6.5.07

Do Globo on Line - blog Repórter de Crime

O blog do Jorge Antônio Barros, Repórter de Crime, abriu espaço para esta matéria minha. Segue o texto do Jorginho.



Enquanto haverá hoje manifestação na praia pela legalização da maconha, há outros que se mobilizam na luta contra a violência urbana no Rio. A reportagem especial deste domingo é da jornalista Olga de Moura e Mello, que fez a meu pedido a matéria abaixo porque alguém tem que continuar trabalhando. E, para alegria dos que estão descascando o Mino Penna Firme, eu mesmo fiz questão de postar, de um cybercafé no Aeroporto Internacional, enquanto esperava o vôo para minha ilha no Pacífico.


Olga é jornalista, carioca por nascimento, convicção e insistência. Longe da cobertura diária das redações de jornal, mantém a militância pela cidade e é autora do blog Arenas Cariocas ( www.arenascariocas.blogspot.com).

Aqui vai a íntegra:



"A manicure carioca Nelly Bezerra do Nascimento não gosta de multidões. Sente-se angustiada ao perceber qualquer ajuntamento de pessoas. Nelly tem sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, desencadeados a partir da noite de sábado de oito de fevereiro de 1992, quando conversava com amigos em um bar na Rocinha, onde vive desde que nasceu, há 35 anos. Sem qualquer motivo aparente, homens passaram correndo trocando tiros. Um deles atingiu Nelly na perna esquerda, onde permanece até hoje. “Os médicos preferiram não operar, já que a bala não atingiu o osso nem afetou a musculatura. Doeu muito na hora, incomodou por algum tempo. Depois, ficou só essa sensação ruim”, conta Nelly, uma das vítimas diretas da violência do Rio de Janeiro, cidade onde quase todos os moradores sofreram ou conhecem alguém que passou por alguma experiência traumática.

A literatura sobre desordem e estresse pós-traumático é extensa nos Estados Unidos, que tem diversos estudos com veteranos de guerra mulheres vítimas de estupro ou violência doméstica, na segunda metade do século XX. No Brasil, uma das mais recentes pesquisas sobre o assunto está no livro “As Vítimas Ocultas da Violência na Cidade do Rio de Janeiro” (Civilização Brasileira), de Gláucio Soares, Dayse Miranda e Doriam Borges, que entrevistaram 690 pessoas geralmente esquecidas nas estatísticas de violência. Segundo os autores, as mortes violentas – assassinatos, suicídios ou acidentes de automóvel - de 103 mil moradores da cidade no período compreendido entre 1979 e 2001 deixaram profundas marcas psicológicas, econômicas e sociais em até 600 mil cariocas.


As vítimas ocultas


“Não há qualquer tipo de assistência para os que perderam cônjuges, filhos, pais, amigos. Essas pessoas vivem um longo período de desânimo, apáticos, com a sensação de que não têm futuro, deprimidas e sofrendo distúrbios de sono. Não existe apoio do Estado, que, ao contrário, não trata com respeito quem faz o reconhecimento de um corpo ou passa por um exame de corpo de delito. Muitas vezes, ao chegarem a um necrotério, essas pessoas ainda têm que lidar com extorsão para conseguir a liberação do corpo. Como essa situação só vem se agravando, o setor público deveria criar mecanismos de ajuda às vítimas ocultas da violência”, sugere Gláucio Soares, coordenador da pesquisa.




Os pais de João Hélio, Edna e os pais de Gabriela: união contra a violência no Rio, apesar de eventuais divergências porque ninguém é perfeito e nem deve querer unanimidade absoluta


Para enfrentar a perda da filha Gabriela Prado Ribeiro, que morreu aos 14 anos, atingida por uma bala perdida em tiroteio dentro de uma estação do metrô carioca, em 2003, os pais da menina criaram o movimento Gabriela Sou da Paz (www.gabrielasoudapaz.org). “Conseguimos que Gabriela não fosse apenas mais um nome na estatística. Vivemos em estado de guerra, a violência mata 105 inocentes por dia no Brasil”, diz Cleyde, mãe da adolescente, que tenta comparecer a todas as manifestações em memória de pessoas assassinadas. “Tenho obrigação de apoiar os amigos da dor, sei o que é ter um plano de vida interrompido. Não era isso que eu queria da vida, mas em algum momento, a morte de Gabriela fará diferença nesse processo”, acredita Cleyde.


Morte de João arrasta manifestantes


Em fevereiro, a morte de João Hélio Vieites, de 5 anos, arrastado por sete quilômetros, preso ao cinto de segurança do carro, fez eclodir uma onda de protestos públicos contra a violência. O primeiro, depois da missa de sétimo dia por João Hélio, foi a caminhada de 600 pessoas pelo Centro do Rio, pedindo a redução da maioridade penal. Entre os atos que se seguiram, manifestações com maior apelo visual vêm sendo montadas por dois grupos. Um é organizado pelo músico Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, engajado na causa de combate à violência desde a morte do guitarrista do grupo, Rodrigo Netto, durante um assalto. O outro grupo é o Rio de Paz, capitaneado pelo pastor presbiteriano Antônio Carlos da Costa.


