5.1.07

Valor Econômico - Entrevista Ruy Castro

Um outro Rio ainda é possível

Em seu último livro, “Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero-Musical”, Ruy Castro dá endereços, dicas e informações para os interessados em continuar ouvindo o gênero que o escritor considera “genuinamente carioca”.

Valor - Ler "Rio Bossa Nova" é como mergulhar na cidade mais tranqüila de 40 anos atrás. Onde sobrevive o romantismo e o charme no Rio de Janeiro?

Ruy Castro - O mito da cidade "tranquila" de 40 anos atrás é mais difícil de matar do que o Rasputin. Mas é só um mito. Naqueles "anos dourados", o povo se queixava de que não era possível andar na rua, que os bandidos estavam tomando conta e a polícia não existia etc. Os jornais dos anos 30 já se referiam ao Rio como "a ex-cidade maravilhosa". Um dia, no futuro, vamos dizer que os anos 2000 é que foram os anos dourados. Porque, se você quiser romantismo e charme no Rio de hoje, lugar é que não falta -- vá ao Leblon, à Lapa, aos quiosques da Lagoa, ao samba no Largo da Prainha e a tantos outros lugares, em qualquer noite da semana. O Rio não tem culpa se basta alguém aqui roubar uma galinha para que isso saia na TV. Em outras cidades, o crime também pinta os canecos, mas ninguém dá muita bola. Há poucos anos, um Papai Noel vestido a caráter foi esfaqueado na véspera do Natal em Curitiba e morreu. Se tivesse acontecido no Rio, teria saído na CNN e já estariam fazendo um filme cretino a respeito.
Valor - Seu amor pelo Rio é mais do que declarado em seu trabalho. E como fica sua terra natal, Minas Gerais?

Ruy Castro - Sou tão mineiro quanto Milton Nascimento - nascido no Rio - é carioca. Em fevereiro de 1948, quando nasci, eu devia ter uns 50 parentes no Rio, entre tios, tias, primos e primas. Em Caratinga, MG, eu tinha exatamente dois: meus pais, que haviam acabado de se mudar do Rio para lá, eu na barriga da minha mãe. Deixei de nascer na Lapa por questão de meses. Caratinga, nos anos 50, era uma pequena comunidade urbana, com tudo de que eu precisava: dois ou três cinemas, uma livraria, um estádio de futebol, três jornais semanais, uma estação de rádio, várias bancas de revistas, três colégios e até um grupo de teatro amador. Era delicioso morar lá. Passávamos grande parte do tempo no Rio e, por isso, tive uma infância tão carioca quanto mineira.
Valor – Seu ritmo de trabalho é intenso e o senhor publica, em média, um livro ao ano, enquanto participa de antologias. Dá para viver de literatura no Brasil?

Ruy Castro - Claro, se você não parar de escrever nem por um minuto. Mas antes fosse um livro por ano. Só neste ano de 2006, foram dois livros inteiros, um deles, de artigos sobre cinema - "Um filme é para sempre", organizado pela Heloisa Seixas, minha mulher –, e não sei quantas participações em livros com outros escritores. Para 2007, há uns quatro livros novos em vista. Trabalho dia e noite e alguns livros levam anos. "Carmen", por exemplo, tomou cinco, dos quais os últimos três em tempo integral. Durante os dois primeiros, em 2001 e 2002, tirei algumas horas por dia para escrever outro livro pelo qual tenho adoração, "Carnaval no fogo -- Crônica de uma cidade excitante demais", sobre o Rio.


Valor – Seus recentes problemas de saúde vão levá-lo a reduzir seu ritmo de trabalho?

Ruy Castro - Já reduzi. Moro defronte à praia no Leblon e, até um ligeiro piripaco que tive recentemente, passava às vezes 15 dias sem atravessar a rua. Agora caminho todo dia no calçadão - é incrível como o calçadão está cheio de cardíacos saudáveis. E parei de comer torresmos no café da manhã.

3 comentários:

Si disse...

Olá Olga,

Adorei os seus blogs. Vi sua reportagem com o Ruy Castro. Você poderia me ajudar, preciso do contato dele, seria possível você me passar?

Agradeço desde já pela atenção!

Atenciosamente,

Sissa A.

Si disse...

Meu e-mail: sissadeassis@yahoo.com.br

Henrique Fendrich disse...

Prezada Olga, também preciso de um contato com o Ruy Castro. Caso tenha, gostaria muito de saber algum email dele. Meu endereço: rikerich@gmail.com

obrigado!