24.3.13

Valor Econômico - Artes Plásticas


Exposição de videoarte brasileira abre galeria

Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio
Divulgação
'Povo na Praia' (2008), de Tadeu Jungle, que está na mostra 'Videoarte 2013'
A arte que rompe limites físicos, espalhando-se pelo universo virtual e interferindo no espaço público, retoma seu lugar, interna e externamente, sob ou sobre as paredes de um edifício. Essa pode ser uma das reflexões levantadas pela exposição "Videoarte 2013", que reúne trabalhos de 13 artistas brasileiros a partir deste sábado e inaugura nova galeria do Oi Futuro Ipanema, cuja fachada será recoberta por projeções de imagens.
"O papel da instituição hoje é o de pensar junto com a cidade, abrindo-se para o que está acontecendo no exterior, em vez de manter-se fechada em conhecimentos distantes do público", diz o curador de artes visuais do Oi Futuro, Alberto Saraiva, que selecionou os "pequenos poemas visuais" ao longo de um ano.
Os vídeos enfocam diferentes temas. Alguns incitam à reflexão serena, como a calcinha que tremula frente a um secador de mãos em "Panty", de Maria Lynch, ou uma caixa de sapatos que guarda recordações da infância e adolescência do homem que a abre em "O Relicário", de Alessandro Sartore. Outros lembram o atordoamento provocado pelo caos urbano, como o exuberante jogo de cores que cobre os ônibus na orla carioca, apresentado por Marcos Chaves em "Cópia/Colares". Há ainda filmes protagonizados pelos artistas, consagrando uma tendência prevista por um dos pioneiros da videoarte, o coreano Nam June Paik (1932 - 2006), que, na década de 1960, acreditava que no futuro cada pessoa seria "seu próprio filme".
"Paik foi quem chamou a atenção da crítica para a videoarte pela consistência de suas propostas. Não existia uma rede que dominasse a vida de todos ainda, mas ele anteviu a tendência da autoexposição e do diálogo interativo que, atualmente, travamos pela internet", diz Saraiva. "O vídeo se tornou um dos principais eixos de comunicação contemporâneos. Até os anos 90, havia artistas trabalhando especificamente com vídeo. Hoje, o vídeo está de tal maneira integrado ao cotidiano da sociedade que os artistas o incorporaram, interessados na possibilidade da mensagem direta, instantânea, que ele oferece."
Divulgação / Divulgação
'Estudo para Facadas', de Lenora de Barros, artista que também exibe 'Mão Dupla' na área externa da galeria
Entre os que protagonizam os próprios vídeos está Jozias Benedicto, que narra duas histórias sobre mulheres. Na primeira delas, a protagonista percebe que não há uma só foto de sua infância na casa da família. A outra história fala da reação de uma jovem contra o abuso sexual sofrido desde criança. A leitura dos dois textos pelo autor, que olha diretamente para a câmera, com o mínimo de inflexões vocais, pretende chamar a atenção para a narrativa. "O espectador é quase um leitor, formando imagens em sua mente, sem minha interferência enquanto narrador, experimentando um certo recolhimento, pois ouve as histórias com fones de ouvido. A imagem do narrador é mais envolvente do que as palavras apresentadas em papel", diz Benedicto.
A intermediação de instituições culturais como espaço de encontro entre artistas e público - principalmente após o advento da internet - é um dos questionamentos do setor. Quebrando a barreira do espaço fechado, a mostra apresentará na fachada do Oi Futuro de Ipanema obras planejadas para grandes áreas externas, entre elas "Fôlego", de Ricardo Carioba, e "Mão Dupla", de Lenora de Barros. Enquanto o trabalho de Carioba tem cores fortes sobre letras, o de Lenora apresenta mãos que deslizam sobre a superfície da projeção.
"A arte não pode ficar circunscrita aos espaços de exposição tradicionais e precisa sentir como a cidade funciona para ajudar a transformá-la", afirma Saraiva. "A arte pública é um trabalho pensado na dimensão da cidade, que passa, então, a pensar as necessidades de apropriação dos espaços onde a obra está exposta, fomentando até intervenções para melhorar, se preciso, esses lugares. Isso também é proposto nesta coletânea, que junta trabalhos que refletem o pensamento artístico desde os anos 1960 até hoje, na organização das ideias que desconstruíram conceitos fechados sobre estética."
A videoarte também chega ao Oi Futuro Flamengo, na segunda-feira, dentro da exposição "Re-Subtrações", com três séries de trabalhos de Paulo Climachauska, que utiliza sistemas numéricos para discutir a ordenação e regulação do mundo.
Para Alberto Saraiva, curador da mostra, Climachauska se opõe ao "processo do acúmulo, uma norma do capitalismo". Nessa lógica, o artista questiona a competição usando jogos como o pega-varetas, e discute máximas, como "tempo é dinheiro", com um relógio que não marca as horas. Além de vídeos inéditos, há escultura em granito negro, representando relógio de sol invertido, 14 painéis em preto e branco que formam imagens da sombra de um ponteiro de relógio de sol, uma instalação com 28 varetas gigantes em alumínio e seis aquarelas.