O Palácio Tiradentes, onde funciona a Assembléia Legislativa fluminense, já teve suas escadarias manchadas de vermelho no ato que recebeu o nome de “Contagem de Corpos”, promovido por Tico Santa Cruz, que também coordenou outra manifestação na qual os participantes se cobriram de branco, representando os fantasmas da política e servidores públicos corruptos. O movimento Rio da Paz (www.riodepaz.org.br) já fincou 700 cruzes nas areias da Praia de Copacabana para simbolizar o número de mortos em todo o estado do Rio de Janeiro do início do ano até março. Semanas depois, mil pessoas se deitaram na Avenida Atlântica, sinalizando que a violência já havia feito mil vítimas no estado. Em 19 de abril, a entidade voltou a marcar presença em Copacabana instalando 1.300 rosas nas areias, para demonstrar que a violência fluminense já fizera 1.300 vítimas.


A contagem do Rio de Paz se baseia nos cálculos do site Rio Body Count (www.riobodycount.com.br), que desde 1º de fevereiro traz o número de mortos e feridos a bala no Estado, baseado em notícias de jornais. Enquanto as autoridades informam que os índices de violência estão aumentando, o escritor Marcos Rolim, autor de “A síndrome da Rainha Vermelha – Policiamento e Segurança Pública no Século XXI” (Zahar), afirma que os registros estão abaixo do número real de crimes. “Na Inglaterra, onde a população respeita a polícia, calcula-se que sejam praticados até seis vezes mais crimes do que constam nos boletins de ocorrência. Aqui, acredita-se que o número de crimes seja dez vezes maior do que o divulgado”.

Descrédito em instituições provoca desânimo

Para Rolim, o descrédito nas instituições poderia explicar a falta de entusiasmo que as manifestações despertam em boa parte dos cariocas. Uma enquete espontânea do Globo on Line mostrou que 69% de 3.354 internautas não vêem eficácia nesse tipo de protesto. O artista plástico Jonas Prochownik, morador de Copacabana, a princípio ficou chocado com as cruzes fincadas na areia da praia: “Plasticamente, funcionou muito bem, mas senti que faltava ali uma proposta concreta”. O antropólogo Luis Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança do Rio de Janeiro, defende a legitimidade das manifestações que expressam “apenas a indignação, o luto, a dor”, mas concorda com Jonas: “Só haverá adesão em massa a um projeto objetivo de mudança da situação em curso. Não é que o povo esteja apático, inerte. Estamos, talvez, mais céticos depois de vinte anos de manifestações contra um conceito abstrato e muito vasto, que é a violência”.


O diretor executivo do Viva Rio (www.vivario.org.br), Rubem César Fernandes, que, ao lado do sociólogo Herbert de Souza, esteve à frente de grandes mobilizações populares pela segurança no Rio, admite que há momentos em que sente fraquejar seu entusiasmo na busca pela paz. Mas isso não dura muito: “Há noites em que eu desanimo, depois de abraçar mais um pai desesperado pela perda de um filho, mais um filho revoltado pela morte de sua mãe. No outro dia alguém me procura com uma nova proposta de discussão, um projeto diferente de conciliação. Aí, já volto a me entusiasmar, mesmo sabendo que a solução ainda está muito distante e que talvez eu nem veja um Brasil mais justo e mais pacífico”, acha Rubem César.

16.3.07

Valor Econômico - Fé e Religião

Confissões de crença e descrença

Personalidades culturais americanas falam do que vêem, ou não, quando olham para além de suas terrenas existências
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio

Cada vez mais diluída no mundo das idéias contemporâneo, a figura de um criador do universo ainda é percebida e reverenciada por muitos intelectuais, mesmo quando criticam as instituições religiosas e o fanatismo de adeptos de todas as confissões de fé. Buscando revelar a idéia de divindade construída por cada um, o documentarista e jornalista Antonio Monda reuniu 18 entrevistas com personalidades do meio cultural norte-americano no livro “Deus e Eu – Conversas sobre fé e religião” (Casa da Palavra). A relação de entrevistados é encabeçada pelo Prêmio Nobel da Paz de 1986, Elie Wiesel, e inclui ainda três ganhadores do Nobel de Literatura – Saul Bellow, Derek Walcott e Toni Morrison -, os cineastas Spike Lee, David Lynch e Martin Scorcese, a atriz Jane Fonda, o arquiteto Daniel Libeskind, os escritores Paul Auster, Salman Rudshie, Michael Cunningham, Richard Ford, Paula Fox, Nathan Englander, Grace Paley e Jonathan Franzen, e o historiador Arthur Schlesinger Jr, que apresentam visões totalmente diferenciadas sobre as formas de vivenciar a fé e o quanto a religião tem de importância na formação pessoal e profissional de cada um.

