual e cultura contemporânea.

Como de cada dez livros vendidos no Brasil, seis são adquiridos por mulheres, não causa surpresa o interesse pelo gênero. A popularidade da literatura feminina no país fica marcada a partir de 1935, quando a Companhia Editora Nacional começou a publicar a Biblioteca das Moças, um sucesso até a década de 60, com 158 títulos de diversos autores, tendo como expoentes as obras de M. Delly, pseudônimo de Frédéric e Jeanne Marie de La Rosiére, um casal de irmãos franceses que invariavelmente criavam histórias sobre jovens belas e pobres apaixonadas por heróis ricos, belos e aristocratas. A diferença para os títulos atuais é que os romances ingênuos, sem qualquer insinuação de sensualidade, destinavam-se a adolescentes, não a mulheres adultas, hoje o público-alvo da "chick lit". Nos anos 70 e 80, a literatura "mulherzinha" ficou praticamente restrita às bancas de jornal, com autores só conhecidos pelas leitoras do gênero.

Para a diretora editorial do grupo Record, Luciana Villas-Boas, houve uma evolução significativa na literatura feminina: "A literatura rosa era muito escapista, com enredos em locais exóticos e uma linguagem melodramática. Desde os anos 90, ela está ligada à realidade de mulheres que trabalham fora, sem deixar de valorizar o contexto romântico. Já temos divorciadas na faixa dos 40 entre as personagens da 'chick lit'". Muito antes de publicar "Bridget Jones" no Brasil, a Record já tinha as popularíssimas Bárbara Taylor Bradford e Danielle Steel entre seus autores. Em média, o grupo publica 28 novos títulos de literatura feminina ao ano, cerca de 10% do total de seus lançamentos - incluindo aí a série "Diários da Princesa", de Meg Cabot, destinada ao público adolescente.

As narrativas sobre a amizade e primeiros amores foram reunidas pela editora Rocco na Coleção Rosa Choque, que tem entre seus títulos os livros das séries "Irmandade das Calças Viajantes" e "Angel", este, seguindo a fórmula de humor com heroínas atrapalhadas à la Bridget Jones. Na mesma coleção estão os livros de uma admiradora confessa do gênero, Thalita Rebouças, autora de "Tudo por um Pop Star", "Tudo por Um Namorado" e "Fala Sério, Mãe", que já vendeu mais de 20 mil exemplares. Sem pretensão educativa, ela evita temas polêmicos como sexo ou gravidez: "Quero entreter e fazer rir. Eu quero falar do menino bonito, do professor que faz as meninas suspirarem. Não é escapismo, é a realidade da adolescência, das meninas de 11 a 16 anos, que, graças à Internet, dão retorno sobre os livros e pedem que eu continue escrevendo as aventuras das personagens que criei", conta Thalita.

Outra leitora de "chick lit", Michelle Abreu Vivas, debruçou-se sobre o tema para criar um dos raros estudos sobre o assunto no Brasil. Sua tese de mestrado em lingüística na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro foi "A Literatura Mulherzinha: a Construção de Feminilidades nas Tirinhas da Série Mulheres Alteradas". "As charges da cartunista Maitena enfocam as mesmas mulheres que estão em 'Bridget Jones' ou 'Melancia', com profissão e carreira definidas, mas em busca da realização afetiva. Elas vivem dilemas que as mulheres de hoje conhecem bem, o descompasso amoroso, a dupla jornada de trabalho. O interessante é que isso é visto de forma leve, crítica e bem humorada, num verdadeiro anestésico para a alma, mostrando que há como dar a volta por cima de uma realidade difícil e ainda se divertir", acredita Michelle