"Videoarte 2013"

Oi Futuro Ipanema (r. Visconde de Pirajá, 54, Ipanema, RJ). Tel. (21) 3131-9333. Abertura: 12/1. De ter. a dom., 13h às 21h. Entrada franca.

"Re-Subtrações - Paulo Climachauska"

Oi Futuro Flamengo (r. Dois de Dezembro, 63, Flamengo, RJ). Tel. (21) 3131-3060. Abertura: 14/1, às 19h. De ter. a dom., das 11h às 20h. Entrada franca.


© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/2964018/exposicao-de-videoarte-brasileira-abre-galeria#ixzz2OSumdrUB

Valor Econômico - Livros



Parece brincadeira, mas é a realidade com outras cores


Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio

Uma dose de irreverência temperada com personagens fictícios ou reais, políticos e ainda artistas pode ajudar a traduzir a dureza dos temas econômicos para leitores que se interessam pelo assunto, mesmo sem dominar o jargão técnico do setor. Foi pensando nesse público leigo que o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, compilou observações sobre episódios diferentes e as reações - quase sempre semelhantes - de quem decide e movimenta os caminhos da economia brasileira. As anotações, coletadas ao longo de quatro décadas, estão em "As Leis Secretas da Economia - Revisitando Roberto Campos e as Leis do Kafka".
A inspiração para o livro veio de um artigo dos economistas Roberto Campos e Alexandre Kafka, publicado, em 1961, na revista "Senhor". Os autores afirmavam, então, que a economia brasileira não obedecia a nenhuma das leis conhecidas, cabendo, portanto, investigar as normas secretas que a regiam. Algumas das dez leis estabelecidas por Campos e Kafka, que retomaram o tema em outras publicações, não integram o livro de Franco, já que alguns dos tópicos perderam a atualidade.
"Muito do que eles abordaram ficou datado. Na época da hiperinflação, ninguém se indignava com aumentos de 5%. Hoje, esses percentuais são preocupantes. Há situações que simplesmente deixaram de existir. Ainda se discute privatização no país, a inflação permanece incômoda, porém o enfoque é outro", observa Franco.
Se a vida mudou nos últimos 50 anos, há situações que se mantêm praticamente imutáveis, como a descrita pela Lei do Kafka nº 10 - Da Conservação do Ente Burocrático. A ementa define: "O ente burocrático é indestrutível, ou o instrumento é mais importante do que os objetivos, ou o fim serve aos meios. Parágrafo único: Toda vez que dois órgãos públicos precisarem examinar o mesmo processo em separado, nenhuma decisão será tomada. E quando se tornar imperativa uma decisão consensual e negociada, ela terá o condão de manter tudo exatamente como sempre foi".
Outra lei de Kafka que permanece atual é a nº 9, que trata da transferência da culpa, e diz que "é menos importante encontrar soluções do que ter bodes expiatórios".
Há ainda observações do próprio Franco que desafiam a passagem do tempo, como a Segunda Lei das Fusões Bancárias, pela qual em toda fusão de banco apoiada pelo Banco Central ao menos um dos "nubentes" está quebrado.
O tom informal e profundamente ácido do texto segue o estilo empregado por Campos e Kafka. "É irônico, porém, não fiz brincadeiras superficiais. Todas as leis existem e têm respaldo em teses econômicas comprovadas, como aponto na bibliografia", diz Franco.
As dez leis originais se estenderam a 74, que, agrupadas em capítulos que tratam de finanças públicas, mercado, bancos, globalização e câmbio, entre outros temas, apresentam o panorama da vida econômica brasileira nas últimas décadas. Não houve uma ordem de valores nem de cronologia, apenas a intenção de criar um panorama que ajuda a compreensão da economia por leitores que estão distantes da angústia que o tema já provocou, quando a busca por informações era no afã de encontrar "respostas para sobreviver", diz Franco. Esse novo leitor, que tem, segundo o economista, uma visão mais positiva da economia, combina com uma tendência na literatura econômica acentuada a partir de 2008.
"A crise mundial levou a uma profusão de documentários e livros explicando a história financeira em termos abrangentes, de fácil compreensão para a maioria do público. Incluí ilustrações no texto que, além de trazer leveza ao volume, também têm a intenção de cativar o público não habitual de economia, sem abrir mão, no entanto, do pensamento econômico sólido", explica Franco.
A crítica à linguagem dura e, por vezes, vazia dos economistas e acadêmicos, está em diversos trechos do livro, como o pequeno glossário do "Teorema do Esquimó", que determina que "o número de palavras incompreensíveis, em economês, de índices de inflação e de pessoas envolvidas com o assunto, é proporcional ao quadrado do índice da inflação".
Referências à cultura pop mais recente, utilizando personagens de séries televisivas, como o médico Gregory House, ou de cinema - "Forrest Gump" e "Kagemusha" - para dar nome a leis, teoremas ou axiomas, juntam-se a citações tiradas de obras dos escritores favoritos do autor, entre eles William Shakespeare, Ernest Hemingway, Carlos Drummond de Andrade e Mario Vargas Llosa, exemplificando ou esclarecendo as estranhas normas que regem o Brasil, não apenas no campo econômico. As reformas sociais empreendidas por Mikhail Gorbachev e o romance "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway, são unidos no Teorema de Hemingway-Gorbachev, que prevê o desgaste progressivo e irreversível dos governantes reformadores, que acumularão inimigos até entre os beneficiários de suas iniciativas, "incapazes de perceber que a melhoria de seu padrão de vida se deve aos reformistas".