Esta semana Antonio Monda faz sua primeira visita ao Brasil para promover o livro, com palestras e debates agendados no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Professor de cinema na Universidade de Nova York, admirador do Cinema Novo e da “figura quase mítica” de Glauber Rocha, quer aproveitar a viagem para conhecer artistas e cineastas brasileiros contemporâneos. Os variados matizes espirituais dos brasileiros, no entanto, são encarados com ceticismo pelo escritor, que se define como católico apostólico romano e não esconde sua admiração pela tolerância da sociedade norte-americana com as diferenças religiosas. “Os católicos são apenas 24% da população dos Estados Unidos. Fazer parte de uma minoria me ensinou muito em termos de respeito e compreensão quanto às crenças dos outros”. A imagem do católico não-praticante, que exprime culturalmente o sentimento de religiosidade de boa parte dos brasileiros, não é assimilada por este italiano que considera o marxismo a representação trágica do fracasso do século XX. “O marxismo, sim, é o ópio do povo. Quem não segue os ensinamentos da Igreja não é católico. Existem dois grandes problemas nas religiões atualmente – o fundamentalismo e a Nova Era, que permite a apropriação apenas dos conceitos religiosos que sejam adequados, confortáveis para cada indivíduo”, afirma Monda, 44 anos, há 12 vivendo nos Estados Unidos.
Religião e contemporaneidade são temas diletos para Antonio Monda, que, em 2004, coordenou, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA), a mostra de filmes “The Hidden God”(O Deus Oculto), na qual buscava analisar a religiosidade oculta em filmes dos mais diferentes autores. O assunto começara a interessá-lo em fins de 2002, quando fez uma série de entrevistas sobre religião para o jornal italiano La Reppublica: “Passei três anos recolhendo material para o livro e, embora muitos intelectuais evitem abordar esse tema, eles foram muito honestos em seus depoimentos. Alguns hesitaram antes de aceitar o convite, porém, depois, foram extremamente generosas e diretas. Constranger-se em falar sobre suas convicções religiosas é bobagem, tanto que muitos artistas, como Cormac McCarthy discutem abertamente a religião. Outros falam indiretamente, através de seus trabalhos”, diz Monda, que acredita ter conseguido traçar um panorama da diversidade cultural americana.
Para conversar com judeus, ateus, agnósticos, católicos e até um praticante de meditação transcendental – David Lynch -, Antonio Monda despiu-se de seus conceitos religiosos. Ele conta que desconhecia as convicções de alguns dos entrevistados e afirma ter aprendido muito sobre espiritualidade com todos os que conversou. “Fiquei sinceramente comovido com a força de Eli Wiesel, com sua fé tão dolorida. Também me emocionou o depoimento do escritor Nathan Erglander, que não tem certeza sobre a existência da vida após a morte, mas que acredita que seu avô esteja no Paraíso”. A identificação parece maior com o também católico – e de origem italiana - Martin Scorcese. Ex-coroinha, o cineasta, que já levou à tela as vidas do Dalai Lama e de Jesus Cristo, conta que desde a infância se sentia motivado pela iconografia e pelo aspecto dramatúrgico da missa e dos ofícios religiosos. Na entrevista, Scorcese analisa sua relação com a religião e como ela está em seus filmes.

Antonio Monda teve que se submeter às exigências de alguns entrevistados. Saul Bellow, avisou que se reservava o direito de não responder ao que não quisesse e pediu que não houvesse insistência em relação a alguns temas. Bellow não quis revelar como era Deus em sua imaginação, o que o escritor Michael Cunningham associa a uma mulher negra, parecida com a babá que cuidava dele em criança, e o poeta Derek Walcott pensa como um homem branco, sábio e de barbas. Já a atriz Jane Fonda enxerga em Cristo o primeiro feminista da História, por igualar os direitos das mulheres de sua época aos dos homens. Militante de causas políticas e sociais nas décadas de 60 e 70, a atriz critica, no entanto, as instituições religiosas, também condenadas por Spike Lee e Paul Auster, que lembra quantas vezes o nome de Deus foi usado para conquistar ou matar. A eles se junta Salman Rudshie, um ateu que lamenta o sangue derramado em nome de Deus.

Enquanto se põe ao lado de boa parte de seus entrevistados, críticos ferrenhos do fundamentalismo e das chamadas guerras santas, Antonio Monda diz temer a onda de ultraconservadorismo protestante nos Estados Unidos: “Não gosto do crescimento dessa direita conservadora, porém não os coloco, de maneira alguma, na mesma categoria que o fundamentalismo muçulmano. A posição das mulheres, por exemplo, é outra no panorama norte-americano. Com todas as contradições, os Estados Unidos são um país livre, provavelmente o mais livre no mundo”, afirma Monda que se diz horrorizado com o que vem acontecendo no Iraque, por ser pessoalmente contra guerras.

26.2.07

Valor Econômico - Entrevista Marian Keyes

Seriedade sem perder o humor

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio

Marian Keyes, a autora do best-seller “Melancia”, volta-se para as questões sociais nas narrativas mais recentes e quer ajudar o leitor a refletir sobre a realidade à sua volta.


Valor – Por que suas histórias mais recentes mencionam problemas sociais das grandes cidades, como os sem-teto?

