25.4.08

Valor Econômico - Livros

O mal-estar da civilização
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
25/04/2008





Celebrado mundialmente pela qualidade de sua obra literária, o escritor William Styron pensou em suicídio, na década de 1980, durante um gravíssimo episódio depressivo. Passada a crise, Styron foi um dos primeiros intelectuais a expor suas condições de saúde ao tentar explicar o distúrbio publicamente. O relato de seu intenso sofrimento, originalmente apresentado em palestra para psiquiatras, se transformou no artigo jornalístico que serviu de base para "Perto das Trevas" (Rocco, R$ 19,00). No livro, a evolução da doença é detalhada das primeiras manifestações até o desespero do paciente por não encontrar sentido na existência, mesmo compreendendo racionalmente os sintomas que experimentava.


O prestígio do romancista não foi suficiente para reduzir o estigma da depressão, que, quase 30 anos depois, é uma das principais causas de afastamento de trabalho no mundo inteiro. Os bons resultados obtidos pelos antidepressivos na década de 1990 fizeram dos transtornos emocionais tema de interesse da mídia. A terminologia se modificou, porém a informação sobre a doença ainda é pequena.


"Os males do viver continuam envoltos em uma névoa, sem abordagem objetiva. Está na hora de exorcizar o preconceito contra a psiquiatria e contra os pacientes psiquiátricos", afirma a jornalista Cátia Moraes, autora de "Eu Tomo Antidepressivo, Graças a Deus! - Pacientes e Médicos Desmistificam o Tratamento Psiquiátrico" (Best-Seller, R$ 24,90). Durante dois anos, Cátia entrevistou médicos e recolheu depoimentos de quem passou por diferentes tipos de surtos depressivos, montando um guia sobre manifestações, medicamentos e terapias usados atualmente no tratamento da depressão, incluindo a eletroestimulação, os temidos eletrochoques, administrados hoje com intensidade e quantidade inferiores do que se costumava aplicar no passado.


Com um histórico familiar de depressão, desde muito jovem Cátia ouvia menções veladas ao transtorno, assim como a qualquer manifestação de distúrbios mentais. "Há uma tendência à generalização. Sintomas, patologias, transtorno bipolar, depressão, síndrome do pânico, anorexia, tudo é abordado com um tom misterioso. Vira um assunto meio proibido, como se não fossem problemas orgânicos. Eu quis derrubar as barreiras que cercam a depressão e os problemas de saúde mental em geral", explica.


Para a jornalista Marina W., que em 2005 lançou "Não Sou Uma só: O Diário de Uma Bipolar" (Nova Fronteira, R$ 24,90), as informações sobre doenças mentais ainda estão restritas a poucos. "Eventualmente recebo e-mails de pessoas que estão em círculos mais avessos a essas discussões, nos quais a doença mental permanece como um tabu a ser mantido camuflado. Um policial militar já me escreveu para revelar-se bipolar e identificado com minha história", conta Marina, que observa, apreensiva, a tendência brasileira de amenizar a doença mental e recorrer a qualquer médico para obter remédios de venda controlada. "Parece que todo mundo está vivendo sob a tarja preta. É um pouco perigoso confundir os sintomas. A euforia do bipolar não é produtiva, a depressão é uma doença séria. Hoje ninguém quer sentir dor, melancolia, angústia ou tristeza, mesmo que a receita do remédio seja obtida com um especialista de outra área médica."



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"As empresas devem ficar atentas às perdas porque esses afastamentos tendem a aumentar em todas as profissões", afirma Joel Birman
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O excesso no uso de medicamentos é quase tradicional no Brasil, em especial nas classes menos favorecidas financeiramente. "As camadas populares sempre foram medicalizadas. Muitos médicos, psiquiatras ou outros especialistas receitam tranqüilizantes ou antidepressivos indiscriminadamente. Vivemos encharcados de medicamentos, com uma capacidade cada vez menor de elaborar a angústia e a tristeza que fazem parte da vida. E isso no momento em que, do ponto de vista científico, já se coloca a eficácia dos antidepressivos em dúvida. Uma pesquisa nos Estados Unidos para saber dos efeitos da droga obteve respostas idênticas com pacientes que usaram placebo", informa o psiquiatra e psicanalista Joel Birman, professor de Medicina das Universidades Federal e do Estado do Rio.


Mais de 83 mil brasileiros se afastam do trabalho todo ano por problemas de saúde mental. Esses afastamentos aumentaram 260% de 2000 a 2006, conforme pesquisa do Laboratório de Saúde do Trabalhador da Universidade de Brasília (UnB), que faz o monitoramento de incapacidade para trabalho no Brasil. Em 2006, os transtornos do humor representaram o segundo motivo de ausência de trabalho. Só em auxílio-doença para quem sofria de transtornos neuróticos e relacionados a estresse, o INSS gastou R$ 90 milhões, estimando uma média de 94,8 dias de licença concedidos a cada empregado. Esse tipo de distúrbio tem sido o principal motivo de licenças para quem trabalha em intermediação financeira (bancos), atividades de informática, educação e fabricação de máquinas para escritório, estando acima do grupo de doenças relacionadas a lesões por esforço repetitivo, como tendinites e tenossinovites.


O avanço tecnológico no tratamento dos sintomas das doenças mentais surgiu antes de serem determinadas as causas dos trasntornos. Segundo a médica Anadergh Barbosa, especialista em Saúde Ocupacional e coordenadora do laboratório da UnB, a depressão corresponde a 49% das doenças mentais por afastamento, mas é difícil caracterizar sua relação com o trabalho, já que distúrbios mentais e comportamentais têm origens em diferentes fatores.


Entre os grupos de profissionais mais afetados pelos transtornos estão os que trabalham em serviços de saúde ou intermediação financeira, que apresentam taxas de afastamento duas vezes maiores do que a de metalúrgicos ou fabricantes de produtos químicos. Cátia Moraes lembra que, apesar das advertências da Organização Mundial de Saúde sobre o crescimento dos diagnósticos de depressão, empregadores e planos de saúde ignoram a importância da psicoterapia. "Existem bons serviços gratuitos nos hospitais universitários, mas nem todos têm conhecimento ou acesso a eles. O executivo, o diretor da empresa, pode pagar um tratamento, mas ao povão restam apenas os remédios, como se apenas remover o sintoma levasse à cura", afirma Cátia.


Para Birman, a depressão se destaca no momento histórico da pós-modernidade em que o homem diminuiu progressivamente seu nível de suportar dores físicas ou emocionais e, diante de um apelo de ordem social pelo desempenho, o indivíduo não pode falhar nem fracassar. "O psiquismo não acompanha essas exigências nem o tempo que se acelera frente à vida. Executivos estão entre as categorias que mais sofrem com a pressão por desempenho, por resultados. Por um lado, há uma banalização do uso dos remédios, por outro, pessoas angustiadas com as responsabilidades que são obrigadas a assumir. É preciso que se faça uma reflexão psicossocial. As empresas devem ficar atentas às perdas e reservar espaços para mudar, porque esses afastamentos por saúde tendem a aumentar em todos os campos profissionais", diz o psiquiatra.

Um comentário:

Diz disse...

Gostei do seu artigo. Gosto do que Joel diz, é o que pensamos.
Eu vivo no momento uma tristeza profunda, mas não tomo anti depressivos- nunca me dei bem, sempre tenho os efeitos colaterais qdo tento.
Faço yoga e análise e me exercito na piscina para relaxar. Melhoro. Luto tem que ser vivido, não dá pra fugir, mas tb não sou contra remédios- às vezes é necessário.
Obrigada pelo comentário inteligente lá.
Bjs Laura