"As Leis Secretas da Economia - Revisitando Roberto Campos e as Leis do Kafka"

Gustavo H. B. Franco. Editora: Zahar. 216 págs., R$ 39,90

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso emhttp://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico. 

Valor Econômico - Literatura


A vida é um livro aberto





Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio
Dois romances e um ensaio já iniciados aguardam o retorno de Alberto Manguel à sua casa, em Poitiers, na França. Nas últimas semanas, o escritor e ensaísta compareceu a eventos literários no Chile, na Inglaterra e na Itália até chegar ao Brasil, onde veio abrir a 7ª Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes, no norte do Estado do Rio. "Os escritores se transformaram em caixeiros-viajantes que ganham a vida em leituras e palestras. Isso acaba prejudicando o trabalho de quem precisa escrever", lamentou Manguel, em entrevista ao Valor, no Rio, onde, na noite anterior, esbanjava simpatia no encontro com cerca de cem leitores na pequena Biblioteca Popular de Botafogo.

As viagens abalam a rotina deste argentino naturalizado canadense, que gosta de ler Dante Alighieri diariamente e escrever durante as manhãs. Por falta de tempo, recusa boa parte dos convites que recebe. A princípio, rejeita qualquer atividade de promoção de livros nos Estados Unidos.
"As 'book tours' começaram no século XIX. Era um acontecimento na vida de escritores como Charles Dickens. Mas eles participavam de uma, no máximo duas, dessas viagens. No século XX, elas tomaram um vulto empresarial nos Estados Unidos, onde, atualmente, os agentes literários e as editoras montam sessões contínuas com diferentes escritores se apresentando ao público em grandes livrarias. Não faço mais isso. Hoje, quem quiser ver e ouvir um escritor entra no YouTube", diz.
Em sua 30ª vinda ao Brasil - sempre a trabalho -, atendeu ao chamado para falar sobre a leitura como patrimônio pessoal na era das virtualidades. "Essa profusão de festas literárias em diversos lugares é excelente para os leitores e uma oportunidade para os escritores trocarem ideias, pois, cumprindo agendas lotadas, mal podem se ver", observa Manguel, que aproveitou o festival L'Altra Metà del Libro, que organizou há duas semanas, em Gênova, para se reencontrar com amigos, como os romancistas Ian McEwan e Daniel Pennac. Nos próximos dias, já tem outro compromisso em Paris. E no ano que vem coordenará outro festival, na cidade francesa de Nantes.
O calendário apertado não o convenceu a adotar comodidades como celular e e-mail, embora escreva em computador. Quando viaja, dita os artigos a um digitador, que os envia para quem o contrata. Reconhece a utilidade da tecnologia, mas prefere permanecer distante de algumas facilidades, evitando a leitura em ambientes virtuais.
"Meu filho assiste a filmes numa tela do tamanho de um selo. Eu não consigo. O e-reader é prático para o leitor que vive em trânsito, que não precisa carregar peso na bagagem, mas eu gosto do contato com o livro sólido, físico. A experiência de ler no papel é totalmente diferente da leitura na internet, que acaba dispersando o leitor", diz Manguel, que cultiva hábitos quase anacrônicos, como o de trocar cartas com amigos escritores. Na biblioteca que construiu em Poitiers tem cerca de 40 mil volumes, "todos abertos, nem todos lidos", organizados por temas nem sempre tão eruditos como se imagina de um dos mais reconhecidos especialistas em história da leitura e bibliofilia. Ao lado de livros sobre as lendas de Don Juan e do Judeu Errante, há muito sobre gastronomia e novelas policiais. "Só leio por prazer, o que acontece nas minhas leituras diárias de Dante e também quando pego um livro de Agatha Christie, que escrevia bem. Entretenimento não precisa ser vazio."
É com paixão de militante que ele fala contra o mercado editorial que privilegia a publicação de conteúdos medíocres. Fora do Brasil, afirma, os melhores textos têm sido lançados por editoras universitárias, enquanto as demais preferem publicar gêneros de boa vendagem, seguindo a tendência do momento.
"Uma editora deveria ter o compromisso de formar leitores. Eu me preocupo em ver que elas se tornaram cúmplices da formação não de leitores, mas de consumidores para a sociedade. Quando elas se tornam empresas gigantescas que compram editoras pequenas, estão destruindo a literatura. Seis meses antes de ganhar o Nobel de Literatura, em 2007, Doris Lessing me contou que sua última novela estava prestes a ser recusada por seus editores nos Estados Unidos e na Inglaterra, porque ela escrevia textos muito longos para ser apreciados por um público mais jovem. Isso é um desrespeito com uma escritora de 88 anos, então, com uma contribuição inestimável à literatura britânica. Aí veio o anúncio da premiação e, naturalmente, a situação mudou", lembra-se.
A incorporação de pequenas editoras e livrarias pelos gigantes do mercado também contribui para a perda de qualidade da literatura. O tratamento impessoal dispensado ao leitor nas grandes livrarias mostra o interesse em fomentar só o consumo, diz Manguel, que não se deixa levar pelo discurso de que os livros comerciais sustentam a publicação dos que têm mais qualidade. Falta espírito crítico aos leitores, afirma o escritor, que se surpreendeu com o sucesso de livros eróticos entre mulheres jovens, quando as tramas enfatizam o arquétipo das protagonistas submissas.
"Se as mulheres são 70% dos leitores, deveriam repudiar histórias que vão contra tudo o que se fez para estabelecer a posição feminina na sociedade patriarcal do Ocidente. A maior violência nesses romances não é sexual, mas o fato de impedirem as heroínas de questionar as ordens que recebem dos homens. Isso reforça o mito da inferioridade feminina em pleno século XXI, como se as mulheres não tivessem autonomia para tomar decisões plenamente. Homens e mulheres devem, juntos, como leitores, membros da sociedade, refletir sobre essa literatura que nega ao personagem o direito ao questionamento", diz.
Apesar das políticas públicas de incentivo à leitura, a sociedade desestimula os leitores, acredita Manguel: "A criança que gosta de ler é rotulada como 'nerd' pelos colegas na escola. Isso porque a leitura exercita o cérebro e vivemos uma época em que se recomenda ao jovem que evite as dificuldades, entre elas ler o que vai desafiar seu intelecto. Cada vez mais se compram livros superficiais, de textos curtos. Os leitores têm um poder que eles próprios desconhecem. Deixar de lado livros sem conteúdo forçará o mercado a procurar mais qualidade nas publicações".