Marian Keyes – Uma história romântica pode ajudar o leitor a refletir sobre sua própria realidade. Desde que comecei a ter sucesso literário, voltei-me para questões sociais que me incomodavam, auxiliando programas de combate à violência contra mulheres e os sem-teto. Depois, me veio a idéia de usar esses problemas dentro de meus livros e chamar a atenção para essa realidade. A princípio, queria motivar os leitores irlandeses, já que a Irlanda vive um momento de prosperidade econômica jamais experimentada antes e ao qual corresponde a alienação político-social de sua população. Mas meus livros foram traduzidos em mais de 30 idiomas diferentes e podem atingir leitores na Tailândia, na Rússia, no Brasil, onde a disparidade social também existe e precisa ser objeto de políticas sérias.

Valor - Já não há mais lugar para príncipes encantados nesse tipo de romance?


Marian Keyes – Tenho o cuidado de jamais apresentar o homem como solução para a vida das mulheres, porque aos homens de hoje foi reservado outro papel, o de companheiros, não o de provedores. Eles são a versão atualizada do príncipe encantado.



Valor – É um novo momento da literatura romântica, então, com mais humor, consciência social e um toque feminista?

Marian Keyes – Sou da primeira geração pós-feminismo, embora apenas nos últimos anos tenha reconhecido que as mulheres estão no último degrau dos oprimidos. Apesar da liberdade sexual, em meu país, por exemplo, a tradição católica inibe os investimentos em educação contraceptiva, o que levou ao aumento de gravidez entre as adolescentes. No mundo inteiro, as mulheres têm que enfrentar muita pressão, incluindo o descontentamento com seus próprios corpos, já que meninas de 16 anos são utilizadas para vender roupas para mulheres de 30 ou 40 anos. Meus livros mostram um pouco desses elementos geradores de estresse, sempre com bom humor, mesmo quando falo sobre dependência de drogas. Sem humor, como a humanidade conseguiria seguir em frente?

Valor – A senhora se incomoda em ser classificada como uma escritora de “chick lit”, a chamada literatura mulherzinha?

Marian Keyes – Eu me orgulho de meus livros.

16.2.07

Valor Econômico - Comportamento

As doenças da beleza


Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio




"Estou de dieta desde que completei 19 anos: isso significa que, basicamente, passo fome há uma década (…) Ah, e fiz duas cirurgias dolorosas para chegar a esta aparência”.

A fala de Anna, a protagonista da comédia romântica “Notting Hill”, bem poderia ser de sua intérprete, a atriz Julia Roberts. Ou de qualquer outra estrela de Hollywood, onde é necessário aliar talento dramático a um padrão de forma física que por vezes parece melhor através das lentes cinematográficas do que no mundo real. Se os invejados corpos masculinos de hoje são semelhantes aos das estátuas gregas da Antiguidade, as formas femininas ideais vêm se reduzindo drasticamente nos últimos quarenta anos. A elegante Audrey Hepburn, que conjugava um rosto encantador com um corpo ossudo, bem no estilo das modelos do Terceiro Milênio, era encarada com ceticismo no planeta que privilegiava a exuberância de Marilyn Monroe. Audrey surgiu antes da modelo Twiggy que, na Londres da década de 60, apontava para um novo tipo de mulher, bem mais magra do que as jovens ocidentais até então. Em um mundo que consome muito mais gordura do que nos anos 60, todos os sacrifícios são válidos por um corpo magro. Até o jejum doentio que leva à morte.

Curvando-se à ditadura da beleza, boa parte das mulheres brasileiras submete-se voluntariamente a sacrifícios físicos – através do jejum, de pesadas cargas de exercícios ou de cirurgias plásticas, em nome de um ideal estético dificilmente atingível. A despeito dos cada vez mais freqüentes casos de morte por anorexia ou por falha médica, a busca pela beleza e a luta contra os efeitos do envelhecimento continuam. A uma das vítimas dessa batalha – Anita Mantuano - foi dedicado o livro “O intolerável peso da feiúra” (Editora PUC-Rio), da psicóloga Joana de Vilhena Novaes, que há dez anos estuda o tema e conclui: se a obesidade é o principal fator de exclusão social atualmente, a repulsa que os obesos causam está baseada no papel de trangressores que eles representam perante a ditadura da beleza.

Doutora em Psicologia, Joana coordena o Nucleo de Doenças da Beleza, ligado à clínica social da PUC-Rio, que oferece atendimento psicológico e nutricional a mulheres com distúrbios de alimentação e peso. Em “O intolerável peso da feiúra”, ela relata as entrevistas de algumas dessas mulheres, colhidas em academias de ginástica, em clínicas de estética e nos hospitais públicos que fazem cirurgia de redução de estômago. “A necessidade de afirmação através da magreza é comum a mulheres de todas as classes sociais e com qualquer nível de escolaridade. Anita Mantuano era bem-sucedida tanto no campo pessoal como no profissional. Morreu por complicações após uma cirurgia plástica, aos 46 anos”, diz Joana, cujas pesquisas iniciais tinham como base sua sua curiosidade a respeito das mulheres cariocas que freqüentavam academias de ginástica e a obsessão que têm em relação à beleza. “Muitas reclamam do desconforto que os exercícios causam, mas vêem na ginástica um sacrifício necessário para driblar os efeitos do tempo. Não hesitam em recorrer à cirurgias para permanecerem dentro desses padrões. Quem não se submete a isso, é considerado destituído de caráter até pelos médicos, que tratam da anorexia como doença, mas consideram a obesidade, em muitos casos, falta de força de vontade”.