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:

9.11.12

Valor Econômico - Política

Aqueles dias todos escuros

Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio
Reprodução / ReproduçãoDilma Rousseff mencionou Freitas (foto) em seu primeiro discurso de campanha
A lembrança mais antiga da jornalista Cristina Chacel relacionada aos tempos de regime militar é a de ver seus pais queimando livros, "provavelmente de conteúdo classificado como subversivo pela repressão, logo após a decretação do Ato Institucional nº 5, em 1968". Pouco depois, a família foi viver na casa de seu primo, o crítico de arte Mário Pedrosa, então exilado no Chile. Se alguém perguntasse por Pedrosa, Cristina seguia à risca a recomendação de informar que ele estava viajando e que não sabia quando retornaria.
"Ninguém explicava por que tínhamos de agir assim. Viver aos cochichos era comum durante a ditadura", afirma Cristina, autora de "Seu Amigo Esteve Aqui" (Zahar, R$ 42), a biografia de Carlos Alberto Soares de Freitas. Conhecido como Beto, Freitas, dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), um dos grupos que lutaram contra o governo militar, desapareceu em 1971.
Entre outros militantes ligados a Freitas estava a então estudante Dilma Roussef, que mencionou Freitas em seu primeiro discurso como candidata do PT à Presidência da República. Em 2009, ainda como chefe da Casa Civil, Dilma recebeu Cristina, para falar sobre o amigo, figura influente na sua formação política.
"Ela ficou muito emocionada ao conversar comigo, demonstrando que eram realmente muito próximos. Os amigos, parentes e ex-companheiros deram depoimentos comoventes sobre Beto. São pessoas muito marcadas pelo período de militância, quando, por norma de segurança, pouco sabiam sobre a vida dos outros. Isso ficou para a vida toda deles, tanto a discrição em torno dos assuntos pessoais quanto a confiança nesse grupo que não se dissipa, que está unido para sempre", diz Cristina.
Convidada por amigos e companheiros de militância de Freitas para escrever o texto, em 2009, Cristina sabia que não podia contar com registros oficiais sobre sua prisão ou morte, ocorrida, possivelmente, em maio de 1971, na chamada Casa da Morte - local de prisão de presos políticos -, na cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. O título do livro vem do comentário de um sargento do Exército para Inês Etienne Mourão, também presa na casa.
"Essa foi uma das poucas notícias sobre o destino de Beto, dada pelo sargento que, hoje, não fala sobre o assunto. É muito estranho para um jornalista não ouvir os dois lados de uma história, mas não sei quanto vale a palavra de um torturador. O governo militar nunca admitiu a prisão de Freitas, embora a União tenha concedido uma indenização a seus pais, em 2005, considerando que era um desaparecimento político", diz Cristina.
O projeto de pesquisa foi financiado com parte da indenização recebida por Sergio Campos, o último dos companheiros de militância a ver Freitas vivo. O livro conta a vida de Freitas desde a infância em Minas Gerais, passando pelo envolvimento com política, a imersão na clandestinidade, até o dia em que se despediu de Sergio Campos, ao saltar de um ônibus em Copacabana, no Rio. Também acompanharam a coleta de material e as entrevistas um primo de Freitas, Sergio Ferreira, e a jornalista Flavia Cavalcanti, outra ex-militante da VAR-Palmares. "Só eu assino o livro, mas este é um projeto de todos que se empenharam em relatar lembranças sobre o Beto, a fim de tirar do anonimato alguém duplamente desaparecido - da vida e da história. Este é um momento importante no resgate da história dos derrotados, em que a Comissão Nacional da Verdade busca levantar o sentido de um período em que os militares brasileiros não reconheceram os crimes hediondos que praticaram", diz Cristina.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/2897522/aqueles-dias-todos-escuros#ixzz2BmFBhg4c