Não é de hoje que pesquisadores se debruçam sobre o controle ao corpo feminino como forma de dominação social. O helenista britânico Simon Goldhill afirma em “Amor, Sexo e Tragédia – Como o Mundo antigo influencia nossas vidas” (Zahar) que a Grécia Antiga via uma mulher como “sensual, bela, saudável”, mas seu corpo estava subjugado à regulamentação dos homens, que, por mais que admirassem as curvas femininas, valorizavam a musculatura masculina, exposta em estátuas nuas. A Idade Contemporânea aparentemente modifica tais valores, já que desde a Segunda Guerra Mundial, conforme lembra Goldhill, cada vez mais o corpo feminino é mostrado “em um striptease contínuo perante um público voyeur”. As feministas americanas que se insurgiram contra a exposição de mulheres nuas na década de 60 preocuparam-se, trinta anos depois, em denunciar as mudanças que aquelas formas estavam sofrendo. Em “O Mito da Beleza” (Rocco), a americana Naomi Wolf responsabilizava a indústria da beleza, que movimenta milhões em cosméticos e cirurgias plásticas, por aprisionar as mulheres em parâmetros estéticos impossíveis de serem cumpridos. Ao mesmo tempo, advertia para o crescimento de casos de bulimia e anorexia entre as universitárias nos Estados Unidos, que, mesmo magras, diziam querer perder de três a 25 quilos.

A preocupação em apagar os traços que a natureza e a maternidade deixam no corpo levou o Brasil ao segundo posto entre os países campeões em cirurgias estéticas e a tornar-se um dos maiores consumidores de inibidores de apetite no mundo, lembra Joana Vilhena Novais: “Já se diz há muito tempo que a brasileira não envelhece; fica loura”, brinca a psicóloga que espera ver no País o surgimento de uma ação afirmativa direcionada aos gordos. “As doenças provocadas pela obesidade são graves, mas o alijamento social dos obesos é um sinal alarmante do repúdio à velhice. Essa paranóia em torno da beleza guarda semelhanças com o ideal estético nazista”, afirma Joana Vilhena Novais, que participou de debates durante a semana de moda carioca, o Fashion Rio, que, este ano discutiu os sacrifícios à saúde em prol da beleza.
A rejeição à obesidade não se limita ao corpo feminino. Em 1997, a indústria de cosméticos inglesa Body Shop lançou uma campanha baseada em Ruby, uma boneca que representaria a as mulheres reais. De quadris largos, coxas e braços grossos, Ruby aparecia em posters sobre a frase “Há três bilhões de mulheres no mundo que não parecem top models; apenas oito parecem”. A Mattel, fabricante da Barbie entrou com uma ação contra a Body Shop, pedindo a retirada dos posters das lojas norte-americanas, pois Ruby era um insulto à Barbie. Se uma boneca causou tanta repulsa, o que falar de mulheres de carne e osso que não se adequam aos padrões de beleza correntes? Não apenas são excluídas socialmente, mas preteridas profissionalmente. Segundo a economista Ruth Helena Dweck, da Universidade Federal Fluminense, refletindo uma tendência registrada nos Estados Unidos desde os anos 80, o mercado de trabalho repele quem está acima do peso. “É um novo fator para a discriminação, que antes se dava por sexo, cor de pele e idade. Boa aparência, atualmente, é ser magro”. Coordenadora de diversas pesquisas sobre a indústria da beleza, Ruth Dweck lembra que o único setor a ter um crescimento considerável durante a crise econômica de 1985 a 1995 foi o de serviços de embelezamento, incluindo aí cabeleireiros, manicures, clínicas de estética e academias de ginástica. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, das mais de 600 mil intervenções realizadas no ano de 2004, 59% foram estéticas e 41% reparadoras. A maior procura era por lipoaspiração, que chegava a 54% das cirurgias, seguidas por implantes de silicone.
70 milhões de brasileiros, quase 40% da população, estão acima do peso, mas apenas 1 milhão desses são obesos mórbidos. “A discriminação que eles sofrem é cruel. Deixam de ir à praia porque os amigos não gostam de ser vistos com alguém disforme, passam a viver isolados. O gordo agride a sociedade por não se sujeitar aos parâmetros que foram impostos como corretos. Para evitar esses choques, as pessoas cometem loucuras”, diz Joana Vilhena de Novais, lembrando que uma mulher que entrevistou, de 48 anos, disse, referindo-se à ingestão contínua de anfetaminas e medicamentos para queimar calorias: “Sei que vou morrer mais cedo, mas tudo bem. Até lá eu vivo magra”.

19.1.07

Valor Econômico - Literatura

A vez do relato confessional

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio

Eles se drogaram, se prostituíram, enfrentaram guerras, aprenderam a conviver com doenças crônicas, sofreram com a perseguição política, tiveram de construir seus caminhos pelo mundo contra tudo e todos. No fim, venceram perdas pessoais e materiais, e decidiram contar suas experiências em narrativas que acabaram pejorativamente rotuladas – pelos críticos literários britânicos e norte-americanos - como “misery books”. Desgraças à parte, este é um dos gêneros mais bem sucedidos no mercado editorial internacional desde a publicação do “Diário de Anne Frank”, em 1947.
Enquanto os críticos torcem o nariz para a maioria dos títulos, o público mostra-se ávido em conhecer os esqueletos que autores guardam em seus armários. A impessoalidade na forma como a imprensa trata a realidade é um dos fatores que levou ao aumento da demanda por este tipo de livro, acredita o editor de não-ficção da Nova Fronteira, Luciano Trigo: “O leitor sente falta de relatos que dêem conta da dimensão humana das coisas, sente falta de reflexão, de profundidade e de sentimentos”. Para Jorge Oaquim, editor da Intrínseca, a tendência do “misery book” ainda não chegou ao Brasil, mas abriu espaço apenas para a literatura confessional de qualidade. “A chamada mis-lit (de misery literature) é uma verdadeira febre na Inglaterra, com histórias sobre infâncias terríveis e a lição de quem deu a volta por cima”, diz Jorge, que publicou “Ei, professor”, de Frank McCourt, o americano de origem irlandesa que recebeu um Pulitzer em1997 por “As Cinzas de Angela”, em que relembrava a sofrida história de sua família durante os anos 30. Em “Ei, professor”, McCourt fala sobre sua experiência no ensino público em Nova York na década de 50.
O tom realista no livro-depoimento está tanto em Anne Frank – que, apesar de investigações diversas por suspeitas quanto à autenticidade do texto vendeu 25 milhões de exemplares no mundo inteiro – quanto em “Quarto de Despejo”, os diários de Carolina Maria de Jesus sobre seu cotidiano na favela do Canindé, em São Paulo, publicado na década de 60. Nos anos 70, as atribulações de jovem alemã, Christiane Felcherinow foram compiladas em “Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituída”, que freqüentou listas de best sellers e mostrou o cotidiano sombrio de um grupo de adolescentes de Berlim. Agruras juvenis conquistaram o Brasil na década de 80: em “Feliz Ano Velho”, Marcelo Rubens Paiva contava como um acidente levou-o a ficar paraplégico. Em “Com Licença que eu vou à luta”, Eliane Maciel tratava dos conflitos que tivera com os pais até sair de casa, ainda adolescente.
A publicação dessas memórias precoces levou à profissionalização de Marcelo Rubens Paiva e de Eliane Maciel como escritores. O mesmo caminho foi seguido por Valéria Piassa Polizzi, que lançou “Depois daquela Viagem” (Ática) em 1994, em que falava sobre como se tornara soropositiva na adolescência. O livro de estréia do americano William S. Burroughs também foi confessional. “Junky”, de 1953, traz um relato seco sobre sua convivência com diferentes tipos de drogas pesadas. Burroughs, que jamais escondeu seu fascínio pelas drogas, conclui “Junky” declarando que estava de partida para a Amazônia, onde iria conhecer o Yagé – o alucinógeno Ayuasca. A frieza na abordagem do universo dos drogados de Burroughs é semelhante ao depoimento de Fred Pinheiro a Ivan Sant’Anna em “Bicho Solto”(Objetiva). “A história é muito pesada, mas sei de pais que recomendam sua leitura a filhos adolescentes”, diz Ivan Sant’Anna. A produtora musical Bel Marcondes, que conta como se livrou da dependência química em “Estou Viva, Não uso mais Drogas” (Geração Editorial), tem feito palestras sobre o tema no País inteiro. “Esses livros vão de encontro ao desejo do público de conhecer quem superou seus problemas”, afirma Luis Fernando Emediato, diretor da Geração Editorial.
Escritores consagrados também fazem, vez por outra, incursões na literatura confessional. Em 1990, o respeitadíssimo William Styron publicou “Perto das Trevas” (Rocco), um ensaio sobre a depressão a partir de sua própria experiência com a doença. Pesquisa semelhante fez a jornalista carioca Marina W, autora de “Não sou uma só: Diário de uma bipolar”(Nova Fronteira), que pretende desmistificar a doença com o livro. “Quis vencer meu próprio preconceito ao assumir que sofro de transtorno bipolar. A doença é grave, mas ninguém precisa se envergonhar dela”, diz Marina.
As tradições culturais de países asiáticos ou africanos atualmente rendem relatos comoventes, como o da senegalesa Khady Koita, dirigente de uma instituição de prevenção às mutilações femininas praticadas em diversos locais da África. Em “Mutilada” (Rocco), Khady fala como sofreu a chamada circuncisão feminina aos 7 anos, reconhecendo que demorou cerca de vinte anos até revoltar-se contra a prática, rompendo com a costumes de submissão das mulheres em seu meio. Uma trajetória semelhante à da afegã Masuda Sultan, que em “Uma Guerra Particular” (Nova Fronteira) recorda como conseguiu libertar-se de um casamento arranjado por sua família muçulmana. A guerra real é um tema recorrente na literatura confessional. A luta de judeus que conseguiram manter-se fora dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial estão em “O Pianista” (Record), de Wladyslaw Szpilman, e “Inverno na Manhã” (Zahar), de Janina Bauman, que, como Szpillman, viveu no Gueto de Varsóvia. Do outro lado está o intrigante depoimento de Rochus Misch, em “Eu fui guarda-costas de Hitler” (Objetiva), que disse ter passado a guerra inteira sem dar um só tiro. Em 1993, a uma nova Anne Frank surgiu na Bósnia. O diário de Zlata Filipovi, de 13 anos, contando os ataques sérvios a Sarajevo entre 1991 e 1993 foram lançados pela Unicef em servo-croata. Os conflitos na Palestina obrigaram Mourid Barghouti a exilar-se em 1966. Suas impressões, trinta anos mais tarde, estão no poético “Eu vi Ramallah”, em que conta seu retorno à terra natal.
A maioria dos autores de livros confessionais afirma que não se incomodam em expor-se desde que chamem a atenção para problemas ou práticas condenáveis. Em “Memórias sexuais da Opus Dei” (Panda Books), Antônio Carlos Brolezzi fala sobre o tempo em que pertenceu à irmandade e como se submetia a autoflagelação para reduzir a libido. Exatamente o contrário de Raquel Pacheco, que ficou conhecida como Bruna Surfistinha, autora de “O Doce Veneno do Escorpião” (Panda), há 50 semanas nas listas de mais vendidos no Brasil. Raquel, que está com um novo livro no mercado - “O que aprendi com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil” –, acha que sua incursão na literatura ajudou a reduzir preconceitos contra as prostitutas. “Meu objetivo era mostrar que as garotas de programa merecem respeito”. Sem querer derrubar tabus, “A Vida Sexual de Catherine M”, em que a madura crítica de arte francesa contava suas peripécias sexuais vendeu mais de 500 mil exemplares no mundo inteiro.