Valor Econômico - Comportamento

Internet não impõe padronização

Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio - agosto 2012
Divulgação / DivulgaçãoMartel: Em qualquer lugar do mundo, a música local ainda representa mais da metade de todo o material consumido. Na televisão não é diferente
Os Estados Unidos continuarão dominando a cena cultural mundial, mas, aos poucos, países emergentes economicamente também terão influência e distribuirão largamente seus produtos, enquanto os que se opõem à americanização da cultura ficarão para trás. A conclusão é do jornalista francês Frédéric Martel, autor de "Mainstream - A Guerra Global das Mídias e das Culturas", resultado de pesquisa que fez para retratar a indústria do entretenimento nos primeiros tempos da Web 2.0. "Queria falar das mudanças iniciais dessa revolução, que pode ser um ponto de virada de toda a civilização", disse Martel em entrevista por telefone ao Valor, durante suas férias no sul da França.
Entre 2005 e 2010, Martel entrevistou 1.250 pessoas em 30 países, todas com diferentes funções na produção de filmes, música, televisão, rádio e livro. Da pesquisa veio "Mainstream", um trabalho sem pretensão acadêmica, "mas um relato jornalístico bem embasado", afirma Martel. Durante quatro dos cinco anos em que se dedicou à pesquisa, ele morou nos Estados Unidos. Foi do contato com os principais criadores de 50% do conteúdo de entretenimento que circulam no planeta que ele partiu para esmiuçar a logística de distribuição de produtos - que obedecem a um rígido planejamento comercial, deixando de lado eventuais pretensões artísticas.
Na introdução do livro, Martel comenta que "mainstream", cuja tradução literal - dominante - tomou o sentido de produto cultural voltado para o grande público, "é o inverso da contracultura, da subcultura, dos nichos; para muitos, é o contrário da arte". Por sua importância econômica e qualidade, os produtos de entretenimento acabaram reconhecidos pela crítica especializada nos Estados Unidos, que abandonaram a defesa da chamada alta cultura, observada até hoje nos países europeus. Para Martel, o arranjo dos americanos na criação e distribuição de seus produtos de entretenimento no mundo inteiro não leva, necessariamente, à padronização da cultura, como entendem alguns.
"Em qualquer lugar do mundo, a música local ainda representa mais da metade de todo o material musical consumido", observa Martel. Na televisão não é diferente. "Apesar do sucesso das séries importadas dos Estados Unidos, as emissoras apresentam muito conteúdo local, como as novelas na América Latina. E mais de 50% da bilheteria obtida em cinemas da França, Japão e República Tcheca são para filmes nacionais. Na Índia, a proporção chega a mais de 80%. A indústria editorial não foge à tendência: ainda tem um foco bastante doméstico, assim como o noticiário ou o mercado publicitário." Enfim, "não é verdade que a cultura esteja se tornando cada vez mais global. A internet apenas permitiu nosso contato com a diversidade cultural".
Facilitadora do acesso a produções que em outras épocas permaneceriam desconhecidas no cenário internacional, a internet, no entanto, não rompeu barreiras políticas que privilegiam a diversidade cultural. Martel lamenta que muitos dos defensores da diversidade - em termos mundiais - não a adotem localmente.
"Nós, europeus, assim como os brasileiros, lutamos pela diversidade cultural que os americanos destroem sempre que tentam impedir o estabelecimento de cotas de exibição de filmes nacionais no México ou propagam a música anglo-saxã no Brasil ou na Argentina. No entanto, internamente, países como França, Canadá, China e Japão ignoram suas próprias minorias, desvalorizando dialetos e culturas locais", diz Martel. "No palco internacional, esses países fazem apelos pela diversidade, mas, em casa, obedecem a outras regras. Os Estados Unidos agem exatamente de maneira oposta. Lutam contra a diversidade em nível internacional, enquanto atribuem grande importância a suas diferenças étnicas. Existem 800 grupos teatrais afroamericanos nos Estados Unidos. Na França não levamos a sério nosso único grupo de teatro árabe."
A princípio, a velocidade da revolução tecnológica da informação deixou a indústria estarrecida. Em seguida, veio a reação, com uma discussão moral sobre a apropriação de direitos autorais, que, observa Martel, deve tornar-se obsoleta assim que indústria resolver a questão de remuneração dos criadores de conteúdo. No momento atual, a preocupação é criar interesse para os jovens consumidores, que transitam com intimidade pelas redes sociais, procuram informações no Google e descobrem novos músicos pelo You Tube. Um desafio que se apresenta também aos produtores culturais de países emergentes, que, segundo Martel, tendem a ganhar importância na área do entretenimento, desde que não se empolguem pelo ufanismo em torno das "características únicas".
Martel já esteve três vezes no Brasil. Aqui, conversou com jornalistas, atores, executivos da indústria fonográfica e da televisão e cineastas, entre outros. O mais famoso dos brasileiros entrevistados ele encontrou na França, o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, depois de um show em que o compositor se apresentou "cheio de energia e humor". Apesar do destaque dado à conversa com Gil, Martel não é dos que se derramam em elogios ao talento artístico brasileiro. "Mais do que talento, é preciso profissionalismo para conquistar o mundo."
"O Brasil tem admiráveis características únicas, mas não está sozinho. A globalização abriu diversos mercados regionais. México, Colômbia, Argentina, Turquia, Nigéria, Egito e até o Irã, este com conteúdos voltados para o público interno, também oferecem produtos interessantes", diz Martel. "A economia brasileira e sua influência cultural vão aumentar, incluindo aí seu principal produto de exportação, as telenovelas. A televisão brasileira já explora novos mercados na África, na Ásia e na América do Norte, onde, só nos Estados Unidos, moram milhões de latinos. No entanto, não vejo as novelas como um produto que sobreviva no futuro, pois os jovens gostam de outros conteúdos. Antes de insistir em novelas com os formatos atuais, é preciso convencer os jovens a assisti-los."