5.1.07

Valor Econômico - Entrevista Ruy Castro

Um outro Rio ainda é possível

Em seu último livro, “Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero-Musical”, Ruy Castro dá endereços, dicas e informações para os interessados em continuar ouvindo o gênero que o escritor considera “genuinamente carioca”.

Valor - Ler "Rio Bossa Nova" é como mergulhar na cidade mais tranqüila de 40 anos atrás. Onde sobrevive o romantismo e o charme no Rio de Janeiro?

Ruy Castro - O mito da cidade "tranquila" de 40 anos atrás é mais difícil de matar do que o Rasputin. Mas é só um mito. Naqueles "anos dourados", o povo se queixava de que não era possível andar na rua, que os bandidos estavam tomando conta e a polícia não existia etc. Os jornais dos anos 30 já se referiam ao Rio como "a ex-cidade maravilhosa". Um dia, no futuro, vamos dizer que os anos 2000 é que foram os anos dourados. Porque, se você quiser romantismo e charme no Rio de hoje, lugar é que não falta -- vá ao Leblon, à Lapa, aos quiosques da Lagoa, ao samba no Largo da Prainha e a tantos outros lugares, em qualquer noite da semana. O Rio não tem culpa se basta alguém aqui roubar uma galinha para que isso saia na TV. Em outras cidades, o crime também pinta os canecos, mas ninguém dá muita bola. Há poucos anos, um Papai Noel vestido a caráter foi esfaqueado na véspera do Natal em Curitiba e morreu. Se tivesse acontecido no Rio, teria saído na CNN e já estariam fazendo um filme cretino a respeito.
Valor - Seu amor pelo Rio é mais do que declarado em seu trabalho. E como fica sua terra natal, Minas Gerais?

Ruy Castro - Sou tão mineiro quanto Milton Nascimento - nascido no Rio - é carioca. Em fevereiro de 1948, quando nasci, eu devia ter uns 50 parentes no Rio, entre tios, tias, primos e primas. Em Caratinga, MG, eu tinha exatamente dois: meus pais, que haviam acabado de se mudar do Rio para lá, eu na barriga da minha mãe. Deixei de nascer na Lapa por questão de meses. Caratinga, nos anos 50, era uma pequena comunidade urbana, com tudo de que eu precisava: dois ou três cinemas, uma livraria, um estádio de futebol, três jornais semanais, uma estação de rádio, várias bancas de revistas, três colégios e até um grupo de teatro amador. Era delicioso morar lá. Passávamos grande parte do tempo no Rio e, por isso, tive uma infância tão carioca quanto mineira.
Valor – Seu ritmo de trabalho é intenso e o senhor publica, em média, um livro ao ano, enquanto participa de antologias. Dá para viver de literatura no Brasil?

Ruy Castro - Claro, se você não parar de escrever nem por um minuto. Mas antes fosse um livro por ano. Só neste ano de 2006, foram dois livros inteiros, um deles, de artigos sobre cinema - "Um filme é para sempre", organizado pela Heloisa Seixas, minha mulher –, e não sei quantas participações em livros com outros escritores. Para 2007, há uns quatro livros novos em vista. Trabalho dia e noite e alguns livros levam anos. "Carmen", por exemplo, tomou cinco, dos quais os últimos três em tempo integral. Durante os dois primeiros, em 2001 e 2002, tirei algumas horas por dia para escrever outro livro pelo qual tenho adoração, "Carnaval no fogo -- Crônica de uma cidade excitante demais", sobre o Rio.