"Mainstream - A Guerra Global das Mídias e das Culturas"

Frédéric Martel. Tradução de Clóvis Marques. Editora Civilização Brasileira. 488 págs., R$ 49,90

10.3.12

Valor Econômico - Livros

Dos longos concertos à descoberta do mundo digital
Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio

Wikimedia / WikimediaTyler Cowen: facilidades da internet levarão a uma nova ordem cultural

Em tempos de recessão, as populações se voltam para prazeres menos dispendiosos, como na Grande Depressão, em 1930, quando os americanos cortaram os programas noturnos e se dedicaram a entretenimentos caseiros, em família - o que determinaria uma mudança no estilo de vida do país.
Wikimedia / WikimediaTyler Cowen: facilidades da internet levarão a uma nova ordem cultural

Em tempos de recessão, as populações se voltam para prazeres menos dispendiosos, como na Grande Depressão, em 1930, quando os americanos cortaram os programas noturnos e se dedicaram a entretenimentos caseiros, em família - o que determinaria uma mudança no estilo de vida do país. Para o economista Tyler Cowen, vive-se hoje um fenômeno semelhante, em que a diversão e os relacionamentos passaram a se estruturar sem depender de gastos além do que se paga pela conta da internet. Entusiasta das interações a partir das novas tecnologias, em "Crie Sua Própria Economia - O Guia da Prosperidade para um Mundo em Desordem" Cowen procura demonstrar que o acesso à informação e ao conhecimento levará a uma nova ordem cultural.

Quem não conhece o envolvente estilo de Cowen, economista renomado, que escreve para diferentes publicações, como "New York Times", "Wall Street Journal" e "Washington Post", vai descobrir que o autor faz sua exposição como se estivesse na sala de aula da Universidade de George Mason, onde leciona economia. É o professor que conduz a linha de raciocínio do leitor para uma imensa gama de temas relacionados aos novos tempos, dominados pela internet e tudo o que ela oferece.

Nessa aula por escrito, Cowen demonstra conhecimento profundo de assuntos diversos. Discorre sobre literatura, cultura pop, artes plásticas, política, filosofia, pontuando com algumas noções de economia e de neurociência - interligando-os com a mesma agilidade oferecida pelos sites na internet. Em quase todos os capítulos há referências e exemplos de autistas bem-sucedidos, pois Cowen vê semelhanças entre o raciocínio de pessoas com essa peculiaridade de comportamento e o pensamento do homem contemporâneo, que seria fragmentado, aparentemente superficial, mas que se caracteriza pela especialização em algum tópico. O próprio Cowen se identifica com alguns traços autistas - introversão, introspecção e fascínio pela coleta de informações -, que percebe também em alguns homens notáveis, entre eles Kant, Adam Smith, Mozart e Michelangelo, em personagens literários, como Sherlock Holmes, ou no protagonista do seriado de televisão "House".

Cowen é um entusiasta da internet em quase todos os seus aspectos, principalmente por democratizar o acesso ao conhecimento, o que estaria estressando usuários devido à sobrecarga de informações. Ele não concorda com tais críticas. A dita superficialidade dessas informações decorreria da facilidade do acesso, que encurtou "distâncias" e abriu um leque maior de opções de conhecimento. Uma das consequências seria o desinteresse por textos extensos. Segundo Cowen, no começo do século XIX, um concerto musical poderia durar até seis horas. O deslocamento da plateia até o local da apresentação era difícil e exigia que houvesse outras atrações além da música, envolvendo, geralmente, um grande acontecimento social. Hoje, a facilidade de alcançar o entretenimento - ou o conhecimento - obriga à redução de informações, porque as atenções se voltam para vários campos.

A capacidade de as pessoas se adequarem a múltiplas tarefas é outro ponto positivo que a internet estimulou, já que cada vez mais se consegue reunir e manipular informações, relacionando-as e filtrando o que mais interessa, diz Cowen, que, no livro, disseca, entusiasticamente, as novas formas de comunicação - e as emoções ligadas aos novos veículos, como Twitter, Facebook, You Tube e mensagens instantâneas. O hábito de enviar "torpedos", disseminado entre os namorados japoneses, antes e depois dos encontros, destaca Cowen, criou uma forma diferente de cortejar, com palavras carinhosas, que confortam os envolvidos, causando satisfação. O economista diz que o Facebook deixou o mundo "mais amigável - um sentimento melhor do que a indiferença e a negligência contínua", embora admita temer que a rede social torne a amizade "um pouco fácil demais", desvalorizando os relacionamentos afetivos, já que "a sensação de sacrifício às vezes nos leva a apreciar algo com mais intensidade".

Pequenas contradições que surgem volta e meia no texto não reduzem a força das palavras de Cowen, que minimiza a acusação de que a internet reduziu a capacidade de atenção dos usuários. O economista lembra que críticas semelhantes já foram dirigidas "à maioria dos novos meios culturais ao longo dos tempos", como o romance, no século XVIII, os quadrinhos, o rock'n roll e a televisão. A fragmentação da atenção seria a forma de montar blocos de interesse, que ajudam na compreensão de tendências e narrativas.

De economia, propriamente dita, Cowen pouco trata. Ele afirma que seu livro é um "regresso às fundações originais da economia", já que a obra da vida de Adam Smith foi mesclar raciocínio econômico com a filosofia moral estóica e psicologia aplicada. A construção da felicidade, objetivo primordial do homem, que precisa se convencer de que tem uma vida agradável para sobreviver, consegue apoio até na superexposição da privacidade na internet.

Cowen elogia a ordenação de fotografias, o compartilhamento de momentos íntimos e das experiências pessoais, que ajudam a criar a ilusão da felicidade plena. Respaldado por Adam Smith, para quem poucos homens seriam capazes de se satisfazer com a própria consciência íntima, Cowen elogia a internet não apenas por seu aspecto congregador de pessoas que jamais se conheceriam pessoalmente e têm interesses comuns, mas por permitir que elas se sintam únicas pelo reconhecimento público: "O e-bay faz com que itens de colecionador se transformem em uma maior fonte de orgulho".

A vida virtual, no entanto, não é suficiente para satisfazer a maioria das pessoas, lembra o economista. Mesmo que o cinema e a televisão tenham substituído o teatro como meio de entretenimento, ainda existe necessidade de apresentações ao vivo, personalizadas. O aprendizado é mais eficiente em salas de aula, com professores motivando os alunos e a presença física dos colegas tornando a experiência vívida, diz Cowen. "Existe um novo plano para a organização de pensamentos e sentimentos humanos. O uso adequado do entretenimento e da educação se transformou no mais fundamental empreendimento social", afirma o economista.
"Crie sua Própria Economia - O Guia da Prosperidade para Um Mundo em Desordem"

Tyler Cowen. Record. 252 páginas, R$ 37,90

http://www2.valoronline.com.br/cultura/2543272/dos-longos-concertos-descoberta-do-mundo-digital

Valor Econômico - Livros

A colossal e faustiana dimensão da economia
Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio

"Dinheiro e Magia - Uma Crítica da Economia Moderna à Luz de 'Fausto' de Goethe"
Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/ValorGustavo Franco explica os papéis de Fausto e do demônio na "tragédia do desenvolvimento brasileiro"

Hans Christoph Binswanger. Trad. de Marcus Vinicius Mazzari. Apresentação e posfácio de Gustavo Franco. Zahar. 216 págs., R$ 42,00

Eternidade, mortalidade, ciência, criação e poder são alguns dos conceitos evocados pela lenda de Fausto, o homem que vende a alma ao diabo em troca de uma vida plena de satisfações. A abrangência do tema e sua universalidade renderam numerosos estudos literários e filosóficos, além de reflexões em outros campos, entre eles o econômico. Um desses é "Dinheiro e Magia - Uma Crítica da Economia Moderna à Luz do 'Fausto' de Goethe", de Hans Christoph Binswanger, que chega agora ao Brasil, com apresentação de Gustavo Franco, autor do posfácio "Fausto e a tragédia do desenvolvimento brasileiro".

Lançado em 1985, o livro de Binswanger se ocupa da segunda parte da tragédia, publicada após a morte de Goethe, que criou três versões da história. A primeira, da juventude, é o "Fausto Zero", retomada por Goethe em 1808, no que ficaria conhecido como "Fausto 1", a mais importante obra do escritor. No chamado "Fausto 2", publicado após a morte de Goethe, está, segundo Gustavo Franco, a transposição socioeconômica do indivíduo, que conhecia um momento de transição dos modelos de convivência humana, testemunhados pelo escritor ao longo de sua própria existência.