Valor – Seus recentes problemas de saúde vão levá-lo a reduzir seu ritmo de trabalho?

Ruy Castro - Já reduzi. Moro defronte à praia no Leblon e, até um ligeiro piripaco que tive recentemente, passava às vezes 15 dias sem atravessar a rua. Agora caminho todo dia no calçadão - é incrível como o calçadão está cheio de cardíacos saudáveis. E parei de comer torresmos no café da manhã.

20.11.06

Valor Econômico - Entrevista Autran Dourado

“Escrever é quase uma obrigação”

Por Olga de Mello, para o Valor

17/12/2006

Valor – Por que o senhor nunca se candidatou à Academia Brasileira de Letras?

Autran Dourado – Na minha idade, já sou vaga na Academia. Esta é a resposta que dou quando, vez por outra, me sondam para a Academia, que respeito muito como instituição. Tenho muitas atividades, hábitos definidos. Escrevo todos os dias, faço palestras em universidades, viajo aos fins de semana para Petrópolis (Região Serrana do Rio), almoço aos domingos com meus filhos e netos. Para relaxar, assisto filmes clássicos na televisão, principalmente Pasolini, Bergman, Fellini e westerns. E há um ano freqüento academia de ginástica, por ordem médica, faço musculação.

Valor – Como é seu contato com os leitores?

Autran Dourado – Ele se dá, principalmente, nessas palestras. Sou muito procurado por estudantes de Letras que estudam meus livros. Há pelo menos 40 teses sobre minha obra. Isso dá uma satisfação enorme, confesso. O reconhecimento, para o escritor, é o que mais vale na carreira. Admito que fico envaidecido ao ter meus livros traduzidos para outros idiomas e lançados em diversos países, entre eles França, Alemanha, Estados Unidos e Noruega. Assim como foi muito bom receber o Prêmio Camões - até porque eu não faço política literária.

Valor – Por que as histórias do “Senhor das Horas” voltam ao mesmo cenário de outros livros seus, a cidade de Duas Pontes?

Autran Dourado - Duas Pontes é a cidade imaginária mais parecida com Monte Sião, onde fui criado. Com um mês de vida, saí de Patos, onde nasci. Aos 11 anos, fui para Belo Horizonte estudar, aos 28, me mudei para o Rio de Janeiro, mas pouco conheço da cidade. Sou muito caseiro, nunca entrei em uma boate. O melhor lugar para ambientar meus assuntos e construir meus personagens é a cidade de minha infância.

Valor – O senhor não quis viver em um lugar mais tranqüilo que o Rio de Janeiro e mais parecido com Duas Pontes?

Autran Dourado – Em 1960, eu era secretário de Imprensa de Juscelino Kubistchek, que me convidou para acompanhá-lo a Brasília. Eu falei: ‘Presidente, o senhor me tirou de Belo Horizonte; agora quer me levar para um lugar aonde não tem livraria”. Não fui, naquela época Brasília não tinha nada. Existem confortos na cidade grande que são necessários, sobretudo para quem faz cultura.

Valor – O que lhe dá mais prazer, escrever ou ler?

Autran Dourado – Escrever é quase uma obrigação. Escrevo todos os dias, sempre de manhã. Tomo notas e deixo as idéias amadurecerem, porque me preocupa a estrutura vertical de cada livro. A unidade é mais fácil nos contos, em poucos dias resolvo aquela narrativa. Romances, não, demoro de um a dois anos até chegar ao fim. Depois que acabo um livro, até sinto que me realizei, mas, na verdade não gosto do ato de escrever. É trabalhoso. Tenho mais um romance planejado, mas precisei parar e acertar os contos deste livro. Gosto mesmo é de ler.

Valor – Quais são seus autores preferidos?

Autran Dourado - Machado de Assis, sempre que sinto que minha língua está desgastada, de tanto ler obras em outros idiomas. Gosto muito de Faulkner, James Joyce, Thomas Mann. Dos brasileiros, José J.Veiga, Rubens Fonseca. Quando pego um livro novo, leio logo o fim da história. Aí, acaba a surpresa e posso me concentrar na sua estrutura. Mas não recomendo que outros leitores façam o mesmo.

Valor – O senhor ainda vota?

Autran Dourado – Faço questão de votar. O Brasil ficou muito tempo sem votar, durante duas ditaduras, a de Getúlio Vargas, nos anos 30, e durante o regime militar. Foram períodos cinzentos na vida do país. Essa onda de denúncias sobre corrupção me inquieta, pois é uma situação propícia para golpes de estado. Foi assim em 1930 e em 1964. As ditaduras sempre nascem alegando que pretendem moralizar, quando são apenas disputas pelo poder. Eu não sei se Lula consegue conter a corrupção. Não dá para permanecermos alheios dos problemas sociais neste país, Todos os dias vejo aumentar um grupo de pessoas que dorme na rua onde moro. Isso é fruto da falta de uma política de reforma agrária. Há anos as populações de migrantes não conseguem emprego nas cidades grandes.