"Poucos leram a segunda parte do 'Fausto', extensa e complexa, que surge 60 anos depois da original, no momento em que se abandonava a cultura tradicional abstrata e se procurava o conhecimento desenvolvimentista. Goethe foi jovem num mundo medieval e, na velhice, conheceu o mundo moderno. É essa transição que ele mostra no Fausto 2", diz Franco.

Binswanger considera "Fausto" a "mais moderna de todas as peças", ao destacar "o fascínio criado pela economia", explicada por Goethe como um processo alquímico na busca do ouro artificial. "Todo aquele que não consegue compreender essa alquimia, a mensagem que 'Fausto' de Goethe transmite, não pode entender a dimensão colossal da economia moderna", afirma Binswanger na introdução do livro - escrito para um público que conhece o mito e a peça de Goethe.

"É Mefistófeles quem inspira a criação do papel-moeda, produto da magia, que levará à instauração da economia moderna"

E é para os leitores brasileiros não familiarizados com a obra de Goethe que Franco traça um histórico da lenda em torno de Johannes Faust (1480-1539), alemão que teria praticado medicina, alquimia e astrologia. Maior que o personagem real é o fictício, cujo pacto com o diabo virou tema de volumes apócrifos em alemão, consagrados na peça do inglês Christopher Marlowe, encenada nos palcos elizabethanos em 1592. Cada autor imprimiu características diferentes a Fausto, observa Franco. Enquanto o de Marlowe se arrepende do contrato com Mefistófeles, o de Goethe firma outro tipo de acordo, condicionando a entrega da alma apenas se reconhecesse que havia ficado plenamente satisfeito - algo inalcançável para quem está sempre em busca de novas emoções.

"Este Fausto vem da época de grandes descobertas em arte, ciência e economia. Ele e Mefistófeles aparecem quase como narradores de enredos novos que se delineiam no mundo iluminista, um mundo que ainda pretende resguardar a tradição cultural clássica. É Mefistófeles quem vai inspirar a criação do papel-moeda, o produto da alquimia, da magia, que levará à economia moderna", observa Franco.

Outra discussão que Goethe levanta, e que foi aproveitada por outros autores, como Klaus Mann, está nas concessões ao mal que alguém faz durante toda a existência. "Mefisto", de Mann, fala sobre o sucesso de um ator durante o regime nazista, calcado na trajetória real de Gustaf Gründgens, cunhado do autor. Após a Segunda Guerra Mundial, Gründgens foi absolvido das acusações de ligação com os nazistas. "A sobrevivência exige a negociação com o mal, que, naquele caso, estava representado pelo nazismo", diz Franco.

A análise de Binswanger detalha cada movimento da peça e a relaciona com o fim da economia de subsistência, que tem objetivos finitos de satisfazer as necessidades do homem. "A economia industrial está adaptada a necessidades imaginárias, que podem ser incessantemente expandidas pela fantasia humana", afirma Binswanger, que aponta a familiaridade de Goethe com assuntos econômicos, não só por atuar como conselheiro da corte, mas pela amizade com especialistas como Greg Sartorius, um dos principais divulgadores das ideias de Adam Smith na Alemanha.

Franco conheceu o livro de Binswanger em 1999. Ao preparar a introdução para a edição brasileira, imaginou um ensaio crítico sobre o desenvolvimento econômico sob a ótica da experiência do Brasil. A analogia com "Fausto" está no perdão por métodos questionáveis de crescimento, desde que o objetivo seja alcançado. No ensaio, ele destaca que Fausto é de uma época em que não existe mais o castigo pela curiosidade, "especialmente quando ela envolve a experiência e a realização, embora possa haver condutas reprováveis no caminho". Tais condutas são comuns a todos os povos, que tendem a redimir-se de seus erros, justificando a obtenção de um bem maior.

"Hoje, destroçamos o ambiente. No passado, fomos lenientes com os escravocratas, com a inflação, com a desigualdade. Os meios questionáveis de se chegar a um bem maior são esquecidos, uma vez que se obtém sucesso, o que redime a todos. É o caso do político corrupto, que rouba, mas faz. No fim, ganha-se a salvação, da mesma maneira que, na cena final da segunda parte da peça, os anjos mencionam as realizações de Fausto, que seriam superiores a seu acordo com Mefistófeles", diz Franco.

Da mesma forma que o diabo e Fausto se mostram parceiros de jornada na segunda parte da peça, a associação entre os que movimentam o capital é tão íntima que impede a escolha de um vilão na "tragédia do desenvolvimento brasileiro", diz Franco. Mefisto tanto pode estar no setor privado, "interessado apenas nos próprios lucros e despreocupado com os custos do progresso", enquanto Fausto ficaria no setor público, "em posição honorífica, concursado e estável, funcionário público de coração puro", como Fausto seria o empreendedor constantemente achacado pela corrupção e pelo clientelismo de Mefisto, o burocrata que domina "a regulação, as políticas e os favores emanados do setor público". Para Franco, separadas ou juntas, as duas combinações fazem sentido.

http://www.valor.com.br/impresso/brasil/colossal-e-faustiana-dimensao-da-economia